Mapear a matéria escura dos alimentos
Tudo o que comemos e bebemos expõe-nos a uma enorme variedade de compostos químicos, uns como ingredientes, outros como contaminantes. O conjunto completo dessas substâncias num alimento, num dado momento, chama-se foodome. O problema é que o conhecimento atual está confinado a cerca de 150 componentes catalogados nas bases de dados tradicionais, uma fração mínima da realidade. Estima-se que mais de cem mil compostos permaneçam praticamente por quantificar, aquilo a que o concurso chama matéria escura nutricional.
O FARM2FORK-08 é um tópico do Cluster 6 do Horizonte Europa que reserva 7,8 milhões de euros para um único projeto, em regime de Innovation Action. O objetivo é desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial que acelere a análise de dados de foodomics, identificando, caracterizando e quantificando os compostos presentes nos alimentos a partir de técnicas como a espetrometria de massa não dirigida ou a ressonância magnética nuclear.
A aposta é estratégica. Sem este mapa, o campo da nutrição não consegue tornar-se preditivo nem orientado por dados. O desenvolvimento de novos alimentos mantém-se mais lento e mais caro do que devia. A IA entra precisamente para vencer o gargalo que os métodos experimentais de alto débito não conseguem resolver sozinhos.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico vive no cruzamento entre investigação de ponta e tecnologia digital. A candidatura vencedora terá de provar excelência científica em foodomics e, ao mesmo tempo, entregar algoritmos de IA validados e prontos a usar.
- I&D e ciência: o projeto financia o desenvolvimento e a validação de algoritmos capazes de interpretar e anotar dados de foodomics de alto débito, prevendo a presença e a concentração de compostos a partir de dados incompletos, por exemplo através das relações filogenéticas entre espécies.
- Digitalização e IA: o coração da candidatura é uma ferramenta de inteligência artificial e a criação de bases de dados prontas para IA, além de uma rede europeia de investigação em exposição alimentar para standardizar e disseminar os resultados.
Academia, indústria e empresas tecnológicas juntas
O concurso exige expressamente a abordagem multi-ator e a inclusão da indústria nos consórcios, a par da academia, de startups, de PME e de iniciativas internacionais. A colaboração com parceiros internacionais é incentivada, incluindo empresas privadas já estabelecidas na União Europeia e nos países associados. Há referência explícita a iniciativas existentes como a Periodic Table of Food Initiative da Universidade de Wageningen.
Para o ecossistema português, o ponto de entrada natural está nas empresas de software, deep tech e bioinformática, bem como nos centros de investigação em química analítica, ciências da nutrição e biologia molecular. Sendo um único projeto financiado em toda a Europa, a competição é elevada e o lugar para uma entidade nacional será, quase sempre, o de parceiro especializado dentro de um consórcio liderado por uma instituição de grande dimensão.
Um único projeto, do laboratório à aplicação
A candidatura é em fase única, com prazo a 23 de setembro de 2027 e abertura prevista para 20 de abril de 2027. O financiamento segue o modelo de montante fixo. As atividades arrancam de um nível de maturidade tecnológica de partida TRL 5 e devem alcançar TRL 7 no encerramento, ou seja, sair de um protótipo validado em laboratório para uma demonstração em ambiente operacional.
Há também uma restrição de elegibilidade ligada à proteção das redes de comunicação europeias, a verificar nos anexos gerais do programa de trabalho. Como em todos os tópicos do Horizonte Europa, a elegibilidade de países e de entidades é definida nos anexos B e C.
O que recomendamos
Este é um daqueles concursos em que o valor não está na dimensão do cheque, mas no posicionamento. Uma empresa portuguesa de IA aplicada às ciências da vida que entre neste projeto fica associada a uma infraestrutura europeia de referência em dados alimentares, com acesso a parceiros académicos e industriais de topo. O retorno reputacional e de rede pode superar o financiamento direto.
A advertência é dupla. Primeiro, sendo um projeto único em toda a Europa, a probabilidade de uma candidatura ganhar é baixa e exige um consórcio de altíssimo nível. Segundo, a cláusula sobre propriedade intelectual obriga a desenhar bem, à partida, o que fica aberto e o que fica protegido. Recomendamos avaliar a participação cedo, escolher o consórcio pela qualidade do coordenador e negociar o acordo de consórcio com atenção real às regras de exploração dos resultados.
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