O que é

Calor solar entre 150 e 400 graus para descarbonizar indústria

O HORIZON-CL5-2027-02-D3-07 é uma Innovation Action Horizon Europe com modalidade de financiamento Lump Sum, dotada de €12 milhões para o ano 2027 e distribuída por dois grants de €6 milhões cada. A ação financia a demonstração de tecnologias solares térmicas concentradas para produção de calor entre 150 graus C e 400 graus C, combinadas com armazenamento térmico, alimentando processos industriais existentes em setores como secagem, fusão de materiais, esterilização, refrigeração industrial.

A tese técnica subjacente é clara: o calor representa cerca de dois terços do consumo energético da indústria europeia, e na gama 150-400 graus C há aplicações industriais relevantes que podem ser alimentadas por concentrated solar thermal de forma economicamente viável. Apesar do potencial, faltam demonstrações que provem a integração real em processos diversificados, a confiabilidade de operação contínua, e a redução do Levelised Cost of Heating (LCoH) em níveis competitivos com gás natural ou eletricidade industrial.

A modalidade Lump Sum significa que os custos elegíveis assumem a forma de uma soma fixa por marco entregue, em vez do reembolso por linha de custo. Esta abordagem reduz fortemente a carga administrativa de gestão financeira durante o projeto e responsabiliza o consórcio pela execução do trabalho contratado, não pela justificação detalhada de cada euro gasto.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Esta ação aborda duas necessidades empresariais frequentemente desligadas em outros instrumentos: a descarbonização efetiva de processos industriais difíceis de eletrificar, e o avanço técnico de uma tecnologia ainda em maturação industrial específica.

  • Sustentabilidade, energia e clima: a maior parte das emissões industriais provém de necessidades de calor de processo. Eletrificação direta com bombas de calor é eficiente até cerca de 150 graus C, mas perde competitividade económica e técnica para temperaturas superiores. Solar térmico concentrado é uma das poucas tecnologias renováveis viáveis para esta gama 150-400 graus C, sem dependência de hidrogénio verde a baixo preço, ainda distante. A demonstração rigorosa reduz risco percecionado pela indústria e abre caminho para deployment massivo.
  • I&D e ciência: financia desenvolvimento integrado de componentes (recetores, fluido de transferência, sistemas óticos), armazenamento térmico adequado à gama 150-400 graus C, controlo de planta, integração com processo industrial existente. A obrigação de demonstrar em condições reais durante pelo menos 6 meses contínuos garante aprendizagem operacional, não apenas progresso laboratorial.
Estrutura financeira

€6 M Lump Sum por grant, 50% fração solar, 6 meses contínuos

€12M
Dotação 2027
2grants
Esperados
50%
Fração solar mínima
6meses
Demo contínua mínima

A combinação de €6 milhões por projeto e Lump Sum simplificado posiciona esta ação como financeiramente acessível para consórcios menores que projetos típicos Horizon de €30-50 milhões. A escala adequa-se a uma única demonstração concentrada num parceiro industrial, com complemento de armazenamento e engenharia de integração. Os exigentes 50% de fração solar anual significam que a planta solar tem de cobrir pelo menos metade da procura térmica do processo industrial em base anualizada, o que requer dimensionamento adequado da capacidade solar e do armazenamento.

A demonstração contínua de pelo menos 6 meses é critério-chave. Não basta ligar a planta e mostrar funcionamento pontual em condições favoráveis. O projeto tem de operar continuamente durante meio ano, atravessando estações com diferentes condições de incidência solar, e provar que mantém entrega de calor ao processo industrial. Este requisito força integração séria, não demonstração de showcase.

Requisitos técnicos

O que o projeto tem de demonstrar

  • Calor entre 150 e 400 graus C: sistema solar concentrado dimensionado para a gama de temperatura útil para processos industriais como secagem, fusão, esterilização, refrigeração industrial (com chiller de absorção).
  • Armazenamento térmico integrado: a planta solar tem de incluir armazenamento que permita continuidade de fornecimento mesmo com variações de incidência solar e horários de procura industrial específicos.
  • Integração com processo industrial real: não basta demonstrar em laboratório ou em planta solar isolada. O calor tem de ser entregue a um processo industrial existente em operação comercial, com possível otimização de eficiência energética e recuperação de calor.
  • Replicabilidade documentada: a proposta tem de avaliar potencial de replicação para outros processos industriais e outras geografias com diferentes condições de incidência solar.
  • Caso de negócio com LCoH: a proposta tem de incluir análise técnico-económica com cálculo do Levelised Cost of Heating, comparação com alternativas fósseis e elétricas, e cenários de competitividade pós-projeto.
  • Hibridização opcional: a planta pode integrar outras fontes renováveis no local (PV, biomassa), mas o core da solução tem de ser solar térmico concentrado, sem o projeto se transformar num projeto multi-tecnologia genérico.
Go/no-go pré-deployment obrigatório
Antes da fase de deployment industrial, o projeto tem de passar um milestone go/no-go formal com quatro entregáveis. Primeiro, prova de compromisso sólido do parceiro industrial de demonstração (acordo formal com a fábrica recetora). Segundo, todas as licenças necessárias para deployment obtidas. Terceiro, engenharia detalhada de execução credível. Quarto, plano completo de negócio e implementação. Sem estes elementos, o projeto não avança para construção.
Perfil do consórcio

Indústria utilizadora + fabricante CSP + RTO

O consórcio vencedor combina tipicamente três tipos de parceiro. Indústria utilizadora europeia em setor com procura térmica relevante na gama 150-400 graus C: química, alimentar, têxtil, cerâmica, papel e pasta, refrigeração industrial. Esta empresa hospeda a demonstração e compromete-se a integrar o calor solar no seu processo. Fabricante europeu de tecnologia CSP (Cobra Industrial em Espanha, Aalborg CSP na Dinamarca, Heliogen e Solareast EU, integradores como Absolicon na Suécia). RTO ou universidade com experiência em integração energética e modelação de processos térmicos (CIEMAT em Espanha, Fraunhofer ISE na Alemanha, DLR Institute for Solar Research, LNEG e IST em Portugal).

A presença da European Research Infrastructure EU-SOLARIS é encorajada mas não obrigatória. EU-SOLARIS coordena infraestruturas europeias de investigação em concentrated solar power, incluindo a Plataforma Solar de Almería em Espanha, e pode fornecer apoio em ensaio de componentes e modelação de desempenho.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Portugal tem condições naturais e ativos industriais que justificam atenção prioritária a esta call. A irradiação solar direta normal no Alentejo, Algarve e interior centro-sul está entre as melhores da Europa, com valores anuais entre 1.900 e 2.200 kWh/m2, condição base para a viabilidade técnica e económica de CSP. O LNEG tem grupo de Energia Solar consolidado, com competência em caracterização ótica e térmica de componentes CSP, em colaboração regular com Plataforma Solar de Almería.

Do lado industrial, há empresas portuguesas com procura térmica relevante na gama 150-400 graus C. A indústria de pasta e papel (Navigator, Altri) tem processos de secagem entre 100-180 graus C. A indústria cerâmica (Margres, Recer, Aleluia) tem processos de secagem e cocção. A indústria alimentar (Sumol+Compal, Frulact) tem processos de pasteurização e esterilização. A indústria têxtil do norte (Riopele, Pichinhanga) tem processos de tingimento e secagem. Qualquer uma destas empresas, isolada ou em consórcio com um fabricante CSP europeu, pode ser candidata viável a uma das duas posições de grant.

A vantagem competitiva portuguesa para esta ação é dupla. Por um lado, a irradiação solar excecional. Por outro, a relativa simplicidade administrativa de licenciamento de instalações industriais em determinadas regiões, comparada com outros estados-membros. Combinada com a competência em integração e o ecossistema de I&D, Portugal pode posicionar-se como demonstrator host de eleição para tecnologia desenvolvida em Espanha, Alemanha ou Dinamarca, em troca de aprendizagem técnica, transferência de know-how e potencial fabrico futuro.

A janela curta para a deadline de 7 de abril de 2027 obriga a início de articulação em 2026. Recomendamos identificação imediata de pares indústria-portuguesa fabricante-CSP-europeu-RTO que possam materializar uma candidatura competitiva. A Open Capital pode apoiar nessa identificação, na avaliação de fit estratégico para indústrias portuguesas com procura térmica relevante, e na estruturação da componente económica e de business case que será crítica para passar o milestone go/no-go antes do deployment.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]