A ciencia que responde a pergunta "foi o clima?
Quando uma vaga de calor extraordinaria atinge a Europa ou uma cheia devastadora arrasa uma regiao, a pergunta pública e imediata: foi o clima ou seria de qualquer forma? A ciencia de atribuicao climática existe precisamente para responder a esta pergunta com rigor quantitativo. Avalia em que medida as alteracoes climáticas de origem antropica aumentaram a probabilidade ou a intensidade de um evento especifico.
O topico HORIZON-CL5-2025-06-D1-04 financia investigação que avance esta ciencia em multiplas direcoes: metodologias de atribuicao mais robustas, bases de dados globais de eventos extremos e aplicacoes operacionais que sirvam a proteção civil, o planeamento humanitario e a adaptação climática. A ambicao vai alem da publicacao academica, com um enfase explicito na co-concepcao com partes interessadas nao cientificas.
Do conhecimento fisico a operacionalizacao
O aviso identifica um conjunto de linhas de investigação que os projetos devem enderecar, combinando a fisica do clima com a sua traducao prática.
- Atribuicao fisica: combinar observacoes e modelos para separar a contribuicao antropica da variabilidade natural em eventos de calor extremo, precipitacao intensa, secas prolongadas e eventos de inicio lento como a subida do nível do mar.
- Bases de dados globais: criar ou melhorar repositorios de eventos extremos com qualidade e cobertura suficientes para análise estatistica robusta, especialmente em regioes com escassa monitorizacao historica.
- Eventos compostos e em cascata: analisar eventos que combinam multiplos fatores simultaneos, como secas associadas a calor extremo, ou inundacoes agravadas por incendios florestais anteriores.
- Operacionalizacao: traduzir a ciencia de atribuicao em ferramentas uteis para proteção civil, seguros, planeamento urbano e ajuda humanitaria, atraves de processos de co-concepcao com utilizadores finais.
- Justica climática: integrar consideracoes de equidade na análise dos impactos, reconhecendo que as populacoes mais vulneraveis sofrem de forma desproporcionada os efeitos dos eventos extremos.
Um dos topicos mais disputados do call
Com 17 propostas recebidas para dois projetos financiados (EUR 6 milhoes cada), este foi um dos topicos mais competitivos do Call HORIZON-CL5-2025-06. A taxa de sucesso implicita foi de cerca de 12%, inferior a media historica do Horizonte Europa. Os resultados de avaliação foram comunicados em 3 de fevereiro de 2026.
O elevado número de candidaturas reflete a maturidade crescente da comunidade científica de atribuicao climática na Europa, com grupos de investigação ativos em varios paises, incluindo Portugal. A Agencia Portuguesa do Ambiente e centros como o IDL e o IPMA participam regularmente em redes europeias nesta area.
Porque importa para alem da academia
A ciencia de atribuicao climática tem implicacoes práticas crescentes em varias dimensoes. No ambito legal e de responsabilidade, os tribunais comecam a usar evidencia de atribuicao para avaliar responsabilidades em litigios climaticos. No setor segurador, a quantificacao do risco de eventos extremos e indispensavel para a atualizacao de apolices e modelacao de perdas. Na politica de adaptação, saber quais os eventos que vao tornar-se mais frequentes ou intensos orienta investimentos em infraestrutura e proteção civil.
O aviso reconhece explicitamente esta dimensao aplicada ao exigir a co-concepcao com utilizadores finais desde a fase de proposta. Os projetos nao podem ser puramente academicos: devem demonstrar como os seus resultados chegam a quem deles necessita.
O que recomendamos
A ciencia de atribuicao climática e uma das areas de maior crescimento no Horizonte Europa. O elevado número de propostas neste topico confirma que a concorrencia e intensa, mas tambem que a comunidade europeia esta a amadurecer nesta area. Os centros de investigação portugueses com capacidade de modelacao climática devem acompanhar os projetos financiados e estabelecer relacoes de colaboracao com as equipas vencedoras.
Para empresas do setor segurador, utilities e gestão de risco, o interesse nao esta no financiamento europeu direto, mas nos resultados que estes projetos vao produzir: bases de dados, metodologias e servicos climaticos operacionais que podem ser incorporados em modelos de risco proprietarios. A Open Capital pode apoiar na identificacao de como aceder e utilizar esses outputs.
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