Enquadramento

A crise silenciosa dos peixes migradores europeus

As populações de peixes migradores europeus, espécies que cumprem ciclos biológicos entre rios e mar, estão entre os recursos biológicos mais ameaçados do continente. Dados da WWF e do ICES indicam declínios de 93% nas populações de peixes migradores europeus desde 1970, com várias espécies emblemáticas em risco crítico: a enguia europeia (Anguilla anguilla), o salmão atlântico (Salmo salar), o esturjão europeu (Acipenser sturio), as várias espécies de sável (Alosa alosa, Alosa fallax) e a lampreia-marinha (Petromyzon marinus). Em vários casos, os stocks atuais representam menos de 5% dos níveis históricos.

O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-08 responde a esta realidade com uma dotação de 14 milhões de euros para projetos de Research and Innovation Action (RIA), com a missão de avançar conhecimento básico e desenvolver ferramentas operacionais para a gestão sustentável destas espécies. A formulação "basic knowledge" é deliberada: a Comissão reconhece que, em várias destas espécies, lacunas científicas fundamentais sobre ciclo de vida, padrões migratórios, mortalidade não documentada e impactos cumulativos impedem decisões de gestão informadas.

Dados-chave

A oportunidade em números

€14M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€7M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abriu a 14 de janeiro de 2026. Como Research and Innovation Action, financia investigação aplicada com 100% de custos diretos para entidades elegíveis. Pela escala do orçamento por projeto (7 milhões), a Comissão sinaliza que espera consórcios robustos com cobertura geográfica significativa, capacidade analítica multi-disciplinar e ligação a infraestruturas de monitorização existentes.

Âmbito técnico

O que o consórcio tem de cobrir

A call exige abordagem integrada que articule biologia, gestão de pescas, conservação e governance. Áreas técnicas centrais:

  • Conhecimento de ciclo de vida e dinâmicas populacionais: investigação sobre fases pouco documentadas (juvenis em estuário, fase oceânica do salmão, mar de Sargaços para a enguia), com novos métodos genéticos e isótopos estáveis.
  • Telemetria e rastreio de migrações: arrays de receptores acústicos, marcadores satélite, radio-telemetria fluvial. Integração com infraestrutura europeia (ETN, European Tracking Network).
  • Conectividade fluvial e gestão de obstáculos: mapeamento de barreiras (barragens, açudes), avaliação de eficácia de passagens para peixes, soluções de remoção ou by-pass.
  • Mortalidade não-pesca: impactos de centrais hidroelétricas, captação de água, poluição, espécies invasoras, mudanças de uso do solo. Quantificação rigorosa essencial.
  • Genética populacional e diversidade: sequenciação de populações, identificação de unidades de gestão, deteção de hibridização com espécies aquícolas (especialmente salmão).
  • Modelos de gestão adaptativa: integração de dados em modelos de avaliação populacional, simulação de cenários de gestão, suporte à decisão para autoridades nacionais e CFP/ICES.
  • Engagement com pescadores e comunidades ribeirinhas: co-construção de medidas de gestão, valorização de saber tradicional, cumprimento voluntário.
Sinal editorial
A formulação "key migratory fish species" é propositadamente larga. Os consórcios devem cobrir mais que uma espécie em mais que uma bacia hidrográfica europeia, idealmente articulando o Atlântico Norte, o Báltico, o Mediterrâneo e o Mar do Norte. Propostas mono-espécie ou mono-bacia são tipicamente penalizadas.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Avaliações populacionais robustas: dados novos para ICES e organismos nacionais sobre estado dos stocks, utilizáveis em pareceres científicos.
  • Ferramentas operacionais de gestão: protocolos de monitorização, sistemas de aviso, plataformas de dados abertos para autoridades de pescas e ambiente.
  • Recomendações políticas concretas: contributo para revisão da política comum das pescas (CFP), Diretiva Quadro da Água (WFD), Marine Strategy Framework Directive (MSFD), Diretiva Habitats.
  • Demonstração de medidas de recuperação: pilotos em bacias específicas que validem opções de remoção de barreiras, repovoamento responsável, gestão de captura.
  • Reforço da capacidade pan-europeia: redes científicas estabelecidas, formação de novos investigadores, integração com infraestruturas (LifeWatch, EMBRC).
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela escala (7M por projeto), a configuração-tipo para uma proposta competitiva inclui:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead científicoInstituto de pescas e mar com track record (IFREMER, Marine Institute Ireland, IMR Noruega, AZTI, IPMA Portugal, NIOZ Holanda).
Universidades especialistasFaculdades com programas em ictiologia, ecologia fluvial, biologia da conservação (CIIMAR Porto, Wageningen, Hull, Bordeaux, Lund).
Agências de monitorizaçãoOrganismos nacionais com responsabilidade de levantamento (APA, ICNF em Portugal; equivalentes europeus).
Empresas de telemetriaFabricantes de equipamento (Vemco/Innovasea, Lotek, Sonotronics) e PME de software de processamento de dados.
Operadores de barragensEDP, Iberdrola, Vattenfall, Statkraft. Acesso a infraestrutura para pilotos de mortalidade e passagens.
Associações de pescadores e ONGFederações de pesca desportiva, ONG ambientalistas (WWF, Atlantic Salmon Trust, Sustainable Eel Group).
Aquicultura responsávelIndústria aquícola com produção de salmonídeos ou enguia para repovoamento controlado.

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Consórcios competitivos têm tipicamente 15-25 parceiros e cobertura de 8-12 países.

Contexto português

A vantagem natural de Portugal

Portugal tem ângulo de entrada concreto neste tópico, fundado em três fatores:

  • Diversidade de espécies migradoras presentes: Portugal continental hospeda enguia europeia, salmão atlântico (Minho, Lima, Mondego), sável e savelha (Tejo, Mondego, Guadiana), lampreia-marinha (Minho, Mondego), esturjão europeu (residual no Guadiana e Tejo). Poucos países europeus têm esta diversidade num território contíguo.
  • Infraestrutura científica instalada: CIIMAR (Porto), MARE (Lisboa, Coimbra), IPMA, ICBAS-UP, Universidade de Évora, com produção sustentada em ecologia de peixes diádromos. Equipas portuguesas têm presença consolidada em redes europeias (DIADFISH, EUROCERIN).
  • Bacias paradigmáticas: Minho e Lima são entre as bacias atlânticas com melhor preservação de salmónidos. Tejo e Guadiana servem como casos de estudo para gestão em rios alterados por barragens. O Mondego é referência europeia para passagens para peixes.
  • Setor hidroelétrico ativo em fish passage: a EDP tem programa consolidado de passagens para peixes em barragens do Douro e do Mondego, oferecendo dados longos e plataforma para experimentação. Diferenciador competitivo.

Para um consórcio competitivo, a participação portuguesa é estrategicamente valiosa precisamente porque combina espécies em diferentes graus de declínio, bacias com pressões antropogénicas distintas e parcerias institucionais entre ciência, autoridades e setor privado já em operação.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Cobertura geográfica genuína: a Comissão valoriza propostas que articulem rios atlânticos, mediterrânicos e bálticos. Consórcios concentrados em uma região perdem face a propostas pan-europeias.
  • Articulação ciência-política: o output deve ser utilizável por ICES, DG MARE, autoridades nacionais. Propostas que produzem apenas conhecimento académico, sem ferramentas operacionais, são desclassificadas em "Impact".
  • Engagement real com pescadores: medidas de gestão de peixes migradores envolvem restrições de captura. Sem co-construção com pescadores comerciais, desportivos e comunidades ribeirinhas, as propostas perdem em adoção real.
  • Ligação a Diretivas Europeias em revisão: a próxima década traz revisões da CFP, Diretiva Anguila, MSFD. As propostas devem antecipar e contribuir para esses processos.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para entidades portuguesas, este tópico é de elevado encaixe natural. A combinação de diversidade de espécies, bacias paradigmáticas e infraestrutura científica instalada coloca Portugal numa posição competitiva real, em particular para parcerias atlânticas (Irlanda, Reino Unido, Noruega, França, Espanha). A janela de candidatura é apertada (3 meses até deadline), mas suficiente para entrar num consórcio coordenado externamente, que é o cenário mais provável.

A recomendação prática é dupla. Primeiro, equipas universitárias e institutos de investigação portugueses com produção consolidada em peixes migradores (CIIMAR, MARE, IPMA, ICBAS-UP, MARE-Évora) devem contactar imediatamente coordenadores prováveis no eixo Marine Institute Ireland, IFREMER, IMR Noruega, AZTI Espanha. A oferta concreta deve ser: acesso a bacias com diversidade biológica e perfis antropogénicos distintos, capacidade analítica em laboratório (genética, telemetria, isótopos estáveis), redes de monitorização de longo prazo. O budget realista para um parceiro académico português situa-se entre 350 mil e 800 mil euros.

Segundo, operadores de hidroelétrica (especialmente EDP através do EDP Innovation) e PME tecnológicas portuguesas com produtos para monitorização aquática (sensores acústicos, software de análise) podem entrar como parceiros industriais. A EDP tem incentivo claro: dados gerados em projeto Horizon servem como suporte científico para licenciamento e renegociação de concessões hidroelétricas em curso.

O que não funciona é entrar com proposta excessivamente focada apenas no salmão atlântico, que é a espécie historicamente mais estudada e com mais consórcios em formação. As propostas mais competitivas neste tópico abordam tipicamente 3-5 espécies em paralelo, articulando o que se sabe (salmão, enguia) com o que ainda é mal conhecido (esturjão, lampreia, sável).

Vale ainda nota estratégica: o setor das pescas e gestão fluvial está a ganhar visibilidade política na UE no contexto do Pacto Ecológico e da Estratégia para a Biodiversidade 2030. A participação aqui constrói capital científico para chamadas em LIFE, EMFAF (Fundo Europeu para Assuntos Marítimos, Pescas e Aquicultura) e Mar 2030, que financiam a implementação operacional após o conhecimento ser produzido.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]