Enquadramento

Comida, dados e saúde do coração no mesmo projeto

As doenças cardiovasculares (DCV) continuam a ser a principal causa de mortalidade na União Europeia, responsáveis por cerca de 1,7 milhões de mortes por ano. A dimensão dietética está bem estabelecida na evidência científica: padrões alimentares com excesso de sódio, gorduras saturadas, açúcares simples e proteína animal estão associados a maior risco cardiovascular. Mas converter este conhecimento em mudança de comportamento à escala populacional continua a ser o problema não resolvido.

O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-09 do Programa de Trabalho Horizon Europe 2026-2027 endereça precisamente esse problema. A premissa é que a combinação de investigação nutricional rigorosa com tecnologias digitais de monitorização contínua, aplicações móveis, sensores wearable, biomarcadores não-invasivos, pode finalmente fechar o ciclo entre recomendação dietética e adesão real do indivíduo.

Âmbito técnico

O que o consórcio tem de demonstrar

A call posiciona-se na intersecção de quatro disciplinas que raramente trabalham juntas: nutrição, cardiologia, saúde digital e ciências do comportamento. O âmbito articula-se em torno de:

  • Biomarcadores não-invasivos: medições objetivas, diárias e não-invasivas relevantes para risco cardiovascular (estado de hidratação, pH urinário, cálcio, ácido úrico, glucose, cetonas, cloretos), capazes de fornecer feedback fisiológico direto sobre padrões alimentares.
  • Plataformas digitais validadas: aplicações móveis e ecossistemas digitais que registem ingestão alimentar e devolvam recomendações personalizadas com base nos biomarcadores recolhidos.
  • Modelos preditivos: aplicação de machine learning para prever aceitação de alimentos e adesão a regimes dietéticos em diferentes perfis demográficos e culturais.
  • Estudos clínicos longitudinais: ensaios em ambiente real com seguimento prolongado, demonstrando impacto efetivo na trajetória de risco cardiovascular.
  • Interações dieta-microbiota-hospedeiro: articulação com investigação sobre como a microbiota intestinal modula a resposta cardiovascular a diferentes padrões alimentares.
Resultados esperados

O que conta como sucesso para a Comissão

Os outcomes prioritários identificados na call:

  1. Plataforma de teste integrada: capacidade de avaliar como alimentos sustentáveis impactam a saúde cardiovascular através de métodos in vitro e in vivo, padronizada e replicável.
  2. Biomarcadores padronizados: conjunto de marcadores que medem o impacto dietético na inflamação e no risco cardiovascular, com protocolos de medição comparáveis entre estudos.
  3. Solução digital validada: aplicação de saúde digital com dados comportamentais e de preferências dietéticas, validada em estudo clínico ou em vida real.
  4. Modelos preditivos de adesão: algoritmos de machine learning que prevêem com fiabilidade a aceitação alimentar e a manutenção de mudanças dietéticas no tempo.
Sinal editorial
A insistência simultânea em "biomarcadores objetivos" e "behavioural science" é deliberada. A Comissão sinaliza que não financiará projetos puramente clínicos (sem componente comportamental) nem projetos puramente digitais (sem ancoragem fisiológica). A interdisciplinaridade tem de ser integrada na arquitetura do projeto, não anexada como capítulo separado.
Composição do consórcio

Quem precisa de estar envolvido

A call exige consórcio multidisciplinar com cobertura de várias áreas:

Área de competênciaFunção no consórcio
Investigação em nutriçãoDesenho dos protocolos dietéticos, análise de composição alimentar, avaliação de ingestão.
Cardiologia preventivaDefinição de endpoints cardiovasculares, recrutamento de coortes, validação clínica.
Saúde públicaCaracterização populacional, equidade no acesso, integração em sistemas nacionais de saúde.
Sustentabilidade alimentarArticulação com Farm to Fork: dietas que sejam simultaneamente cardio-protetoras e ambientalmente sustentáveis.
Saúde digitalDesenvolvimento de apps, integração com wearables, dispositivos de medição não-invasiva, conformidade GDPR e MDR.
Ciências do comportamentoDesenho de intervenções, avaliação de adesão, técnicas de mudança comportamental sustentadas.
PME e startups foodtech / healthtechComponentes industriais (alimentos sustentáveis, dispositivos médicos, plataformas digitais).

A diversidade geográfica é igualmente importante. Coortes que cubram norte e sul europeus capturam padrões dietéticos heterogéneos (mediterrânico, atlântico, nórdico, continental) e fortalecem o critério Impact.

Contexto português

Onde Portugal pode entrar

Portugal tem ativos relevantes para integrar consórcios neste tópico:

  • Coortes cardiovasculares estabelecidas: Estudo Cardiovascular dos Açores, EPIPorto e bases de seguimento longitudinal em centros como o Hospital de Santa Cruz e CHULC oferecem material epidemiológico de qualidade.
  • Laboratórios de nutrição: LAQV-REQUIMTE, ITQB NOVA, Universidade de Aveiro, com capacidade comprovada em análise alimentar e biomarcadores.
  • Healthtech nacional: empresas como Sword Health, Tonic App, MedicineOne ou Best Health4U têm capacidade técnica de desenvolvimento e implementação de plataformas digitais clínicas.
  • Padrão alimentar mediterrânico: a dieta mediterrânica portuguesa, classificada pela UNESCO, é matéria-prima científica de interesse genuíno para qualquer consórcio que estude prevenção cardiovascular.

A combinação dieta mediterrânica + ecossistema healthtech português é argumento natural de entrada em consórcios coordenados por instituições francesas, italianas ou espanholas, que dominam tipicamente este tipo de call.

Posicionamento competitivo

Pontos críticos de avaliação

Para uma call que combina nutrição, cardiologia e digital, há pontos de avaliação onde as propostas tipicamente perdem pontuação:

  • Validação clínica genuína: não basta um pilot de 3 meses com 50 utilizadores. A Comissão espera ensaios com poder estatístico para detetar variações em endpoints clínicos relevantes (TA, perfil lipídico, marcadores inflamatórios).
  • Conformidade regulatória: dispositivos digitais que produzem outputs clínicos podem cair sob o Medical Device Regulation (MDR). Propostas que ignoram este eixo regulatório no desenho são penalizadas no Implementation.
  • Sustentabilidade pós-projeto: qualquer plataforma digital cuja viabilidade dependa exclusivamente do financiamento Horizon após o fim do projeto é frágil. Modelo de negócio explícito é cada vez mais exigido.
  • Dimensão sustentável genuína: esta call está sob Destination 2 (Fair, healthy and environmentally friendly food systems). A componente "sustentabilidade alimentar" não pode ser superficial - tem de articular com o pilar ambiental do Farm to Fork Strategy.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta call tem perfil tipicamente coordenado por consórcios de investigação clínica de larga escala (universidades médicas, institutos cardiológicos, hospitais universitários). A janela para liderar uma proposta a partir de Portugal está, na prática, fechada a 3 meses do prazo. A oportunidade real está em entrar como parceiro especializado.

Para entidades portuguesas, há três ângulos de aproximação que recomendamos avaliar:

Primeiro, instituições clínicas com coortes cardiovasculares longitudinais devem contactar coordenadores prováveis com proposta concreta de contribuição: número de doentes recrutáveis, dados disponíveis, capacidade de seguimento. A vantagem competitiva é estatística: cada coorte adicional aumenta o poder estatístico do estudo e a generalização dos resultados.

Segundo, healthtech portuguesa com produtos validados pode entrar como parceiro tecnológico, oferecendo plataforma digital, sensores ou capacidade de desenvolvimento. Aqui o ângulo é demonstrar que a tecnologia já tem CE marking ou está em processo, o que reduz risco de execução e fortalece o critério Implementation.

Terceiro, centros de investigação em nutrição podem oferecer expertise em padrão dietético mediterrânico, área onde Portugal tem reconhecimento internacional. O ângulo aqui é positivo, alinhado com a dieta mediterrânica como referência global em prevenção cardiovascular.

Em qualquer dos casos, a regra prática é dimensionar o pedido de budget em proporção à contribuição efetiva (tipicamente 5-10% do total de um projeto desta dimensão para um parceiro), com plano de exploração concreto e nunca apresentar a participação como "interesse em colaborar" genérico, abordagem que não desbloqueia conversas com coordenadores experientes.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]