Uma oficina robótica em órbita
O tópico HORIZON-CL4-2025-02-SPACE-21 financiou o desenho detalhado da componente de serviço da missão piloto europeia de operações e serviços no espaço, conhecida pela sigla ISOS. O objetivo estratégico desta missão é desenvolver a capacidade europeia de agir no espaço, demonstrando até 2030 uma infraestrutura de serviço que sirva de semente a uma nova economia em órbita e que reforce a autonomia tecnológica da União Europeia.
A componente de serviço é a parte robótica da missão. Está pensada para prestar, em órbita, serviços que hoje são impossíveis ou descartáveis: inspeção, atualização, reparação, extensão de vida útil incluindo reabastecimento, entrega e troca de carga útil, reconfiguração, deslocação, captura e remoção de objetos no espaço. Em vez de cada satélite ser um objeto fechado que se torna lixo no fim da vida, a ambição é criar uma infraestrutura altamente automatizada, flexível e economicamente viável, assente em princípios de economia circular como a funcionalidade plug-and-play e a reutilização de módulos.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de investigação e inovação dirigida a uma capacidade espacial estratégica, a necessidade que mobiliza é uma só, ainda que com uma orientação clara para o uso comercial e governamental futuro.
- I&D e ciência: o tópico financiava investigação para concluir o desenho detalhado da componente de serviço, levar as tecnologias críticas ao nível de maturidade exigido e desenvolver casos de uso reais, incluindo um conceito de operações para servir um ativo europeu concreto em órbita. As atividades deviam atingir o TRL 6 no final do projeto, segundo a definição aplicável ao setor espacial.
Desenho detalhado e maturação de tecnologia
A missão ISOS está organizada em componentes que têm de funcionar em conjunto. Este tópico tratava especificamente da componente de serviço robótico. As ações de investigação e inovação a desenvolver incluíam:
- Concluir o desenho detalhado da missão e do sistema para a componente de serviço, partindo de desenvolvimentos anteriores e demonstrando que todas as tecnologias relevantes atingem o TRL necessário.
- Contribuir para o desenho global da missão piloto ISOS, em cooperação estreita com as restantes componentes, com a ação de coordenação e com o grupo consultivo da missão.
- Investigar capacidades de serviço e aplicações, incluindo conceitos operacionais para servir satélites individuais ou frotas, até à entrega de um conceito de operações para um caso de uso real.
- Recorrer a tecnologias e blocos de construção europeus, contribuindo para a não dependência e a competitividade da União.
As propostas deviam promover a cooperação entre indústria, PME e instituições de investigação e considerar oportunidades de transformar rapidamente a inovação tecnológica em uso comercial no espaço, por demonstração em terra ou em órbita. Caso surgisse a possibilidade de uma demonstração em órbita autónoma para a componente de serviço antes da missão piloto, o projeto teria de garantir total compatibilidade com o conceito detalhado da ISOS e a interoperabilidade com as outras componentes.
Que perfil de organização servia
A natureza deep tech do tópico, ligada a uma missão espacial estratégica europeia, definia um consórcio industrial e científico de elevada especialização:
- Empresas e integradores do setor espacial com competência em robótica orbital, sistemas de captura, acoplamento e operações de serviço.
- PME de tecnologia espacial e deep tech capazes de levar inovação ao TRL 6 e de a preparar para uso comercial e governamental.
- Centros de investigação e universidades com competência em sistemas espaciais, robótica e operações em órbita.
Os projetos selecionados tinham de colaborar com os das componentes vizinhas da missão, em particular os tópicos SPACE-22, 23 e 24 e com a respetiva ação de coordenação, formalizando essa cooperação num acordo de colaboração. Os custos elegíveis assumiam a forma de montante fixo, com atividades a poder envolver informação classificada ou sensível da União.
O que recomendamos
A componente de serviço é o coração da missão ISOS e o sinal mais claro da mudança de ambição da política espacial europeia. Reparar, reabastecer e remover satélites em órbita deixa de ser ficção e passa a ser uma capacidade que a Europa quer dominar, por razões de autonomia estratégica e por causa do mercado que cria. É um dos tópicos mais exigentes do destino Espaço, com dotações por projeto entre 6 e 12 milhões de euros e um nível de maturidade tecnológica alto.
O ponto a reter é que estes tópicos não vivem isolados. Fazem parte de uma missão coordenada, com componentes que se obrigam a colaborar e com uma elegibilidade geográfica apertada que valoriza quem já está nas redes industriais e científicas certas. Para empresas e centros portugueses com competência em robótica, sistemas espaciais e operações em órbita, a recomendação é seguir de perto os próximos tópicos do destino Espaço do Cluster 4 e da Agência Espacial Europeia e construir cedo as parcerias que dão acesso a estes consórcios, porque é aí que se define quem participa nas missões da próxima década.
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