Fechar o ciclo com informação de confiança
A circularidade é uma peça essencial da transformação da indústria rumo à neutralidade climática e à competitividade de longo prazo. Pode gerar poupanças significativas de materiais ao longo das cadeias de valor e dos processos produtivos, criar valor adicional e abrir novas oportunidades económicas. O princípio é simples de enunciar: o resíduo de um processo torna-se matéria-prima secundária de outro. A dificuldade está em concretizá-lo com garantias.
O tópico HORIZON-CL4-2022-RESILIENCE-01-01, integrado na parceria co-programada Processes4Planet, partia de uma constatação: a utilização eficiente de materiais na cadeia de valor, para fechar o ciclo ou reutilizar noutras indústrias, só é possível através de um sistema de informação transparente. Havia, por isso, que desenhar e pilotar um sistema de informação para matérias-primas e componentes ao longo de toda a cadeia de valor das indústrias de processo.
Esta ficha é uma referência editorial. A chamada de 2022 já encerrou, mas a economia circular nas indústrias de processo mantém-se no topo da agenda europeia, com a parceria Processes4Planet a alimentar tópicos sucessores em programas de trabalho mais recentes.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico assenta num cruzamento pouco óbvio mas decisivo: só há circularidade real quando existe rasto digital fiável do material. É por isso que resolve simultaneamente uma necessidade ambiental e uma necessidade tecnológica.
- Sustentabilidade, energia e clima: o resultado esperado era demonstrar aumento da redução de resíduos e otimização do uso de matérias-primas secundárias nas cadeias de valor, contribuindo diretamente para a descarbonização e a resiliência das indústrias de processo.
- Digitalização e inteligência artificial: o meio para lá chegar era digital, com sistemas de rastreio e certificação de matérias-primas secundárias, acesso em tempo real a informação sobre composição e qualidade dos materiais e integração de passaporte de produto e esquemas de certificação.
O que os projetos tinham de entregar
As propostas tinham de propor novas soluções para melhorar o uso de matérias-primas secundárias, dentro da própria indústria ou noutras, além de metodologias de rastreio e certificação digital dessas matérias. Isto incluía acesso em tempo real a informação sobre a composição e a qualidade dos materiais ao longo de toda a cadeia de valor, ferramentas digitais para integrar passaporte de produto e esquemas de certificação e software de código aberto, hardware aberto e acesso facilitado aos dados, de modo a partilhar informação com a própria indústria e com outras.
Um dos elementos concretos era o desenvolvimento de meios para indicar a composição e a origem dos materiais reciclados, com o código de barras apontado como uma opção possível. As propostas deviam ainda contemplar o co-desenho de recursos de aprendizagem com organizações educativas locais e regionais, para atuais e futuras gerações de trabalhadores. As propostas deviam ainda incluir um business case e uma estratégia de exploração, contribuindo sempre que possível para a normalização.
Quem se candidatava e em que moldes
Tal como as restantes ações do Horizonte Europa, este tópico exigia consórcios transnacionais. Reuniam-se indústrias de processo, fornecedores de tecnologia digital, centros de investigação e, dado o requisito de recursos de aprendizagem, organizações educativas de vários Estados-Membros e países associados. Para uma empresa industrial ou tecnológica portuguesa, o acesso passava por integrar um consórcio, contribuindo com um caso de uso de circularidade real ou com competência em rastreabilidade digital de materiais.
Sendo uma ação de investigação e inovação (RIA), o financiamento cobria 100% dos custos elegíveis. As condições gerais de elegibilidade, capacidade financeira e critérios de avaliação seguiam os anexos gerais do Programa de Trabalho do Horizonte Europa.
O que recomendamos
Ainda que encerrada, esta chamada é um bom mapa do que a Europa valoriza na economia circular industrial. O passaporte digital de produto, a rastreabilidade de matérias-primas secundárias e a certificação de origem deixaram de ser conceitos de nicho e passaram a ser requisitos que a regulação europeia está progressivamente a tornar obrigatórios. Uma empresa das indústrias de processo que trabalhe nestes temas tem uma janela recorrente de financiamento europeu à sua frente.
O ponto mais subestimado destas candidaturas é a dimensão de sistema. Não basta reciclar melhor. É preciso construir a infraestrutura de informação que permite provar, em tempo real, a composição e a qualidade do material reciclado. Empresas que já recolhem estes dados internamente partem com vantagem, porque o que o consórcio precisa é exatamente do caso de uso industrial que valida o sistema. Vale a pena cruzar este tema com os apoios nacionais à economia circular e com os tópicos mais recentes do Clean Industrial Deal.
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