O que é

Demonstração europeia de energia das ondas e das marés

O HORIZON-CL5-2027-02-D3-09 é uma ação Horizon Europe que financia o desenvolvimento, validação e demonstração de tecnologias inovadoras para sistemas de energia das ondas e das marés, com objetivo de tornar estas tecnologias custo-competitivas e operacionais com impacto ambiental mínimo. É um dos tópicos onde a Comissão admite combinar três instrumentos diferentes (Innovation Actions, Coordination and Support, e COFUND), o que reflete a heterogeneidade do trabalho necessário: I&D de base, validação em laboratório, demonstração em mar real, coordenação setorial e mobilização de financiamento adicional.

A ação cobre três desafios complementares dentro do mesmo projeto. O Breakthrough Challenge financia trabalho exploratório em conceitos novos que possam transformar o setor (novos princípios de captura de energia, materiais ainda em laboratório, geometrias não testadas). O Validation Challenge testa em laboratório e ambientes relevantes tecnologias existentes ou recentemente desenvolvidas, na ponte entre protótipo laboratorial e prontidão para mar. O Demonstration Challenge faz demonstrações até TRL 7 em mar real, com metodologia de stage gates e milestones go/no-go bem definidos.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A ação ataca em paralelo a maturação científica e tecnológica da energia oceânica e a sua transição para deployment operacional. Para o setor europeu de energia oceânica, fragmentado e ainda dependente de financiamento público para chegar à fase comercial, é o instrumento mais relevante no horizonte 2027-2032.

  • Sustentabilidade, energia e clima: a energia das ondas e das marés é uma das raras fontes renováveis com perfil de produção previsível e complementar ao solar e ao eólico. Demonstrar que é viável a custos competitivos contribui diretamente para a descarbonização do mix elétrico europeu, a segurança energética da UE e a redução da dependência de gás importado.
  • I&D e ciência: financia o ciclo completo desde investigação exploratória (Breakthrough) a validação laboratorial (Validation) e demonstração em mar real (Demonstration). Inclui materiais sustentáveis, sistemas de amarração para ambientes severos, monitorização condicional com IA e digital twin, técnicas de fabrico avançado, instalação e descomissionamento. Permite testar em paralelo conceitos novos e maduros, gerando aprendizagem cruzada.
Estrutura financeira

€24 M cap por demonstração, €800K FSTP, 5 anos

€227,6M
Envelope total 2027
€24M
Cap demonstração por projeto
€800K
FSTP máximo por terceiro
5anos
Duração típica

A estrutura financeira reflete a complexidade técnica e geográfica do setor. Cada projeto pode mobilizar até €24 milhões de financiamento UE para atividades de demonstração, valor expressivo que permite construir e operar dispositivos full-scale em mar. Em paralelo, o projeto pode operar calls Financial Support to Third Parties (FSTP) que distribuem grants até €800 mil por entidade beneficiária a developers oceânicos, PME, RTOs e demonstrator hosts não incluídos no consórcio inicial.

A gestão de projeto não pode exceder 7% do total de financiamento UE, regra que limita o overhead administrativo de consórcios grandes e força concentração de recursos nas atividades técnicas. O limite de páginas da proposta é alargado para 60, reconhecendo a complexidade da ação. A duração típica é de 5 anos, suficiente para concluir um ciclo completo de desenvolvimento, teste laboratorial, deployment em mar, monitorização operacional e desinstalação.

Áreas técnicas no escopo

Seis vetores que o consórcio deve cobrir

  • Dispositivos e PTO: conversores wave energy converters e turbinas de marés inovadores, com Power Take-Off de maior eficiência e durabilidade em condições oceânicas.
  • Materiais sustentáveis: materiais com menor pegada ambiental e custos de ciclo de vida, resistentes a corrosão, biofouling e fadiga em ambiente marinho.
  • Sistemas de amarração: mooring systems para ambientes oceânicos severos com vida útil estendida, redução de manutenção, custos competitivos e ancoragem otimizada.
  • Monitorização condicional e IA: condition monitoring com aplicações de IA e digital twin para manutenção preditiva, redução de OPEX e maximização de availability.
  • Fabrico avançado: técnicas de manufatura que permitam redução de custos e scaling de produção, automação e padronização de componentes.
  • Instalação e descomissionamento: tecnologias de instalação e remoção, incluindo embarcações especializadas e procedimentos que reduzam custos e janelas operacionais.
Mínimo de três demos
Cada projeto tem de planear no mínimo três atividades de demonstração com focos distintos: diferentes classes de dispositivo, diferentes ambientes operacionais (Atlântico, Mar do Norte, Mediterrâneo), ou diferentes elementos da cadeia de valor. Esta exigência impede projetos monolíticos focados num único produto e força diversificação tecnológica e geográfica dentro do mesmo consórcio.
Governança e exigências de gestão

Stage gates, SET Plan e mitigação de risco

A Comissão exige governança forte e específica. O consórcio tem de constituir um Advisory Board com representantes do SET Plan Implementation Working Group on Ocean Energy, garantindo alinhamento com a política europeia para o setor. As atividades de demonstração são geridas com metodologia de stage gates: pontos de controlo formais com critérios go/no-go, em que o projeto não avança sem cumprir milestones técnicos e financeiros pré-definidos.

Os planos de mitigação de risco têm de cobrir quatro dimensões: tecnológica, ambiental, regulatória e comercial. Deliverables anuais alinhados com os KPI do SET Plan contribuem para a monitorização da roadmap europeia de energia oceânica. Esta governança detalhada é uma exigência prática que distingue a call de tópicos Horizon mais flexíveis e que reflete a aprendizagem com falhas de projetos anteriores em que dispositivos falharam em mar sem decisão estruturada de paragem.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Portugal tem uma posição diferenciada nesta call que justifica análise prioritária. O país é membro fundador da WavEC Offshore Renewables, uma das organizações europeias de referência em energia das ondas, e tem zona-piloto autorizada na costa portuguesa (Aguçadoura, Peniche) que serve há mais de dez anos como local de testes para tecnologias internacionais. O LNEG e a U. Porto têm massa crítica em modelação de recurso e materiais marinhos. A EDP, com a sua subsidiária EDP Renováveis, tem experiência operacional em offshore wind e potencial de extensão a wave-tidal.

A entrada estratégica para empresas portuguesas é tripla. Primeiro, integrar como parceiro pleno consórcios europeus liderados por developers oceânicos da Escócia, Irlanda, França ou Países Baixos, contribuindo com conhecimento de recurso atlântico ibérico e capacidade de demonstração na costa portuguesa. Segundo, candidatar-se aos calls FSTP que serão lançados durante a vida do projeto: para PME e RTOs com tecnologia ainda em escala laboratorial, esta é a porta de entrada mais acessível, com grants até €800 mil. Terceiro, oferecer serviços de demonstração e monitorização (zona-piloto, sensores, modelação, ensaios) a consórcios europeus que precisem de espaço atlântico para validação.

Para developers de tecnologia (Wavec, AW-Energy via parceiros portugueses, novas startups), o cap de €24 milhões por demonstração permite construir e operar dispositivos full-scale durante 5 anos. Esta é uma das poucas oportunidades europeias de financiamento desta dimensão para tecnologia oceânica fora dos calls do Innovation Fund. A combinação com o requisito de três demos distintas torna obrigatório associar-se a parceiros com tecnologias complementares, o que cria dinâmica de consórcio europeu transversal.

Recomendamos início da articulação durante 2026, com mapeamento de developers europeus em scale-up e dos seus planos de demonstração. A janela 2026-2027 é determinante para identificar com que consórcios faz sentido associar-se: cinco anos de execução significam compromisso de longo prazo. A Open Capital pode apoiar na avaliação de cenários estratégicos para empresas que queiram entrar nesta cadeia, no posicionamento como demonstrator host na costa portuguesa, e na preparação para participação em calls FSTP.

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