O que é o instrumento

Demonstração de armazenamento integrado em infraestrutura existente

O topic HORIZON-CL5-2027-07-D3-27, integrado na chamada Energy do Cluster 5 do Horizonte Europa para 2027, financia demonstrações de soluções inovadoras de armazenamento energético que aproveitem infraestruturas obsoletas, desativadas ou subutilizadas. O ângulo é deliberado: não basta provar uma tecnologia de armazenamento isolada, é necessário integrá-la em ativos físicos que já existem na Europa e que estão a tornar-se redundantes.

A ideia operacional é simples. Existem, em todos os Estados-Membros, barragens hidroelétricas antigas, basins, centrais térmicas a carvão em desativação, minas encerradas, terminais portuários reconvertíveis e infraestruturas industriais paradas. Esses ativos têm valor residual significativo, ligação à rede, terrenos licenciados e aceitação social. O topic D3-27 financia projetos que transformam esses ativos em capacidade nova de armazenamento de energia, com TRL alvo de 6 a 8 ao fim do projeto.

Os resultados esperados articulam três eixos. Primeiro, segurança energética acrescida pela diversificação de capacidades flexíveis de armazenamento. Segundo, melhoria da sustentabilidade e circularidade dos sistemas de armazenamento. Terceiro, demonstração de viabilidade económica do reaproveitamento de infraestrutura, com benefícios sociais e ambientais explicitamente avaliados.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O topic combina componentes de I&D aplicada, investimento em demonstração e descarbonização industrial. A sua relevância para empresas e centros portugueses está precisamente neste cruzamento.

  • Sustentabilidade, energia e clima: o objetivo central é descarbonizar e flexibilizar a rede através de mais capacidade de armazenamento. O topic exige análise explícita de circularidade dos sistemas, impacto ambiental e contribuição para a meta climática europeia.
  • Investimento produtivo: os projetos demonstram tecnologia em ativos reais. Requer equipamento físico, integração com rede, banco de ensaio e validação operacional. Para empresas industriais e operadores de infraestrutura, é capital industrial não reembolsável com retorno no ativo melhorado.
  • I&D e ciência: a parte experimental e de modelação de processos físicos (eletroquímica, mecânica, térmica) continua a ser ciência aplicada. Centros de competência podem trazer capacidade de análise de ciclo de vida, modelação de sistema de potência ou caracterização de materiais.
Âmbito técnico

Tipos de infraestrutura elegível

O regulamento não restringe a uma única tecnologia de armazenamento, nem a uma única tipologia de infraestrutura. A chamada lista exemplos indicativos que ajudam a calibrar a ambição do projeto.

InfraestruturaTecnologias compatíveis
Barragens hidroelétricas antigas e basinsBombagem hidroelétrica, hidrogénio acoplado, armazenamento em água quente, expansão de capacidade reservatório.
Centrais térmicas a carvão desativadasArmazenamento térmico em sais fundidos, baterias de larga escala, sistemas air-CAES (compressed air), conversão para hidrogénio verde.
Instalações industriais desativadasReaproveitamento de tanques para armazenamento térmico, conversão de salas técnicas para centros de baterias.
Minas encerradasBombagem hidroelétrica gravitacional subterrânea, armazenamento de gás (hidrogénio, ar comprimido) em cavidades.
Infraestrutura de combustíveis fósseisConversão de gasodutos para hidrogénio, reaproveitamento de terminais de gás natural para amónia ou hidrogénio verde.

A proposta deve articular o ganho técnico (capacidade, eficiência, durabilidade) com o ganho de circularidade (reaproveitamento do ativo, evitando demolição e construção nova) e o ganho de aceitação social (stakeholder outreach, consideração de impactos ambientais e patrimoniais). Os três eixos pesam na avaliação.

Critérios diferenciadores

Secure by design e contribuição BRIDGE

Secure by design obrigatório
As propostas devem integrar segurança desde a fase de design: cibersegurança da camada de controlo, segurança física da infraestrutura, robustez face a falhas em cascata. Esta exigência tem ganho peso crescente nos topics CL5 a partir de 2026, motivada pelo contexto geoestratégico europeu e pelas vulnerabilidades observadas em incidentes recentes.

Os projetos selecionados terão de contribuir para a iniciativa BRIDGE, uma plataforma de articulação entre projetos europeus de redes inteligentes, armazenamento e dataspaces digitais. Esta participação obriga a reporting partilhado, presença em encontros técnicos e contribuição para deliverables comuns. Não é mera obrigação administrativa, tem impacto real no plano de trabalho.

Outro elemento crítico: sempre que os projetos usem observação satelital, posicionamento ou serviços de navegação, o consórcio deve usar Copernicus e/ou Galileo/EGNOS. Outras fontes podem complementar mas não substituir. Esta cláusula reforça a soberania digital europeia em monitorização territorial.

Quem se candidata

Consórcios industriais com forte componente de operação

O perfil de consórcio competitivo neste topic é industrial-dominante, não académico-dominante. Em demonstrações TRL 6-8, o que importa é provar a tecnologia em ambiente real, não publicar artigos. Os parceiros que mais valor trazem são quatro tipos.

  • Operadores de infraestrutura (TSO, DSO, hidroelétricas, centrais): são quem detém o ativo físico onde a demonstração ocorre. Sem um destes na coordenação ou em posição central, a proposta dificilmente passa.
  • Empresas de tecnologia de armazenamento: trazem a inovação proprietária. Podem ser PME, scale-ups deep-tech ou divisões de tecnologia de grandes industriais.
  • Empresas de engenharia e EPC: integram a tecnologia na infraestrutura existente. Critical path do projeto. Sem capacidade de engenharia de retrofit, a demonstração falha.
  • Centros de investigação e universidades: contribuem com modelação, análise de ciclo de vida, caracterização de materiais, análise socioeconómica e governança de stakeholders.

Para empresas portuguesas, há espaço em três frentes específicas. A EDP detém ativos hidroelétricos europeus relevantes para bombagem gravitacional. Empresas portuguesas de engenharia eletromecânica (operadores de barragens, central operators) têm competência em retrofit. Startups deep-tech portuguesas em hidrogénio, baterias de fluxo ou armazenamento térmico estão a emergir e podem ser parceiros tecnológicos.

Condições financeiras

Lump sum, taxa standard CL5

O topic D3-27 é executado em regime lump sum. O consórcio acorda no início um montante fixo associado a entregáveis verificáveis, sem reporting de custos detalhado. A flexibilidade operacional é maior, o risco financeiro também. Em projetos industriais com componentes físicas, este modelo exige excelente preparação orçamental antes da submissão.

A taxa standard de cofinanciamento é 100% para entidades sem fins lucrativos e 70% para entidades com fins lucrativos em Innovation Actions (este topic é classificado como RIA/IA). A composição do orçamento entre tipos de entidade determina o equity industrial necessário para complementar o lump sum europeu.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O topic D3-27 é uma oportunidade rara na sua tese. Faz simultaneamente sentido para a transição energética, para a descarbonização industrial e para o reuso de ativos depreciados. Quem o consegue articular bem tem um caso de impacto difícil de bater na avaliação. Mas a complexidade prática é elevada.

Recomendações concretas. Primeiro, identificar cedo o ativo físico onde a demonstração ocorrerá. Sem ativo concreto, a proposta fica abstrata. Operadores portugueses com ativos elegíveis (EDP, REN, antigas centrais térmicas como Sines) são parceiros estratégicos. Segundo, alinhar a tecnologia de armazenamento com a tipologia do ativo. Bombagem gravitacional encaixa em barragens e minas. Sais fundidos encaixam em centrais térmicas. Conversão para hidrogénio encaixa em terminais de gás. Misturar elementos não funciona.

Terceiro, planear desde a tese o envolvimento de stakeholders locais e da rede. Aceitação social falha demonstrações em ativos visíveis ou patrimoniais. O topic exige análise dos impactos, mas a melhor prática é começar antes da submissão, com workshops locais e cartas de apoio. Quarto, articular com instrumentos nacionais complementares. PT2030 (eixo descarbonização) e PRR (componentes de transição energética) podem cobrir a fração de capital industrial não suportada pelo Horizon, especialmente em ativos portugueses.

Erro comum: tratar este topic como um clássico RIA de armazenamento sem o eixo de reaproveitamento. A chamada é explícita: a integração com infraestrutura obsoleta é o ângulo distintivo. Propostas que tratam o reaproveitamento como bonus opcional não passam.

A janela é longa, com deadline em dezembro de 2027. Quem ponderar candidatar-se tem 2026 e 2027 para construir o consórcio e definir o ativo demonstrador. Como em outros topics CL5, a qualidade do consórcio determina mais o resultado do que a sofisticação isolada da tecnologia.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]