Africa, o continente mais vulneravel com os modelos climaticos mais fracos
O topico HORIZON-CL5-2026-07-D1-05 e o mais dotado da call HORIZON-CL5-2026-07, com 21 milhoes de euros e tres grants de 7 milhoes cada. Este volume reflete a dimensao do desafio: Africa e o continente mais vulneravel as alteracoes climáticas, com as maiores lacunas em capacidade de previsão meteorologica e modelacao climática regional e ao mesmo tempo o continente com menor representacao nas redes globais de ciencia do clima.
A logica deste topico e simultaneamente científica e politica. Científica porque os modelos globais do clima sao sistematicamente menos precisos para Africa, em particular na previsão de precipitacao e eventos extremos, o que compromete decisoes de adaptação em agricultura, gestão hidrica e planeamento de emergencia. Politica porque a Europa reconhece a sua responsabilidade historica e o interesse estratégico em fortalecer a soberania científica africana em temas de clima.
Uma elegibilidade geografica excecional no Horizon Europe
Este topico tem uma caracteristica única no Horizon Europe: as entidades legais de todos os estados-membros da Uniao Africana sao excecionalmente elegiveis para financiamento direto. Normalmente, o programa so financia entidades de estados-membros da UE e paises associados. Aqui, a elegibilidade e deliberadamente alargada para garantir que os parceiros africanos sao co-beneficiarios com poder real no consorcio, nao subcontratados.
O requisito mínimo e claro: pelo menos 30% dos beneficiarios do consorcio devem ser de estados-membros da Uniao Africana. Este calculo e feito sobre o número de entidades, nao sobre o orcamento. Um consorcio de dez entidades precisa de pelo menos tres africanas como beneficiarias. Esta exigencia nao e apenas formal: a avaliação verifica se os parceiros africanos lideraram componentes substantivas da proposta, incluindo na definição de objetivos e metodologias.
Capacitacao, dados, tecnologia e acesso aberto
Precipitacao e eventos extremos: as lacunas mais criticas
Embora o call seja amplo na sua formulacao, o foco científico prioritario e a melhoria da previsão de precipitacao e eventos meteorologicos extremos em Africa. Os modelos climaticos globais tem biases sistematicos em Africa que resultam de tres problemas nao resolvidos: a representacao inadequada da convecao profunda tropical, a falta de dados de alta resolucao para parametrizacao e a heterogeneidade topografica e de uso de solo que os modelos de grande escala nao conseguem capturar.
Propostas que demonstrem abordagens inovadoras para pelo menos um destes problemas, com validacao empirica usando dados africanos reais, serao altamente competitivas. A componente de relevancia local e igualmente valorizada: resultados que sejam utilizaveis por servicos nacionais de meteorologia africanos ou por agricultores e gestores de recursos hídricos tem mais impacto percecionado pelos avaliadores do que resultados de interesse exclusivamente academico.
O que recomendamos
Este e o topico mais generoso da call D1 em termos de financiamento por projeto - 7 milhoes de euros - o que reflete tanto a complexidade do trabalho como a ambicao de construir parcerias UE-Africa duradouras. O tamanho do grant justifica um consorcio maior e mais diversificado, o que aumenta a complexidade de gestão mas tambem a credibilidade das candidaturas.
O requisito africano de 30% e um filtro rigoroso na prática. Entidades portuguesas que ja tenham parcerias com universidades ou centros de investigação em paises como Mocambique, Angola, Cabo Verde ou Guine-Bissau estao numa posicao privilegiada para montar ou liderar um consorcio competitivo, aproveitando relacoes pre-existentes baseadas em lingua, história e projetos anteriores de cooperação científica.
Portugal tem uma oportunidade estratégica real neste topico que e frequentemente subestimada. A FCUL, o IPMA, o LNEC e centros de investigação como o CESAM ou o IDL tem massa critica em ciencia do clima. A combinacao deste know-how técnico com parcerias africanas pre-existentes e um ativo diferenciador face a consórcios de outros paises europeus que precisam de construir essas relacoes de raiz.
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