Diversificar para reduzir risco e ganhar margem
O tópico FARM2FORK-05 do Cluster 6 do Horizonte Europa parte de uma constatação simples: o agricultor que depende de uma única cultura está exposto a todos os choques que a afetam, sejam económicos, climáticos ou de mercado. A diversificação de culturas, no tempo através da rotação e no espaço através de associações, é uma forma comprovada de reduzir essa dependência e, ao mesmo tempo, de construir sistemas agrícolas de baixo recurso a fatores de produção e mais eficientes na utilização de recursos.
O concurso financia o desenvolvimento, teste e demonstração de soluções inovadoras e de modelos de negócio e cooperação que apoiem os agricultores a diversificar a produção, aumentando rentabilidade, resiliência e sustentabilidade. Inclui ainda a valorização de subprodutos das culturas e a organização das cadeias de valor a jusante, sem a qual a diversificação raramente se traduz em rendimento adicional.
Trata-se de uma ação de Inovação (IA), categoria mais próxima do mercado do que a investigação pura. O foco está em demonstrar soluções em condições reais e em desenhar percursos de exploração comercial, com etapas como estudo de mercado, aprovações regulatórias, licenciamento e gestão de propriedade intelectual.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico vive na charneira entre inovação aplicada, transição para modelos produtivos mais sustentáveis e a viabilidade económica da exploração. É essa combinação, não a diversificação isolada, que justifica o investimento europeu.
- I&D e ciência: o projeto desenvolve e testa soluções inovadoras para sistemas de cultivo diversificados, avaliando a sua viabilidade e impacto na sustentabilidade económica, social e ambiental da atividade agrícola.
- Sustentabilidade, energia e clima: a diversificação é avaliada pelo seu potencial de mitigação climática e de proteção e restauro da biodiversidade, com sistemas de baixo recurso a fatores de produção que aliviam a pressão sobre os recursos naturais.
- Investimento produtivo: o instrumento aposta na transição prática das explorações para a diversificação e na organização das cadeias de valor a jusante, com modelos de negócio que tornam essa mudança economicamente sustentável para o produtor.
Quanto vale e como está estruturado
O tópico dispõe de €12 milhões para 2027, repartidos por dois projetos esperados de cerca de €6 milhões cada. O financiamento é em montante fixo (lump sum). Sendo uma ação de Inovação, a taxa de comparticipação é de 70% dos custos elegíveis para entidades com fins lucrativos e de 100% para entidades sem fins lucrativos, uma distinção que importa ter presente no desenho do orçamento do consórcio.
O concurso abre a 20 de abril de 2027 e tem prazo único a 23 de setembro de 2027. As propostas devem articular-se com projetos de tópicos vizinhos do mesmo programa de trabalho (em particular o FARM2FORK-03) e demonstrar que não duplicam atividades já financiadas pela parceria Agroecologia e pela Missão Solo.
Quem pode candidatar-se
A candidatura é por consórcio multi-ator, com o mínimo geral de três entidades independentes de três países diferentes. O perfil ideal reúne organizações de agricultores, PME agroalimentares e de tecnologia, cooperativas, centros de investigação aplicada e atores das cadeias de valor a jusante, como transformadores e distribuidores.
Para o tecido agrícola e agroindustrial português, este é um dos tópicos mais aplicáveis deste programa de trabalho. Cooperativas, PME de transformação e empresas de tecnologia agrícola com soluções para rotação de culturas, culturas industriais ou valorização de subprodutos têm aqui um veículo de demonstração e, através do apoio a terceiros, uma porta de entrada mesmo sem liderar a candidatura. A elegibilidade é transversal a todo o território nacional, sem restrições regionais ou de código de atividade.
O que recomendamos
A diversificação de culturas é um tema com tração real em Portugal, onde o peso de monoculturas e a exposição à seca tornam a resiliência um problema concreto e não teórico. Este tópico tem a vantagem de ser uma ação de Inovação, ou seja, está mais perto da aplicação prática do que da bancada de laboratório, o que o torna apelativo para empresas com soluções já maturadas que precisam de demonstração à escala.
A nossa recomendação é diferenciada. Para uma cooperativa ou PME agroindustrial com massa crítica, vale a pena explorar a entrada num consórcio europeu como parceiro de demonstração em terreno nacional. Para empresas mais pequenas, o caminho mais eficiente é posicionar-se para o apoio financeiro a terceiros que estes projetos distribuem, que permite testar uma solução com capital europeu e sem o peso de uma candidatura completa. Em qualquer dos casos, o trabalho decisivo é anterior à abertura do concurso: identificar o consórcio certo e definir com clareza o contributo nacional. Quem espera por abril de 2027 para começar chega tarde.
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