Enquadramento

Saúde e clima, agora indissociáveis

As alterações climáticas deixaram de ser questão ambiental para se tornarem uma das principais ameaças à saúde pública europeia. As ondas de calor extremo, os incêndios rurais, a expansão geográfica de vetores de doenças, a degradação da qualidade do ar e a pressão sobre infraestruturas hospitalares são já, hoje, factores quantificáveis de morbilidade e mortalidade. As próximas duas décadas vão ampliar este quadro e os sistemas de saúde europeus enfrentam o paradoxo de serem simultaneamente vítimas e contribuintes do problema: o setor da saúde representa, na União Europeia, cerca de 4 a 5 por cento das emissões totais de gases com efeito de estufa.

O tópico HORIZON-HLTH-2026-01-ENVHLTH-04 mobiliza 45 milhões de euros para 6 projetos de Research and Innovation Action focados em fechar este ciclo. Procura intervenções inclusivas, acessíveis e tecnologias que tornem os sistemas de saúde resilientes ao clima, capazes de adaptação e neutros em carbono, ao mesmo tempo que preparam populações para riscos climáticos para a saúde. A call insere-se na destination "Environmental and social health determinants" do Cluster 1, articulada com a EU Climate Adaptation Strategy, o EU4Health e a estratégia europeia para a economia circular.

Dados-chave

A oportunidade em números

€45M
Dotação total
6
Projetos previstos
€7-8M
Por projeto
100%
Cofinanciamento

Submissão single-stage com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e deadline a 16 de abril de 2026 às 17h00 hora de Bruxelas. Funding rate de 100% em formato lump sum, o que altera a mecânica financeira: o orçamento aprovado é fixo, sem reconciliação de custos reais, mas exige planeamento detalhado de work packages e milestones por aprovação de tranches. Cerca de 2 por cento do orçamento é dedicado obrigatoriamente a clustering e atividades conjuntas com outros projetos da mesma destination, requisito frequentemente subestimado em propostas que falham.

Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Setor da saúde com inovação tecnológica: hospitais, centros de saúde, laboratórios e cadeia farmacêutica europeus com acesso a soluções tecnológicas concretas para tornar operações mais verdes e adaptar infraestrutura ao clima, com proteção da biodiversidade e dos serviços de ecossistema.
  • Decisores com evidência sobre co-benefícios: evidência robusta sobre benefícios para a saúde e co-benefícios das intervenções climáticas e ambientais (ar mais limpo, mobilidade ativa, dietas sustentáveis), com métricas que permitam priorização orçamental por agências de saúde pública.
  • Políticas com soluções inovadoras integradas: formuladores de políticas de saúde, ambiente e território com capacidade de incorporar soluções e tecnologias inovadoras, inclusivas e acessíveis em pacotes regulamentares e planos nacionais.
  • Quadros para autoridades públicas: autoridades públicas locais, regionais e nacionais com adoção de frameworks operacionais para responder a impactos na saúde derivados de fatores climáticos e ambientais (planos de calor, alertas precoces, capacidade hospitalar de surge).
  • Populações capacitadas: cidadãos com conhecimento e ferramentas para adoptar comportamentos protetores da saúde e adaptação a riscos climáticos, com atenção especial a populações vulneráveis (idosos, crianças, pessoas com doença crónica, baixos rendimentos).
Eixos de intervenção

Os três planos da resposta

As propostas vencedoras tendem a articular três eixos de forma integrada, cada um com a sua intensidade tecnológica e regulamentar.

  • Descarbonização do setor saúde: auditoria e redução de pegada de carbono em hospitais (anestésicos voláteis com alto GWP, energia, residuos clínicos), gestão de resíduos farmacêuticos e medical devices, eletrificação de frotas, eficiência energética em edifícios hospitalares, modelos de telemedicina que reduzem deslocações.
  • Adaptação ao clima: sistemas de alerta precoce para ondas de calor, expansão de vetores (mosquito tigre, carraças), preparação para incêndios e pressão respiratória, capacidade de surge hospitalar perante eventos climáticos extremos, infraestrutura hospitalar resiliente.
  • Saúde planetária: intervenções que protejam biodiversidade e serviços de ecossistema com co-benefícios para saúde humana (qualidade de ar urbano, exposição a químicos, dietas sustentáveis, espaços verdes urbanos), abordagens One Health integrando saúde humana, animal e ambiental.
Sinal editorial
As propostas mais competitivas integram os três eixos num desenho coerente, em vez de privilegiar um isoladamente. A call valoriza explicitamente "soluções inclusivas e acessíveis", o que significa que a inovação tecnológica pura, sem componente de adoção comunitária e equidade, perde peso em "Impact". O envelope típico (7 a 8 milhões por projeto) suporta consórcios médios capazes de cobrir as três frentes, mas exige work packages com responsabilidades nítidas e governance bem definida.
Componentes técnicas valorizadas

Onde a tecnologia entra

  • Dados Copernicus e Galileo: uso obrigatório quando aplicável. Dados de satélite para monitorização da qualidade do ar, ilhas de calor urbano, cobertura vegetal, expansão de vetores e indicadores ambientais com integração em sistemas de saúde pública.
  • Modelação climática regional: downscaling de cenários IPCC para escala regional e local, projeções de impacto sanitário em 2030, 2050, 2100 sob diferentes RCPs, calibração com séries epidemiológicas locais.
  • Sistemas de alerta precoce: integração de dados meteorológicos, ambientais e sanitários para gerar alertas operacionais para autoridades de saúde, com interfaces para sistemas hospitalares e proteção civil.
  • Ferramentas de auditoria de carbono: métricas standardizadas para pegada de carbono hospitalar, comparáveis entre instituições e regiões, alinhadas com reporting NHS Greener (UK) e iniciativas similares em França, Alemanha e Países Nórdicos.
  • Plataformas digitais de capacitação: aplicações móveis, portais e sistemas de comunicação de risco que cheguem a populações vulneráveis em formato acessível (multilingue, com baixos requisitos de literacia digital, interfaces para grupos com deficiência).
  • Pilotagem em contexto real: implementação efetiva em hospitais piloto e municípios reais, não apenas simulação, com avaliação de impacto e medição de adoção.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. A configuração realista para esta call envolve 10 a 15 parceiros principais, articulando hospitais, autoridades de saúde pública, centros de investigação climática, empresas de tecnologia e organizações da sociedade civil.

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Hospitais pilotoCentros hospitalares dispostos a ser laboratório de descarbonização e adaptação, com capacidade técnica e gestão alinhada (King's College Hospital London, AP-HP Paris, Karolinska Stockholm, Charité Berlin).
Autoridades de saúde públicaDGS (Portugal), Public Health England, ARS regionais, ECDC como advisor. Têm dados epidemiológicos, mandato regulamentar e canal para escalar pós-projeto.
Centros de modelação climáticaMet Office UK, KNMI, IPMA, Météo-France, Max Planck Institute for Meteorology, com capacidade de downscaling e cenários regionais.
Investigação em saúde ambientalISGlobal Barcelona (referência europeia), Erasmus MC Rotterdam, INSERM-CIESM, KU Leuven Centre for Environment and Health.
SMEs tecnológicasEmpresas em digital health, sensores ambientais, plataformas de comunicação de risco e gestão energética hospitalar, com IP claro e capacidade de scale-up.
Indústria farmacêutica e medical devicesPara descarbonização de cadeia farmacêutica e medical devices, com casos de uso em anestésicos, packaging e logística.
ONGs e advocacyOrganizações como Health Care Without Harm Europe, com track record em greener hospitals; ONGs de proteção civil para componente comunitária.
Municípios e regiõesCidades que estejam a implementar planos de calor e adaptação climática, idealmente com hospital piloto associado e dados ambientais consolidados.
Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem combinação rara de exposição climática crítica e densidade institucional adequada para este tópico. A vulnerabilidade do território a calor extremo, incêndios rurais e seca, combinada com a pressão hospitalar histórica nas zonas afetadas (Algarve, Alentejo, interior Centro), faz do país um caso de estudo natural para projetos de saúde resiliente ao clima. Esta vulnerabilidade pode ser desvantagem operacional, mas é vantagem competitiva em propostas Horizon que valorizem casos de uso real e escala-piloto.

Em modelação climática e dados ambientais, o IPMA tem capacidade reconhecida em modelação regional e está integrado em redes europeias EUMETNET. O CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar) da Universidade de Aveiro tem produção forte em qualidade do ar e impactos sanitários e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CCIAM-Climate Change Impacts, Adaptation and Modelling) tem track record em projetos europeus de adaptação. O cE3c-FCUL articula clima, biodiversidade e saúde com produção em interface ecossistemas-saúde humana.

Em saúde pública e epidemiologia ambiental, o INSA Ricardo Jorge tem capacidade em vigilância de doenças vetoriais (dengue, chikungunya com vigilância em Madeira), saúde ambiental e biomonitorização. O Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) tem produção forte em epidemiologia ambiental, particularmente exposição a poluentes do ar e impactos cardiovasculares. A NOVA Information Management School tem capacidade em integração de dados geoespaciais e saúde.

Em descarbonização hospitalar, Portugal está numa fase inicial mas com casos pioneiros: a CUF Descobertas, a Luz Saúde e o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) têm iniciativas de eficiência energética e gestão de resíduos. O Hospital da Luz Lisboa tem certificação ambiental relevante. Estes hospitais podem entrar como pilotos europeus, com upside reputacional significativo. A nível regional, ARSs (Algarve, Alentejo) têm experiência em gestão de surge sob ondas de calor que pode ser sistematizada.

Em SMEs tecnológicas com encaixe directo, o ecossistema português tem players relevantes: Veniam (V2X e mobilidade), Critical Software (sistemas críticos), Visualforma e Next Step Technology em digital health, sensores ambientais via INESC TEC e INL Braga, além de empresas em modelação computacional como Yet Analytics e Magnitude Space. A Coopérnico, embora cooperativa de energia, pode entrar como case study em transição energética com co-benefício sanitário.

Em municípios e autarquias com agenda climática, Lisboa, Porto, Cascais e Évora têm planos municipais de adaptação climática consolidados e podem entrar como territórios-piloto. O programa Bairros Saudáveis e a articulação com a Agenda Climática para a Saúde da DGS oferecem âncora institucional para escalar pós-projeto.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Limiares de avaliação não-standard: esta call usa limiares 4/4/4 cumulativo 12, em vez do standard 3/3/3 cumulativo 10. É das calls mais exigentes do Cluster 1. Sem proposta tecnicamente excelente em todas as três dimensões, não há financiamento.
  • Inclusão e acessibilidade visíveis: a call exige soluções "inclusivas e acessíveis". Sem desenho explícito para populações vulneráveis (idosos, baixa literacia digital, baixos rendimentos, pessoas com deficiência), perde peso significativo em "Impact".
  • Pilotagem em contexto real: propostas com mockups, simulações e ferramentas teóricas tendem a perder face a propostas com hospitais e municípios piloto reais, com letters of commitment formais e dados de baseline já coletados.
  • Lump sum exige planeamento robusto: o formato lump sum significa que o orçamento aprovado é fixo, sem reconciliação. Work packages com milestones nítidas, deliverables verificáveis e tranches de pagamento bem desenhadas não são opcionais.
  • Clustering com outros projetos: 2 por cento do orçamento dedicado a atividades conjuntas é exigência formal. Propostas que ignoram este componente caem em "Implementation".
  • Articulação multi-nível: a integração entre tecnologia, política, prática hospitalar e capacitação comunitária deve ser explícita no desenho. Propostas mono-foco (apenas tecnologia, apenas política) tendem a perder.
  • Exclusões de elegibilidade: entidades chinesas excluídas de RIA. Entidades dos EUA elegíveis sob arranjo recíproco com NIH. Validar elegibilidade de parceiros antes de incluir.
  • Articulação com EU Climate Adaptation Strategy: propostas que demonstram alinhamento explícito com Mission Adaptation, EU4Health, EEA reporting e Green Deal têm vantagem em "Impact".
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico é estrategicamente um dos mais relevantes do Cluster 1 para Portugal pelas razões erradas: a exposição climática crítica do território, combinada com fragilidades concretas do SNS perante ondas de calor e incêndios, transforma-nos em caso de estudo natural. Mas esta vulnerabilidade tem de ser convertida em vantagem competitiva via pilotagem real e dados de baseline. As entidades portuguesas que entrem aqui posicionam-se em redes europeias de saúde planetária pelos próximos 10 anos, terreno onde Portugal está hoje sub-representado.

A recomendação prática para entidades portuguesas é tripla. Primeiro, ARSs do Algarve e Alentejo, em parceria com hospitais piloto (CUF, Luz Saúde, CHULN), podem entrar como sites de pilotagem de descarbonização hospitalar e adaptação climática. O budget tipico para esta posição situa-se entre 600 mil e 1,2 milhões de euros por entidade, com upside reputacional significativo e capacidade de capturar fundos PRR e nacionais para escalar pós-projeto. A coordenação requer envolvimento de DGS desde o início para garantir alinhamento com plano nacional.

Segundo, centros de investigação como ISPUP, CESAM, CCIAM, IPMA e cE3c posicionam-se naturalmente como WP leaders em modelação ambiental, vigilância epidemiológica e geração de evidência. O budget tipico aqui situa-se entre 700 mil e 1,3 milhões de euros, dependendo da função (lead técnico de WP versus participante ativo). A articulação entre IPMA e ISPUP em ondas de calor pode ser bloco competitivo significativo se desenhada com antecedência.

Terceiro, em SMEs tecnológicas, o ecossistema português pode entrar via plataformas de comunicação de risco (Critical Software, Veniam), sensores ambientais (INL Braga, INESC TEC) e modelação computacional. O budget tipico situa-se entre 400 mil e 800 mil euros, com vantagem de scale-up tecnológico pós-projeto via licenciamento ou comercialização internacional. Para municípios, Lisboa e Cascais, com planos de adaptação climática consolidados, têm credibilidade europeia e podem entrar como territórios-piloto.

O que não funciona é entrar com proposta concentrada apenas em modelação climática sem componente hospitalar de pilotagem, sem componente comunitária de capacitação, ou sem articulação política com DGS, autarquias e EEA. As propostas vencedoras articulam tecnologia, evidência, política e capacitação num desenho integrado, com pilotos reais e métricas de impacto observáveis. A simples produção académica de evidência, embora necessária, não basta para esta call específica.

Vale ainda nota estratégica: este tópico articula-se com o futuro EU Climate and Health Observatory, o EEA Climate-ADAPT e a próxima geração de planos nacionais de adaptação climática. As entidades que se posicionam aqui constroem capital regulamentar e científico para 10 a 15 anos. Para Portugal, é também ferramenta de inserção em redes europeias de saúde planetária e descarbonização hospitalar onde a presença nacional é hoje limitada. A janela competitiva é estreita: 6 projetos para 27 Estados-Membros mais países associados.

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