Reindustrialização do fotovoltaico europeu
O HORIZON-CL5-2027-02-D3-15 é uma Innovation Action que financia o desenvolvimento e demonstração de tecnologias de produção de células e módulos fotovoltaicos para além do estado da arte, integradas numa linha-piloto multi-MWp-ready, resiliente, energeticamente eficiente e livre de defeitos. O tópico implementa a Parceria Europeia co-programada para a Inovação em Fotovoltaicos (EUPI-PV) e enquadra-se na estratégia REPowerEU, no Net-Zero Industry Act e na Solar Strategy europeia.
O contexto político-industrial é determinante para perceber o sentido da call. A UE colocou-se como meta atingir 600 GWac de PV instalado até 2030 (Solar Strategy) e re-consolidar a capacidade europeia de produção fotovoltaica em toda a cadeia de valor para cobrir pelo menos 40% das necessidades anuais de deployment (NZIA), ou seja, 30 GW anuais de capacidade europeia até 2030. Para chegar lá, é insuficiente competir com fabricantes asiáticos nos produtos atuais; é necessário saltar para tecnologias de próxima geração que ofereçam vantagem competitiva real (eficiência, custo, durabilidade) e onde a Europa possa estabelecer liderança industrial. É essa a aposta da ação.
Necessidades que este instrumento resolve
O instrumento responde a um desafio dual: gerar conhecimento técnico avançado e simultaneamente preparar a sua transição para escala industrial europeia. Não é uma ação de I&D pura nem uma ação de scale-up puro; é a ponte explícita entre os dois.
- I&D e ciência: financia desenvolvimento de células e módulos com eficiência de conversão acima do disponível comercialmente, mantendo ou melhorando a fiabilidade e degradação face às tecnologias maduras. Inclui investigação aplicada em novas arquiteturas (tandem, perovskite-silício, células com novos materiais) e em processos de fabrico ainda não otimizados industrialmente.
- Sustentabilidade, energia e clima: a reindustrialização da cadeia PV europeia é um vetor central da segurança energética e da descarbonização. Reduzir dependência de importações asiáticas em PV é simultaneamente uma medida climática (reduzir custos do PV acelera o deployment renovável) e geoestratégica (reduzir vulnerabilidade da transição energética europeia a tensões geopolíticas e a controlo extra-europeu de tecnologia crítica).
Eficiência beyond SOTA, linha-piloto multi-MWp, TRL 7
As propostas têm de demonstrar três elementos integrados: células ou módulos com eficiências de conversão acima das comercialmente disponíveis e fiabilidade ao nível das tecnologias maduras; tecnologia de produção multi-MWp-ready, resiliente e livre de defeitos para essas células ou módulos; e o equipamento de produção e a linha-piloto associada, incluindo processamento digitalizado e automatizado. Esta combinação garante que o projeto não fica num resultado laboratorial mas chega a tecnologia industrialmente replicável.
A maturidade alvo é TRL 7, demonstração em ambiente operacional, o que requer linha-piloto a funcionar com produção real em escala multi-MWp. Esta exigência distingue a ação de calls de I&D fundamental e força a parceria com fabricantes de equipamento, integradores e investidores privados que vejam o resultado como base para uma fábrica subsequente. O plano de exploração tem de incluir plano de scalability, comercialização e deployment com referência expressa ao Innovation Fund como fonte potencial de financiamento subsequente para industrialização à escala.
Três contribuições obrigatórias para o ecossistema PV europeu
- Comercialização de tecnologias inovadoras: aumentar o potencial de comercialização criando know-how técnico competitivo para a base industrial PV europeia, ou seja, evidência prática de que a tecnologia desenvolvida pode ser transferida para fabricantes europeus.
- Apoio à EU Solar PV Industry Alliance: contribuir para os objetivos da aliança industrial europeia para o PV, garantindo coerência com a estratégia política e industrial coordenada pela Comissão e pelos Estados-Membros.
- Solar joint research agenda: apoiar a execução da agenda conjunta de investigação e inovação solar europeia, alinhamento com EUPI-PV e com o trabalho da SET Plan Implementation Working Group on PV.
Fabricantes europeus, RTOs e investidores industriais
O consórcio vencedor combina tipicamente três tipos de parceiros. Fabricantes europeus de células ou módulos com capacidade de hospedar a linha-piloto (Meyer Burger na Alemanha, 3SUN/Enel Green Power em Itália, Photowatt em França, Heckert Solar, Voltec). Fornecedores europeus de equipamento de produção PV (Singulus, Centrotherm na Alemanha, von Ardenne, RENA, ECM). E RTOs e universidades europeias com massa crítica em PV avançado (Fraunhofer ISE em Freiburg, CEA INES em Chambéry, IMEC em Lovaina, ENEA em Roma, TNO nos Países Baixos, ISC Konstanz).
A inclusão de startups e scale-ups PV europeias é estratégica. A Solar Strategy enfatiza que novas tecnologias permitem a startups e scale-ups manufaturar e colocar no mercado produtos competitivos, reforçando a resiliência da cadeia europeia. Empresas como Oxford PV (tandem perovskite-silício), Solitek, Sunmaxx PVT, ou empresas em fase pré-comercial podem ser parceiras chave para trazer tecnologia próxima do mercado para a linha-piloto.
Calendário e regras Horizon Europe
A elegibilidade segue Annex B do Work Programme. Países UE e associados ao Horizonte Europa são elegíveis, em consórcio mínimo de três entidades de pelo menos três países diferentes. Para componentes que envolvam dados de satélite (relevantes para monitorização de instalações PV ou georreferenciação industrial), o uso de Copernicus e/ou Galileo/EGNOS é requisito. A deadline é a 5 de novembro de 2027.
A autoridade de financiamento europeia pode objetar à transferência de ownership de IP até 4 anos após o final da ação. Esta condição é particularmente relevante em PV avançado, onde a propriedade intelectual pode ser ativo crítico para a competitividade da Europa face a aquisições de fora da UE. O plano de exploração tem de apresentar um business case sólido com cenários de comercialização e deployment realistas.
O que recomendamos
Portugal tem ativos científicos em PV que podem ter posição relevante neste tópico. O LNEG em Lisboa tem laboratórios de caracterização e fiabilidade de células e módulos com reconhecimento europeu. O IST e o INESC TEC têm grupos ativos em materiais para PV, perovskites e tandem. O LIP, em parceria com IST, tem trabalho em medidas de qualidade ótica de materiais que pode ser útil em controlo de qualidade de linhas-piloto. Apesar de Portugal não ter atualmente fabricante europeu de células à escala industrial, tem a Open Renewables na cadeia de valor e a Magtraders com integração de módulos.
A entrada estratégica para Portugal nesta ação é principalmente como parceiro científico e tecnológico de RTOs europeus e fabricantes em scale-up. As universidades e centros portugueses podem contribuir em caracterização de células, modelação de degradação, simulação ótica e elétrica, sem precisar de massa crítica industrial local. Em paralelo, a Open Renewables, AVE e fabricantes de inversores nacionais (Magnum, Hardpower) podem ser parceiros em integração e sistemas BOS quando a linha-piloto chegar a módulos finais.
Para empresas industriais portuguesas com competência em automação e metalomecânica de precisão (sectores ativos no norte do país), há oportunidade de fornecimento de equipamento ou subsistemas para fabricantes europeus em scale-up. Posicionar-se em 2026 como fornecedor potencial para uma fábrica europeia de células ou módulos é uma jogada de longo prazo que pode beneficiar da retoma industrial europeia anunciada pelo NZIA.
Recomendamos análise sistemática durante o primeiro semestre de 2026 dos consórcios europeus em formação para este tópico, e exploração ativa de parcerias com Fraunhofer ISE, IMEC, ENEA e CEA INES, onde investigadores portugueses já têm relações estabelecidas. A Open Capital pode apoiar nessa articulação institucional e na avaliação de fit estratégico para empresas industriais portuguesas que considerem entrar na cadeia PV europeia em reconstrução.
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