Onde se atualizam as máquinas que produzem ciência europeia
As infraestruturas de investigação são o sistema de capital fixo da ciência europeia. Aceleradores de partículas, sincrotrões, telescópios, centros de imagem médica de ponta, infraestruturas marinhas, biobancos. Algumas com vida útil prevista de décadas, todas com pressão para se manterem competitivas face a equipamentos novos no Japão, na Coreia, nos Estados Unidos. A renovação contínua dessas máquinas, o desenvolvimento de novos detetores, sensores, métodos de processamento e digitalização, é uma componente crítica da capacidade científica europeia.
É isso que financia o HORIZON-INFRA-2026-TECH-01-01. Com uma dotação de 110M EUR para 11 projetos, é o tópico de maior alocação financeira da call HORIZON-INFRA-2026-01. A ambição é clara: produzir instrumentação, ferramentas, métodos e soluções de digitalização que permitam às infraestruturas europeias suportar novas áreas de investigação ou comunidades de utilizadores mais alargadas, incluindo utilizadores industriais.
A leitura industrial é igualmente relevante. Os equipamentos científicos que sustentam a investigação académica europeia são frequentemente desenvolvidos em parceria com PME, startups e scaleups especializadas. Este tópico é um dos vetores que liga essas empresas ao mercado europeu de equipamento científico de ponta.
Dimensão financeira do tópico
A dimensão por projeto é assinalável. Cada um dos 11 vencedores recebe entre 5M e 10M EUR, com média de 10M EUR. Para uma RIA do Horizonte Europa, é uma das alocações mais generosas, a par dos grandes flagships dos Clusters. Em RIA, a taxa de financiamento é de 100% dos custos elegíveis para entidades de investigação e 70% para empresas com fins lucrativos.
Há ainda uma opção PCP (Pre-commercial Procurement) prevista no tópico. Quem optar por incluir atividades PCP pode usar uma fatia do orçamento para procurement competitivo de R&D, em fases sucessivas (design, prototipagem, desenvolvimento original, validação), reduzindo o risco de investimento e abrindo oportunidades de mercado a empresas inovadoras.
Para que servem os 11 projetos
- Reforço da competitividade científica das infraestruturas europeias face aos seus pares globais.
- Aumento da capacidade para responder a desafios científicos novos e a prioridades de política da União Europeia.
- Greening e resiliência das infraestruturas, em particular face ao consumo energético, aspetos climáticos e uso de materiais e componentes críticos.
- Eficiência via digitalização, com automação de operação, processamento de dados em tempo real e novos pipelines de análise.
- Colaboração com universidades, RTOs e indústria, alimentando ecossistema de inovação e promovendo a soberania tecnológica europeia em equipamento científico.
- Co-desenvolvimento com indústria de tecnologias avançadas para infraestruturas, com benefícios de transferência para mercados não-científicos.
- Integração das infraestruturas em sistemas de inovação locais, regionais, nacionais e globais e promoção de cultura empreendedora.
O que as propostas devem cobrir
As propostas devem entregar instrumentação científica nova, ferramentas, métodos de digitalização e soluções que avancem o estado-da-arte das infraestruturas e que demonstrem potencial transformacional na sua operação. Concretamente:
- Investigação e desenvolvimento de nova instrumentação científica, ferramentas, digitalização e métodos para infraestruturas.
- Validação tecnológica e prototipagem, com ensaios em ambiente realista da infraestrutura.
- Formação de staff de RIs para operação e uso das novas soluções, incluindo, quando relevante, validação técnica a padrões industriais.
- Potencial de exploração industrial das soluções e benefícios para a sociedade, incluindo conceitos para uso por PME, startups e scaleups.
A complementaridade com chamadas anteriores é explícita: as propostas devem visar instrumentação, ferramentas, métodos, digitalização e soluções diferentes das financiadas pelos tópicos HORIZON-INFRA-2022-TECH-01-01 e HORIZON-INFRA-2024-TECH-01-01. A complementaridade tem de ser explicada na proposta, sob pena de fragilidade no critério Excelência.
Configuração de consórcio
A regra distintiva deste tópico é a obrigação de incluir pelo menos duas infraestruturas de investigação diferentes como beneficiárias, sendo cada uma delas uma de três opções:
- ESFRI Landmark ou Project, conforme o roteiro ESFRI 2021.
- European Research Infrastructure Consortium (ERIC), entidade legal estabelecida ao abrigo do Regulamento ERIC.
- Outra RI que seja uma organização internacional europeia de investigação (organização internacional cuja maioria de membros sejam Estados-Membros ou países associados e cujo objetivo principal seja promover cooperação científica europeia).
A participação de dois nós da mesma ESFRI ou ERIC não conta como duas infraestruturas distintas. Tem mesmo de haver duas RIs estruturalmente independentes.
Para além das duas RIs, o consórcio deve incluir parceiros tecnológicos, incluindo indústria, PME, startups e scaleups, para promover inovação e partilha de conhecimento via co-desenvolvimento. A presença industrial é simultaneamente exigência regulamentar e fator competitivo, dado o foco em soberania tecnológica.
Calendário e modelo de avaliação
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura indicativa | Início de 2026 (call HORIZON-INFRA-2026-01) |
| Prazo de submissão | 9 de setembro de 2026 |
| Modelo | Single-stage |
| Avaliação | Standard evaluation form (HE RIA, IA) |
| Custos elegíveis | Conforme Annex G; opção PCP em Annex H |
Critérios horizontais que pesam
Para minimizar a pegada ambiental e aumentar a resiliência das RIs (consumo energético, aspetos climáticos, uso de materiais e componentes críticos), as propostas devem endereçar greening e resiliência para todos os equipamentos, ferramentas, métodos, digitalização e soluções propostos. Esta é uma componente avaliada e que distingue propostas competitivas.
As propostas são igualmente encorajadas a incorporar princípios alinhados com as políticas ambientais da União Europeia, em particular Safe and Sustainable-by-Design (SSbD) e circular-by-design. Não é mandatório, é fator de diferenciação no critério Impacto.
O que recomendamos
Este é o tópico de maior dimensão financeira da call HORIZON-INFRA-2026-01 e, por isso, o mais competitivo. Onze projetos com 10M EUR cada significam algo entre 50 e 100 propostas avaliadas, das quais uma fração reduzida vai a financiamento. A barreira de entrada está bem definida: duas ou mais RIs como beneficiárias, parceiros industriais credíveis, complementaridade demonstrada com chamadas anteriores, TRL 4 ou superior demonstrável.
Para entidades portuguesas, o caminho competitivo é entrar como parceiro tecnológico ou industrial num consórcio liderado por uma ESFRI europeia ou ERIC. Existem várias ESFRI em que Portugal participa via FCT como representante, nomeadamente ELIXIR, EMBRC, ESS, ECRIN, EPOS, MIRRI, EATRIS. Quem está envolvido na operação dos nós nacionais dessas infraestruturas tem o ponto de entrada natural para encontrar a ESFRI/ERIC parceira.
Para PME tecnológicas portuguesas com produtos relevantes em sensores, ótica avançada, eletrónica de baixa potência, sistemas embebidos, AI para análise de dados científicos ou simulação avançada, este tópico é uma porta para um cliente industrial estável durante o ciclo do projeto. As empresas que entram bem nestes consórcios costumam usar o financiamento para validar tecnologia em ambiente exigente, o que depois facilita penetração comercial em mercados industriais adjacentes (medical imaging, defense, aerospace, photonics).
Uma nota sobre a opção PCP. Para projetos onde uma RI quer adquirir tecnologia ainda não disponível no mercado, a inclusão de PCP é uma alavanca poderosa, porque transforma parte do consórcio numa rede de fornecedores em competição. Mas a PCP exige uma RI compradora com capacidade administrativa para gerir procurement competitivo e uma comunidade de fornecedores capazes de responder. Não é trivial e tem de ser estruturada com tempo: identificar a oportunidade dois ciclos antes da call.
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