Enquadramento

A pecuária europeia entre pressão climática e desafio competitivo

A pecuária terrestre europeia enfrenta hoje um quadro de pressão multidimensional. Por um lado, a Comissão e diversos Estados-Membros impõem trajetórias de descarbonização agrícola que afetam diretamente sistemas com alta intensidade de emissões (bovinos, ovinos). Por outro, a procura por proteína de origem animal mantém-se robusta nos mercados europeus e a abertura comercial expõe produtores europeus a concorrência sul-americana e oceânica com estruturas de custo distintas. A terceira pressão vem do declínio demográfico das zonas rurais e da dificuldade de renovação de gerações nas explorações pecuárias.

O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-05 responde a este quadro com 12 milhões de euros, sob o lema "boosting circularity and diversification". A premissa é que sistemas de pecuária com integração entre espécies, valorização de subprodutos e acoplagem com agricultura podem reduzir simultaneamente impacto ambiental, dependência de inputs externos e exposição a choques de mercado. A call inclui duas áreas de foco: Área A para qualquer sistema de produção pecuária terrestre e Área B com foco específico na fileira da lã (sistemas de produção de fibras animais).

Dados-chave

A oportunidade em números

€12M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€6M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

A call abriu a 14 de janeiro de 2026 e fecha a 14 de abril de 2026. Submissão single-stage. Como Research and Innovation Action, financia 100% dos custos diretos com sobrecarga forfetária de 25% para indiretos. Tipicamente os 2 projetos selecionados cobrem cada um das duas áreas: um na Área A (transversal a espécies e sistemas), outro na Área B (focado em fibras animais e fileira da lã). Esta divisão é importante: consórcios devem decidir desde o início qual a área que abordam.

Âmbito técnico

As alavancas de circularidade e diversificação

A call exige abordagem integrada que combine inovação tecnológica, prática agronómica e modelos económicos. As alavancas técnicas em jogo:

  • Integração de espécies e raças: sistemas multi-espécie (bovinos + ovinos + caprinos), uso de raças autóctones adaptadas, complementaridade entre espécies que reduz dependência de inputs.
  • Valorização de subprodutos agrícolas: integração de resíduos de cultura (palhas, bagaços, polpas) na alimentação animal, reduzindo dependência de soja importada.
  • Coprodutos animais para circularidade: valorização de estrumes em fertilizantes, biogás, compostos; uso de subprodutos de matadouro em alimentação aquícola, indústria farmacêutica, materiais.
  • Sistemas silvo-pastoris e agro-silvo-pastoris: integração de pastagem com floresta produtiva (Montado, Dehesa). Já práticas estabelecidas em Portugal e Espanha que ganham relevância europeia.
  • Diversificação de produtos por exploração: não dependência de uma única commodity (carne, leite). Integração com produtos transformados, queijos DOP, lã, agroturismo, biogás.
  • Ferramentas de monitorização: sistemas de gestão de pastagens, sensores ambientais, contabilização de carbono, plataformas digitais para rastreabilidade.
  • Análise socioeconómica e ambiental: avaliação de impacto integrada, comparação de modelos, evidência para política pública.
Sinal editorial
A insistência na palavra "diversification" não é decorativa. A Comissão sinaliza que não financiará projetos puramente focados em otimização produtiva intensiva. Quer ver sistemas que reduzam exposição a choques de preço, doenças e clima através da multiplicidade de espécies, produtos e fontes de receita. Propostas mono-produto com foco apenas em eficiência são tipicamente desclassificadas em "Excellence" e "Impact".
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Práticas e ferramentas validadas: agricultores e operadores da cadeia de valor agroalimentar e de subprodutos animais com acesso a práticas, tecnologias e ferramentas validadas que promovam sustentabilidade através da diversificação e da circularidade.
  • Evidência socioeconómica e ambiental: autoridades e consumidores informados com dados rigorosos sobre impactos comparados de diferentes modelos de produção pecuária.
  • Ações coletivas estruturadas: stakeholders organizados em cooperativas, redes regionais, fileiras integradas que sustentem a aplicação prática das soluções desenvolvidas.
  • Contributo para biodiversidade agrícola: reforço da diversidade de raças, sistemas e práticas que sustentam serviços de ecossistema em paisagens agrárias europeias.
  • Resiliência económica reforçada: redução de dependência de inputs importados, maior estabilidade de receita por exploração, capacidade de absorção de choques.
Composição do consórcio

A regra do multi-actor approach

A call exige multi-actor approach obrigatório, formato característico de tópicos Cluster 6 com vocação aplicada. A composição-tipo competitiva:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead científicoUniversidade ou centro com track record em produção pecuária e sistemas integrados (Wageningen, INRAe, Aarhus, ETSIAM Madrid, ISA-ULisboa, ESACB).
Institutos de investigação animalINIAV (Portugal), CSIC, INRAE, IFIP, IRTA, instituições nacionais com criação experimental de raças autóctones.
Cooperativas e fileirasCooperativas de produção, organizações de produtores, fileiras nacionais (FNAJ, FENALAC, ANCSUB no caso ovino).
Explorações comerciaisPilotos reais em explorações comerciais, com sistemas de produção representativos das geografias cobertas.
Indústria de processamentoLacticínios, indústria da carne, processadores de lã. Em Portugal: Lactogal, Estrela & Castelo, Burel Factory na fileira da lã.
Empresas tecnológicasSensores, gestão de pastagens, plataformas digitais, biotecnologia para alimentação animal.
ONG e associaçõesOrganizações ambientais, associações de bem-estar animal, redes de raças autóctones.

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados, mas em multi-actor approach espera-se cobertura de 6-12 países e 15-25 parceiros para uma proposta competitiva.

Contexto português

Por que Portugal está naturalmente alinhado com a call

Portugal tem um dos mais fortes ângulos de entrada europeus neste tópico, em ambas as áreas A e B:

  • Montado como sistema agro-silvo-pastoril paradigmático: 700 mil hectares de Montado em Portugal (1.5 milhões na Península Ibérica) constituem um dos sistemas mais multifuncionais da Europa: cortiça, pecuária extensiva (porco preto Alentejano, ovinos, bovinos), cogumelos, mel, biodiversidade. Nenhum país da UE tem esta combinação a esta escala.
  • Diversidade de raças autóctones: Portugal mantém em produção raças autóctones reconhecidas em ovinos (Bordaleira, Churra, Merina), caprinos (Algarvia, Bravia, Charnequeira), bovinos (Mertolenga, Maronesa, Barrosã, Alentejana), suínos (Bísaro, Alentejano). Diferenciador científico real para uma call que valoriza diversidade genética e adaptação.
  • Fileira da lã com história e renascimento contemporâneo: a Beira Baixa, Serra da Estrela e Trás-os-Montes mantêm tradição de lã ovina. Empresas como Burel Factory, Ecolã, Soalheiro Lã têm reinventado a fileira em produtos de design e alta gama. Para a Área B (fibras animais), Portugal é candidato natural a parceiro relevante.
  • Investigação aplicada consolidada: INIAV, ESACB, ISA-ULisboa, ICAAM-Évora, IPCB têm produção sustentada em sistemas extensivos e raças autóctones. Diferenciador competitivo face a propostas dominadas pelo norte da Europa.
  • Pressão climática real e atual: as zonas pecuárias portuguesas (Alentejo, Beira Baixa) estão entre as mais expostas às alterações climáticas na UE. São laboratório natural para soluções de adaptação que servirão depois ao resto da Europa.

A janela mais realista para Portugal é a entrada como parceiro estratégico em propostas coordenadas a partir do norte ou do centro da Europa, oferecendo a combinação rara de sistema silvo-pastoril paradigmático, raças autóctones em produção real, fileiras integradas (cortiça-pecuária no Montado, lã na Serra da Estrela) e pressão climática como caso de estudo.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Multi-actor approach genuíno: a Comissão tem revisores experientes em distinguir multi-actor real (com agricultores e cooperativas com voz nos pacotes de trabalho) de multi-actor decorativo (agricultores como contribuidores de dados). Propostas onde os produtores não definem agenda perdem.
  • Diversidade geográfica europeia: os sistemas pecuários variam radicalmente entre Norte da Europa (intensivo, indoor), Mediterrâneo (extensivo, pastagens permanentes) e Báltico (sistemas de média intensidade). Propostas que cobrem esta diversidade vencem.
  • Articulação com PAC e One Health: as soluções devem encaixar na arquitetura da PAC pós-2027, em discussão hoje e respeitar o quadro One Health (saúde humana, animal, ambiental). Propostas que ignoram esta dimensão política perdem em "Impact".
  • Métricas de sustentabilidade quantificadas: redução de emissões de GEE, redução de input de soja, melhoria de bem-estar animal. Sem KPI quantificados, as propostas não passam o crivo de implementação.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para entidades portuguesas, este tópico tem um nível de encaixe natural raramente igualado em Cluster 6. A combinação de Montado, raças autóctones, fileiras tradicionais em renascimento e pressão climática real coloca Portugal numa posição privilegiada, tanto para a Área A (sistemas integrados) como para a Área B (fileira da lã). A janela é apertada mas suficiente para entrar como parceiro de peso num consórcio em formação.

A recomendação prática é tripla. Primeiro, equipas universitárias e institutos de investigação com produção em sistemas extensivos (INIAV, ICAAM-Évora, ISA-ULisboa, ESACB) devem contactar imediatamente coordenadores prováveis em Wageningen, INRAe, Aarhus, com oferta concreta: acesso ao sistema Montado, dados longos sobre raças autóctones, bacia experimental para variantes climáticas mediterrânicas. O budget realista para um parceiro académico português situa-se entre 350 mil e 700 mil euros.

Segundo, cooperativas e fileiras (especialmente da pecuária extensiva alentejana e dos ovinos da Beira Baixa) podem entrar como sites de implementação e validação económica, oferecendo escala que poucos países conseguem. Para fileiras com modelo de negócio diversificado já em prática (cortiça + porco preto, queijos DOP + ovinos), há retorno estratégico claro: visibilidade europeia, validação científica de práticas, acesso a redes que abrem mercados.

Terceiro, para a Área B (fibras animais), a fileira da lã portuguesa ganhou nos últimos 10 anos uma narrativa de design e alta gama que é diferenciador comercial real. Empresas como Burel Factory, Ecolã, Companhia Têxtil de Portalegre podem oferecer caso de uso concreto de revalorização de uma fileira tradicional. O consórcio competitivo na Área B tipicamente combina países com tradição lanar (Reino Unido, Itália, Espanha, Alemanha) e Portugal tem ângulo único.

O que não funciona é entrar com proposta excessivamente focada em sistemas intensivos, que contraria o espírito da call e está saturada de consórcios concorrentes do norte da Europa. As propostas mais competitivas neste tópico abordam tipicamente sistemas pasto-baseados, raças adaptadas, valorização de paisagens agrárias multifuncionais.

Vale ainda nota estratégica: a investigação em pecuária sustentável europeia tem ciclos de financiamento previsíveis (Horizon, LIFE, eco-schemes da PAC). A participação aqui constrói capital científico e reputacional para a próxima década, em particular face à pressão crescente sobre o sector animal na narrativa pública europeia. Para Portugal, com a sua estrutura de pecuária extensiva, este capital reputacional tem valor estratégico nacional, não apenas científico.

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