O que é este concurso
O tópico HORIZON-CL6-2027-01-BIODIV-09 é uma ação de investigação e inovação (Research and Innovation Action) do Cluster 6 do Horizonte Europa, o cluster dedicado a alimentação, bioeconomia, recursos naturais, agricultura e ambiente. Insere-se na chamada anual única de 2027 (Call 01), que abre a 20 de abril de 2027 e encerra a 22 de setembro de 2027.
O problema que o concurso ataca é específico. Durante décadas, o melhoramento de plantas otimizou variedades para monocultura, maximizando o rendimento de uma única espécie em campo. O resultado são cultivares altamente produtivas mas especializadas, que tendem a não funcionar bem quando se cultivam várias espécies em conjunto. Ora a consociação de culturas, ou seja, o cultivo simultâneo de espécies complementares no mesmo terreno, é uma das práticas que mais promove a agrobiodiversidade e a resiliência das explorações. Faltam variedades concebidas de raiz para esse contexto. Este tópico financia investigação que feche essa lacuna, com foco na produção biológica.
Necessidades que este instrumento resolve
Este é um instrumento de conhecimento aplicado ao campo. Não financia a compra de equipamento agrícola nem a expansão de uma exploração: financia a ciência que torna possível um modelo agrícola mais diverso e menos dependente de insumos.
- I&D e ciência: o núcleo do projeto é gerar conhecimento novo sobre as interações entre espécies cultivadas em conjunto, desenvolver abordagens de melhoramento biológico para sistemas multiespécie e definir critérios de seleção e teste de genótipos adaptados à consociação.
- Sustentabilidade, energia e clima: os resultados servem objetivos ambientais concretos, como melhor gestão de pragas e infestantes, maior eficiência no uso de nutrientes e água, melhor polinização, mais fertilidade do solo e menos erosão e lixiviação, em linha com a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030.
O que os projetos devem desenvolver
As propostas devem cobrir um conjunto articulado de atividades de investigação, todas orientadas para dotar os melhoradores de uma caixa de ferramentas para a consociação:
- Aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos eco-fisiológicos que influenciam o desempenho das culturas consociadas, considerando interações acima do solo e dinâmicas radiculares com os organismos do solo.
- Desenvolver abordagens de melhoramento biológico que valorizem a competição, a complementaridade e a facilitação entre culturas, em vez do desempenho isolado de uma espécie.
- Identificar combinações de culturas e de variedades que consistentemente produzem bem em conjunto.
- Fornecer bases para futuros critérios de teste e seleção, além de métodos para avaliar genótipos especializados em condições de consociação.
- Quando aplicável, fazer avançar material de melhoramento já existente para as categorias de Material Heterogéneo Biológico (OHM) e de Variedades Adequadas à Produção Biológica (OVSOP).
As propostas podem ainda prever apoio financeiro a terceiros (Financial Support to Third Parties), por exemplo para desenvolver, testar e demonstrar as novas abordagens de melhoramento no terreno.
Onde começa e onde chega o projeto
Tratando-se de uma RIA, as atividades podem arrancar em qualquer nível de maturidade tecnológica e devem atingir o TRL 4-5 no final, ou seja, validação em ambiente laboratorial e relevante. É investigação a montante do mercado, não desenvolvimento de produto comercial. O financiamento da Comissão cobre 100% dos custos elegíveis, regra geral das ações de investigação do Horizonte Europa.
Perfil dos beneficiários
Como em qualquer concurso do Horizonte Europa, candidatam-se consórcios transnacionais, com entidades de diferentes Estados-Membros da UE e Países Associados ao programa. O perfil natural inclui centros e institutos de investigação, universidades, entidades de melhoramento vegetal, empresas de sementes e produção biológica, além de organizações do setor agrícola. Este tópico exige a abordagem multiator, o que significa envolver de forma ativa os utilizadores finais do conhecimento, como melhoradores e agricultores, ao longo do projeto.
O que recomendamos
Este é um tópico de nicho científico, com um perfil de beneficiário claro: investigação agronómica e melhoramento vegetal. Para uma empresa portuguesa do agroalimentar, a porta de entrada raramente é liderar o consórcio. É entrar como parceiro que traz casos reais de campo, material vegetal ou capacidade de demonstração, posições muitas vezes mais acessíveis e ainda assim financiadas a 100%.
O calendário ajuda a planear com antecedência. A abertura só ocorre em abril de 2027 e a candidatura encerra em setembro do mesmo ano, o que dá tempo para identificar o consórcio certo e definir o papel a desempenhar. Em concursos de chamada única como este, a qualidade da proposta na primeira e única ronda é tudo, pelo que a preparação não deve começar à última hora. O mecanismo de apoio financeiro a terceiros merece atenção de quem não pretende ser parceiro formal mas quer aceder a fundos através de um projeto já aprovado.
A recomendação prática é avaliar cedo o encaixe estratégico. Se a consociação de culturas e a produção biológica não fazem parte do plano da empresa, este não é o instrumento. Se fazem, vale a pena mapear consórcios europeus que se estejam a formar em torno desta chamada e posicionar-se enquanto há margem para negociar o âmbito.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]