Enquadramento

Por que tratamentos pós-colheita são problema estratégico para a UE

A União Europeia importa anualmente milhões de toneladas de produtos vegetais, frutas, hortícolas, plantas ornamentais e madeira que podem transportar pragas reguladas, organismos cujo estabelecimento em território europeu provocaria danos económicos e ecológicos significativos. A Xylella fastidiosa nos olivais alentejanos e italianos, o nemátodo do pinheiro na floresta nacional, ou a popillia japonica em culturas hortícolas são exemplos do que está em jogo.

Os tratamentos fitossanitários pós-colheita tradicionais dependem em larga medida de fumigantes químicos como o brometo de metilo (já banido) ou o fluoreto de sulfurilo (sob crescente escrutínio regulatório). O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-01 do Programa de Trabalho Horizon Europe 2026-2027 financia o desenvolvimento de alternativas: tratamentos físicos, térmicos, atmosferas controladas e irradiação que sejam simultaneamente eficazes contra pragas reguladas, custo-efetivos e ambientalmente responsáveis.

Dados-chave

A oportunidade em números

€12M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€6M
Por projeto
70%
Custo elegível para empresas

Diferentemente das outras calls FARM2FORK desta destination, esta é Innovation Action (IA) e não Research and Innovation Action. A diferença operacional é relevante: a taxa de financiamento é 70% para entidades for-profit (não 100%) e a maturidade tecnológica esperada é mais elevada, tipicamente TRL 5-7. A Comissão quer ver soluções perto de mercado, não desenvolvimento exploratório.

Âmbito técnico

As tecnologias na mesa

A call identifica explicitamente várias famílias de tratamentos a desenvolver e demonstrar:

  • Tratamento por vapor: aplicação de vapor controlado em tempo, temperatura e humidade para eliminar pragas em superfície e em profundidade limitada.
  • Tratamento térmico: calor (forced hot air, hot water immersion) ou frio (cold treatment) calibrados para letalidade da praga sem comprometer qualidade do produto.
  • Irradiação: aplicação de raios gama ou X em doses validadas para esterilização ou eliminação, mantendo segurança alimentar.
  • Atmosferas controladas e modificadas: alteração de níveis de O2, CO2 e N2 em câmaras de tratamento que asfixiam pragas sem resíduos químicos.
  • Tratamentos combinados: protocolos integrados (ex: temperatura + atmosfera controlada) que reduzem dose individual e melhoram eficácia global.
Sinal editorial
A insistência em "demonstration under real commercial conditions" e em "scalable solutions integrable into existing supply chains" indica que protótipos de bancada não chegam. A Comissão quer ver tecnologias testadas em portos, packhouses e centros logísticos a operar com volumes reais. Quem não tiver parceiros operacionais com capacidade de hosting de demonstração tem dificuldade.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  1. Tratamentos de nova geração: tecnologias usando vapor, calor, frio, irradiação ou atmosferas controladas, demonstradas em ambiente comercial.
  2. Protocolos validados: protocolos de tratamento testados sob condições comerciais reais, com dossiers de eficácia para múltiplas combinações praga-produto.
  3. Diretrizes harmonizadas: guidelines padronizadas e cientificamente fundamentadas, aplicáveis de forma consistente em toda a UE.
  4. Soluções escaláveis: tecnologias integráveis em cadeias de abastecimento existentes (terminais portuários, packhouses, plataformas logísticas).
  5. Apoio à conformidade regulatória: diretrizes que sustentem a conformidade com normas internacionais (IPPC, ISPM 15, normas EFSA, regulamentos UE relativos a pragas reguladas).
Composição do consórcio

Quem tem de estar à mesa

O âmbito desta call exige envolvimento amplo da cadeia de valor:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Investigação fitopatológicaCaracterização biológica das pragas reguladas, validação de letalidade, desenho experimental.
Empresas de tecnologia de tratamentoDesenvolvimento e fornecimento de equipamento (câmaras térmicas, sistemas de atmosfera controlada, instalações de irradiação).
Organizações nacionais de proteção vegetal (ONPV)Validação regulatória, ligação a normas IPPC, autorização de protocolos para entrada no território UE.
Exportadores e importadoresAcesso a fluxos comerciais reais, hosting de demonstrações, validação económica.
Packhouses e operadores logísticosIntegração na cadeia operacional. Sem este parceiro, a integração em cadeia de abastecimento é teórica.
Autoridades de inspeção fronteiriçaAceitação dos protocolos, monitorização de conformidade.
Parceiros de países terceirosEspecialmente origens de importações sensíveis (América Latina, Sudeste Asiático, Norte de África).
Contexto português

Onde Portugal se posiciona

Portugal tem combinação interessante de ativos para um consórcio neste tópico:

  • Portos de Sines, Leixões e Lisboa: portas atlânticas de entrada de produtos agrícolas e florestais, com fluxos significativos da América do Sul e África Lusófona. Hosts naturais para demonstrações comerciais.
  • DGAV e laboratórios fitossanitários: autoridade nacional de proteção vegetal com track record em pragas como a Xylella fastidiosa, Bursaphelenchus xylophilus (nemátodo do pinheiro) e Trioza erytreae.
  • INIAV e universidades agrárias: capacidade de investigação aplicada em fitopatologia, com instalações de quarentena e capacidade de ensaios em condições controladas.
  • Empresas exportadoras: os principais exportadores de produtos hortofrutícolas (citrinos algarvios, frutos vermelhos, abacate algarvio, vinho) têm interesse direto em protocolos eficientes que mantenham acesso a mercados terceiros.
  • Tecnologia portuguesa de tratamento: empresas como Frialvarinho, Sucapor ou outras com expertise em frio industrial podem oferecer capacidade técnica especializada.
Posicionamento competitivo

Pontos críticos onde a proposta se ganha

Para uma Innovation Action neste âmbito, há eixos específicos onde as propostas são frequentemente penalizadas:

  • Maturidade tecnológica: sendo IA, é esperado TRL inicial 5-6 e final 7-8. Propostas com tecnologias em TRL 3-4 (ainda exploratórias) não encaixam nesta call. O tópico FARM2FORK-13 ou outras RIA são alternativas mais adequadas.
  • Validação económica robusta: não basta demonstrar eficácia. A Comissão exige análise custo-benefício credível: custo por contentor tratado, throughput, comparação face a tratamentos químicos atuais.
  • Aceitação regulatória pré-trabalhada: propostas que apresentam protocolos sem articulação com EPPO (European and Mediterranean Plant Protection Organization) e IPPC perdem pontuação no Implementation. A regulação fitossanitária é internacional, não apenas UE.
  • Plano de exploração comercial: Innovation Actions exigem plano de negócios pós-projeto credível. Quem vai vender a tecnologia, a quem, com que preço, com que IP arrangement entre parceiros.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico é particularmente atrativo para PME tecnológicas que já têm soluções de tratamento físico-térmico em fase de pré-comercialização. A taxa de 70% para empresas em IA é menos generosa que os 100% das RIA, mas o trade-off é que o resultado fica próximo de mercado e abre caminho para vendas tangíveis pós-projeto.

Para empresas portuguesas, a recomendação prática é avaliar três cenários:

No primeiro cenário, empresas tecnológicas com produto já desenvolvido podem entrar como WP leader de demonstração comercial, oferecendo equipamento e instalação. Budget realista situa-se entre 600 mil e 1 milhão de euros (10-17% do total), o que justifica investir em proposta.

No segundo, exportadores e operadores logísticos podem entrar como hosts de demonstração, oferecendo acesso a fluxos comerciais reais. Budget tipicamente menor (200-400 mil euros), mas mantém-se interessante porque a contrapartida operacional é o acesso prioritário à tecnologia validada.

No terceiro, centros de investigação podem oferecer capacidade analítica e de validação de letalidade contra pragas mediterrânicas específicas (Xylella, Trioza erytreae, Aleurocanthus woglumi), que são problemáticas próprias do sul europeu. Budget entre 300 e 500 mil euros.

Em qualquer dos casos, o tempo é apertado: 14 de abril como deadline single-stage significa que consórcios competitivos estão fechados, com proposta avançada. A janela para entrar agora exige conversa imediata com coordenadores prováveis (provavelmente Wageningen, INRAE, CIHEAM, IRTA ou universidades alemãs com tradição em quarentena e tratamentos pós-colheita).

Vale ainda considerar o contexto regulatório mais amplo: a transição que a UE está a fazer, eliminando progressivamente pesticidas químicos sintéticos sob o Sustainable Use Regulation, cria mercado natural para alternativas físicas de tratamento. Empresas que desenvolvam tecnologia neste tópico posicionam-se cedo num mercado que vai obrigatoriamente crescer nos próximos 5-10 anos.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]