Biotecnologia ao serviço dos plásticos difíceis de reciclar
O tópico CIRCBIO-03 do Cluster 6 do Horizonte Europa é uma ação de investigação e inovação que ataca um dos problemas mais persistentes da economia circular: os plásticos complexos. Falamos de materiais multicamada, multimaterial e compósitos, que hoje raramente se conseguem reciclar de volta para aplicações de alto valor e acabam, na melhor das hipóteses, em usos de menor valor.
A aposta é biotecnológica. O concurso procura soluções que apliquem micróbios e enzimas para a degradação melhorada de plásticos, abrindo caminho a uma reciclagem que devolva os materiais a aplicações exigentes. Como ação de investigação e inovação, aponta a um grau de maturidade tecnológica de TRL 4 a 5 até ao fim do projeto, embora as atividades possam começar em qualquer nível. É financiamento de fase mais inicial do que uma ação de inovação, focado em validar tecnologia promissora antes da escala industrial plena.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico combina investigação tecnológica de fronteira com um objetivo ambiental claro. São essas as duas necessidades que melhor o descrevem.
- I&D e ciência: o concurso financia o avanço de novas soluções biotecnológicas de reciclagem, a aplicação de micróbios e enzimas, e recomendações para avaliações de risco regulamentares adequadas a materiais e tecnologias novas, no quadro da abordagem segura e sustentável desde a conceção.
- Sustentabilidade, energia e clima: o resultado procurado são produtos plásticos recicláveis que voltem a aplicações de alto valor, com cadeias de valor industriais a introduzir no mercado produtos circulares através de melhor desenho para reciclagem e de sistemas eficazes de triagem e reciclagem em larga escala.
O que os projetos devem desenvolver
O concurso é claro quanto ao tipo de trabalho e aos setores onde os plásticos complexos pesam mais: embalagem, construção, infraestrutura de energia renovável e transporte.
- Soluções biotecnológicas novas: avançar a reciclagem de materiais e produtos plásticos complexos, multimaterial, multicamada e compósitos, nos setores referidos.
- Avaliação de risco e SSbD: propor recomendações para avaliações de risco regulamentares adequadas a materiais e tecnologias de reciclagem novas, integrando o quadro Safe and Sustainable by Design.
- Inovação de materiais: considerar as soluções mais recentes de inovação de materiais ao desenvolver novas soluções de reciclagem, por exemplo pela aplicação de micróbios e enzimas para degradação melhorada de plásticos.
- Demonstração à escala-piloto: demonstrar as soluções a escala-piloto, envolvendo toda a cadeia de valor e avaliando viabilidade, eficácia e impacto com métodos robustos, incluindo a pegada ambiental de produto.
O lugar deste concurso na agenda europeia
O tópico apoia o Pacto Ecológico Europeu, o Regulamento relativo às Embalagens e Resíduos de Embalagens, o Regulamento relativo a Transferências de Resíduos, o Regulamento do Ecodesign de Produtos Sustentáveis e o futuro Ato da Economia Circular, contribuindo para um mercado único de produtos sustentáveis.
Contribui também para a nova estratégia europeia para a bioeconomia, a Estratégia para as Ciências da Vida e o ato europeu para a biotecnologia, e é relevante para a comunicação da Comissão sobre construir o futuro com a natureza e impulsionar a biotecnologia e a biomanufatura na UE. As candidaturas têm prazo a 22 de setembro de 2027, com abertura prevista para 20 de abril de 2027, em fase única e com financiamento em montante fixo.
A quem se dirige
O instrumento dirige-se a consórcios que liguem investigação de ponta e indústria. Encaixam bem centros de investigação em biotecnologia e ciência de materiais, universidades, empresas de reciclagem e gestão de resíduos, produtores de embalagem, construção, energia renovável e transporte, e empresas de enzimas e biotecnologia industrial. A presença de cadeias de valor industriais nos consórcios é uma exigência prática do concurso.
Para Portugal, com competências reconhecidas em biotecnologia e em ciência de materiais, há espaço para contribuir com investigação aplicada e com capacidade de demonstração. A via natural é a integração num consórcio europeu, posicionando uma competência específica na cadeia: uma enzima, um processo, um material ou uma instalação-piloto.
O que recomendamos
Sendo uma ação de investigação e inovação a TRL 4 a 5, este concurso valoriza tecnologia promissora ainda em validação, não soluções já prontas para o mercado. É, por isso, um bom enquadramento para grupos de investigação fortes em biotecnologia que tenham um parceiro industrial disposto a demonstrar a escala-piloto. A combinação ciência mais indústria não é opcional, é o que separa uma proposta credível de um exercício académico.
O ponto de atenção que sublinhamos é a dimensão regulamentar. Tecnologias biotecnológicas de reciclagem e materiais novos levantam questões de avaliação de risco que o próprio concurso pede para endereçar. Uma proposta que trate isto a sério, no quadro do Safe and Sustainable by Design, parte com vantagem. Para entidades portuguesas, recomendamos identificar cedo o parceiro industrial e o consórcio, e estruturar a contribuição científica em torno de uma vantagem concreta. A nossa equipa apoia nessa avaliação e na construção da participação.
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