O microbioma como alavanca de saúde animal e de saúde pública
O tópico FARM2FORK-03 do Cluster 6 do Horizonte Europa coloca o microbioma no centro da gestão da pecuária, no quadro da abordagem One Health, que reconhece a interdependência entre a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente. A investigação sobre o microbioma tem potencial transformador para responder a problemas prementes, da resistência antimicrobiana à transmissão de doenças zoonóticas.
O concurso financia o estudo do microbioma da pecuária terrestre, da sua influência na saúde animal e das interações com o ambiente (solo, planta, água e ar) e com a saúde humana. O objetivo é gerar estratégias e orientações que melhorem a saúde dos efetivos pecuários, reduzam o uso de antimicrobianos e o impacto ambiental e salvaguardem o bem-estar animal.
Sendo uma ação de Investigação e Inovação (RIA), o foco está no conhecimento e na construção de plataformas de partilha de dados e de normalização da investigação sobre o microbioma. As atividades exigem colaboração interdisciplinar entre veterinários, microbiologistas, geneticistas, biólogos animais e vegetais, epidemiologistas e ecologistas.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico cruza a fronteira do conhecimento com um objetivo de sustentabilidade concreto e mensurável: produzir proteína animal com menos antibióticos e menor pegada ambiental. É essa ligação entre ciência de base e impacto sistémico que define o instrumento.
- I&D e ciência: o projeto investiga o microbioma dos animais de pecuária na perspetiva do holobionte, desenvolve sistemas integrados de monitorização de indicadores de saúde e modelos de avaliação de risco para doenças zoonóticas e resistência antimicrobiana.
- Sustentabilidade, energia e clima: as soluções baseadas no microbioma visam reduzir o uso de antimicrobianos e o impacto ambiental e climático da produção pecuária, articulando saúde animal, saúde do solo e da planta e bem-estar animal numa lógica de sistemas alimentares sustentáveis.
Quanto vale e como está estruturado
O tópico dispõe de €11,8 milhões para 2027, repartidos por dois projetos esperados, com contribuição entre €5 e €6 milhões cada. O financiamento é em montante fixo (lump sum) e, sendo uma ação RIA, a comparticipação é de 100% dos custos elegíveis. O concurso abre a 20 de abril de 2027 e encerra a 23 de setembro de 2027, em fase única.
Quem pode candidatar-se
A candidatura é por consórcio, com o mínimo geral de três entidades independentes de três países diferentes. O perfil dominante é científico: faculdades de veterinária e de ciências da vida, institutos de investigação em saúde animal e microbiologia, centros de genómica e entidades públicas com competências em saúde pública e segurança alimentar.
Para Portugal, a relevância está sobretudo na comunidade de investigação em ciências veterinárias e da vida, com forte representação nas universidades e em centros associados. Empresas do setor da saúde animal, da biotecnologia ou da genómica podem participar como parceiras tecnológicas, contribuindo com capacidade analítica ou de desenvolvimento de soluções. Não é um instrumento dirigido ao produtor pecuário individual, mas os resultados visam beneficiá-lo diretamente. A elegibilidade é transversal a todo o território nacional.
O que recomendamos
A resistência antimicrobiana é um dos temas de saúde pública mais sérios da próxima década. A pecuária está no centro dele. Este tópico tem, por isso, uma relevância estratégica que ultrapassa o seu valor monetário. Para um centro de investigação português com competências em microbioma, genómica ou saúde animal, é uma oportunidade de integrar consórcios de ponta e de se posicionar num campo em crescimento acelerado.
A nossa leitura é que este é um instrumento para a academia e para a investigação aplicada, não para a empresa que procura financiar produção ou equipamento. O candidato deve ter publicações e historial no domínio, porque a avaliação RIA premia excelência científica e a qualidade do consórcio. Para empresas de biotecnologia ou de saúde animal, o caminho realista é a parceria com um líder científico, contribuindo com tecnologia ou dados. Como em todos os tópicos colaborativos, o trabalho de construção do consórcio começa muito antes de abril de 2027. É aí que se ganham ou perdem estas candidaturas.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]