O que é

Vigilância científica sobre uma tecnologia que a UE quer conter

O tópico HORIZON-BRIDGING-2027-04-11 integra a chamada Bridging actions 2027 (HORIZON-BRIDGING-2027-04), inscrita no programa de trabalho das Atividades Horizontais do Horizonte Europa 2026-2027. Financia um único projeto de investigação e inovação, com cerca de 10 milhões de euros, para reforçar a capacidade de detetar, monitorizar, modelar e atribuir atividades de modificação da radiação solar (SRM, na sigla inglesa) e avaliar os seus impactos no clima e nos ecossistemas.

A SRM agrupa as técnicas que procuram arrefecer o planeta refletindo parte da energia solar, sem reduzir gases com efeito de estufa: injeção de aerossóis na estratosfera (SAI), branqueamento de nuvens marinhas (MCB) e adelgaçamento de cirros ou de nuvens de fase mista (CCT/MCT). O enquadramento político é explícito. As conclusões do Conselho sobre diplomacia climática e energética de 21 de abril de 2026 consideram que estas intervenções representam riscos significativos para o clima, o ambiente, a segurança e a geopolítica. As decisões X/33 e XI/20 da Convenção sobre a Diversidade Biológica mantêm uma moratória de facto à sua implantação.

Por isso o tópico tem uma cláusula pouco habitual: o apoio não pode ser usado para defender, promover ou apoiar o desenvolvimento de SRM. Experiências de campo e investigação técnica ou operacional sobre SRM ficam fora de âmbito. O que se financia é a capacidade de vigilância. A chamada abre a 6 de outubro de 2026 e fecha a 16 de fevereiro de 2027, em fase única.

10M€
Contribuição da UE
1
Projeto financiado
100%
Taxa de financiamento RIA
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

É um tópico de ciência ao serviço de uma decisão política: dar à União e aos Estados-Membros base técnica para um regime internacional de governação da SRM.

  • I&D e ciência: o núcleo do projeto é modelação de alta fidelidade das interações aerossol-nuvem para SAI, MCB e CCT/MCT, com efeitos na química e dinâmica atmosférica, bem como a validação cruzada de métodos de medição físico-química em ambiente natural, já que não haverá ensaios de campo.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o projeto deve lançar as bases de um sistema de alerta ecológico precoce, capaz de prever como mudanças de precipitação e de qualidade da luz induzidas por SRM perturbariam a fotossíntese, a produção primária marinha e terrestre e os habitats sensíveis.
Resultados esperados

Quatro capacidades que o projeto tem de entregar

CapacidadeO que o programa de trabalho pede
Base de conhecimentoSociedade civil, investigadores, autoridades e decisores com acesso a conhecimento sólido sobre deteção, atribuição e dissuasão de atividades de SRM, como contributo para um sistema multilateral de governação
Suporte à governação globalInvestigação documental, modelação, observação da Terra e documentação das trajetórias tecnológicas e dos impactos nos oceanos, na circulação atmosférica, nas monções e na precipitação, nas sociedades e nos ecossistemas
Modelação aerossol-nuvemModelos globais e regionais para SAI, MCB e CCT/MCT como base científica de um sistema de deteção e dissuasão
Dados de observaçãoDados espaciais, terrestres, aéreos e in situ (por exemplo Copernicus), incluindo dados sociais e mediáticos, para detetar, avaliar e atribuir atividades de SRM ao ar livre

O conhecimento gerado deve também alimentar os contributos europeus para os processos internacionais de avaliação, a começar pelo IPCC, alinhando-se com a CBD e com as ambições do Pacto para os Oceanos.

Condições específicas

Conflitos de interesse, transparência e envolvimento global

O tópico traz regras de composição do consórcio e de governação do projeto que pesam na avaliação:

  • Conflito de interesse: entidades com interesse conhecido no desenvolvimento comercial ou na implantação de SRM devem ser evitadas. O critério de implementação é acrescido de um ponto específico: os procedimentos de gestão do risco de conflito entre um quadro de governação restritivo e interesses comerciais dos parceiros.
  • Avaliação: o comité de avaliação inclui representantes das instituições da UE.
  • Transdisciplinaridade: o projeto tem de juntar disciplinas técnicas e humanidades, porque as críticas à SRM são tanto científicas como éticas e de governação.
  • Envolvimento de cidadãos: a cocriação da agenda com a sociedade civil é considerada indispensável, com dimensão global refletida num conselho consultivo que também aconselha sobre o risco de uso indevido dos resultados e pode propor pontos de paragem.
  • Ciência aberta: princípios FAIR, pré-registo e preprints fortemente encorajados, licenças Creative Commons para resultados que não sejam publicações, com gestão rigorosa da informação sensível do ponto de vista da segurança.
  • Dados de satélite: se o projeto usar observação da Terra, posicionamento ou navegação por satélite, tem de usar Copernicus e/ou Galileo/EGNOS.
Tópicos irmãos da mesma chamada
A chamada HORIZON-BRIDGING-2027-04 tem mais dois tópicos com envelope próprio e o mesmo prazo: o BRIDGING-2027-04-03 (20 M€ para levar soluções de resiliência climática ao mercado) e o BRIDGING-2027-04-08 (5 M€ para a sustentabilidade dos dados de projeções climáticas). São candidaturas independentes.
Para quem

Um consórcio de investigação com peso institucional

O perfil natural do coordenador é um centro de investigação em ciências atmosféricas, clima ou observação da Terra, com experiência em modelação de aerossóis e nuvens. À volta dele, o consórcio precisa de grupos de ecologia marinha e terrestre, especialistas em deteção remota e fusão de dados, investigadores de ciências sociais, ética e direito internacional do ambiente, além de organizações da sociedade civil para a componente participativa. Empresas de serviços de observação da Terra e de análise de dados podem entrar como parceiras técnicas, desde que não tenham qualquer interesse comercial em tecnologias de SRM.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Com um único projeto em jogo e um tema politicamente sensível, a competição vai ser entre poucos consórcios muito bem posicionados. Equipas portuguesas com trabalho reconhecido em física da atmosfera, oceanografia, deteção remota ou governação climática têm mais a ganhar a integrar um desses consórcios com uma tarefa bem delimitada do que a tentar liderar. O Atlântico e a Macaronésia são, aliás, um argumento natural para quem trabalha em nuvens marinhas e produção primária oceânica.

Na redação da proposta, o erro a evitar é tratar a cláusula de exclusão como uma nota de rodapé. Qualquer formulação que soe a otimizar ou validar técnicas de SRM afasta a proposta do âmbito. O plano de gestão de conflitos de interesse, a composição do conselho consultivo com representação global e o protocolo para informação sensível devem estar descritos com o mesmo detalhe que os modelos atmosféricos, porque são avaliados de forma explícita.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]