O que é

A passagem do digital twin europeu para o uso operacional

O HORIZON-INFRA-2027-TECH-01-02 financia três projetos RIA, com 30M EUR no total, que pegam no sistema Destination Earth (DestinE), o digital twin europeu da Terra e o transformam em pilotos cross-setoriais à escala real. Não é mais um projeto de modelação climática. É a tentativa de passar de capacidade científica instalada para serviços usáveis por decisores, autoridades e indústria.

Destination Earth foi lançado pela Comissão Europeia em parceria com a ESA, o ECMWF e a EUMETSAT. Combina observação satélite Copernicus, modelos de alta resolução e capacidade de supercomputação europeia (EuroHPC) para produzir digital twins do clima e dos extremos meteorológicos. O sistema existe e funciona. O problema apontado por esta call é o gap: cientistas usam DestinE, decisores políticos pouco; investigação avança, soluções práticas em saúde, energia, agricultura ou mobilidade sob impacto climático escasseiam.

Esta call quer fechar esse gap. Pilotos e demonstradores de larga escala, em pelo menos três Estados-Membros, co-desenhados com utilizadores finais reais (autoridades públicas, decisores, gestores territoriais) e construídos sobre o sistema DestinE existente, com integração obrigatória das AI Factories e dos Common European Data Spaces.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico cobre uma necessidade muito particular: aplicar IA e infraestrutura digital europeia para resolver problemas reais de adaptação climática. Não é I&D fundamental, é I&D aplicada com TRL 5 ou superior à saída.

  • Digitalização e IA: o tópico está integralmente alinhado com o AI Continent Action Plan da UE. Exige uso da data lab infrastructure das AI Factories, federação de dados de múltiplas Factories, ligação aos Common European Data Spaces e disponibilização de dados de alta qualidade a developers de IA.
  • Sustentabilidade, energia e clima: os pilotos têm de tratar adaptação climática e mitigação de risco, em setores como saúde, energia, agroalimentar e mobilidade, todos sob impacto crescente das alterações climáticas.
  • I&D e ciência: a base científica é o sistema Destination Earth, com modelação de alta resolução e o trabalho integra desenvolvimento de modelos, acoplamento de modelos cross-setoriais e demonstração em cenários reais.
Estrutura e dotação

Três projetos grandes, ticket médio próximo dos 10M EUR

A dimensão dos projetos é significativa. Com 30M EUR para 3 grants e contribuição entre 7M e 12M EUR cada, falamos de RIAs grandes. Para o ecossistema europeu DestinE, isto traduz-se em consórcios de 12 a 20 parceiros, com forte presença de centros de investigação climática, instituições estatísticas, autoridades públicas como utilizadores finais e participação obrigatória de SMEs e startups na componente IA.

30MEUR
Dotação total
3
Grants esperados
7-12MEUR
Per projeto
TRL 5+
Maturidade no fim

A obrigação de TRL 5 ou superior à saída é a fronteira que separa este tópico de uma RIA puramente exploratória. TRL 5 significa demonstração a escala relevante em ambiente representativo. Não é prova de conceito em laboratório. Exige pilotos operacionais, com utilizadores reais, em pelo menos três Estados-Membros ou Países Associados.

Cinco vetores obrigatórios

O que a proposta tem de cobrir

A call lista cinco vetores que devem ser todos endereçados. Comités de avaliação penalizam propostas seletivas.

  • Pilotos cross-setoriais com DestinE: planear, desenhar e supervisionar pilotos experimentais de larga escala usando capacidades DestinE em setores de impacto crítico ligados a políticas públicas. Foco em desafios reais de adaptação e mitigação de risco a escalas europeia, nacional, regional e local.
  • Acoplamento de modelos: os pilotos têm de melhorar e acoplar modelos usados em diferentes setores. Combinar saúde induzida pelo clima, energia, agroalimentar, mobilidade. Testar medidas de adaptação e mitigação em cenários reais.
  • Integração com AI Factories: contribuir para a infraestrutura de dados em torno de DestinE para novos digital twins habilitados por IA, usando os Data Labs das AI Factories e integrando-os no sistema DestinE. Envolvimento de SMEs e startups em IA e deep tech, em colaboração estreita com a comunidade científica.
  • Co-design em mais de três países: os pilotos têm de ser co-desenhados e experimentados em pelo menos três Estados-Membros ou Países Associados, em colaboração estreita entre cientistas, developers de IA, técnicos do setor público e decisores políticos.
  • Set-ups sustentáveis e tailored: as soluções têm de demonstrar setups operacionais sustentáveis, com interatividade com digital twins, adaptação a dados em mudança e visualização on-demand. Devem integrar governance place-based, características socioeconómicas e identitárias e dados context-specific para respostas adequadas a cada território.
Adesão obrigatória a standards Destination Earth
As propostas têm de aderir aos standards e melhores práticas definidas pela iniciativa Destination Earth para garantir interoperabilidade. Sempre que possível, a plataforma DestinE deve ser usada para deployment e escalabilidade. A relação com as entidades implementadoras (ESA, ECMWF, EUMETSAT) tem de ser concreta e demonstrada na proposta, com uma pathway clara e credível de colaboração.
Sinergias e integração

Ligações obrigatórias

A proposta tem de demonstrar integração com vários ecossistemas digitais europeus simultaneamente. Não basta enumerá-los, há que detalhar interfaces e fluxos de dados.

  • Destination Earth: standards, plataforma e linha direta com ESA, ECMWF, EUMETSAT. Possível inclusão da Mercator Ocean International (digital twin oceano).
  • AI Factories e Data Labs: uso operacional, não declarativo. Federação de dados entre Factories.
  • Common European Data Spaces: integração de dados via os data spaces relevantes para o domínio piloto.
  • European Open Science Cloud (EOSC): sinergias para acesso a dados científicos e workflows.
  • Projetos antecedentes: os RIAs INFRA-2021-TECH-01, INFRA-2024-TECH-01 e INFRA-2025-TECH-01 são referência obrigatória. A proposta tem de explicar como aproveita o que já foi gerado.
  • EU Mission on Adaptation to Climate Change: ligações fortes encorajadas, particularmente nos territórios da Mission.
  • Copernicus services: resultados devem ser analisados quanto ao potencial de integração em serviços Copernicus existentes ou novos.
Calendário e regras financeiras

Single-stage, lump sum, deadline a meio de 2027

MarcoDataNota
Abertura da call2027HORIZON-INFRA-2027-01
Deadline de submissão15 de junho de 2027Single-stage
Avaliação2027 segundo semestreExcellence, Impact, Quality and efficiency of implementation
Início típicoinício de 2028Após Grant Agreement
Duração típica3 a 4 anosSuficiente para alcançar TRL 5

A modalidade lump sum exige planeamento orçamental rigoroso. Cada work package recebe montante fixo e o pagamento depende da entrega. Para um RIA de 7M a 12M EUR com forte componente de pilotos operacionais, isto significa que os outputs (pilotos validados, modelos acoplados, datasets disponibilizados) têm de estar perfeitamente delineados na proposta.

Há ainda uma cláusula de proteção de redes europeias: aplicam-se restrições a entidades de países terceiros não associados em certas áreas. E há condição operacional clara: beneficiários têm de usar Copernicus e Galileo/EGNOS quando o projeto envolva dados de observação satélite, posicionamento ou navegação.

Para o ecossistema português

Onde se posiciona Portugal

Portugal tem ativos relevantes para participar num projeto deste perfil. O IPMA tem ligação direta a Copernicus e à comunidade de modelação atmosférica europeia. O LNEC tem componente de modelação hidrológica e costeira. O Centro de Computação Avançada (Universidade do Minho, INESC TEC) tem peso em HPC. Universidades como FCUL, NOVA SBE, Universidade do Minho e Universidade de Coimbra têm grupos de modelação climática e ambiental.

Para SMEs portuguesas em IA e deep tech, este é um dos raros tópicos do INFRA programme onde a participação não é decorativa. A call exige expressamente o envolvimento de SMEs e startups na componente IA das AI Factories. Empresas como Unbabel, Defined.ai, Feedzai, ou startups portuguesas em climate tech (e.g. Ostrom, ClimateAi affiliates, ClimateView Iberia, Biocircular Group) têm encaixe natural se trabalharem em modelos preditivos, séries temporais climáticas, ou processamento de dados Copernicus.

Autoridades públicas e municipais portuguesas (CCDR, ANEPC, IPMA, APA, autarquias com programas de adaptação) podem entrar como utilizadores finais e parceiros de co-design, especialmente se já estão envolvidos em planos de adaptação climática regional ou municipal.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é um dos tópicos INFRA mais alinhados com a agenda industrial e digital europeia em 2027. Combina o digital twin Destination Earth, o AI Continent Action Plan e os Common European Data Spaces num único veículo de implementação. Quem trabalhe em climate tech aplicado, IA para serviços públicos, ou modelação cross-setorial deve estar atento.

A armadilha estrutural é o excesso de ambição declarativa. Cinco vetores obrigatórios, três Estados-Membros, ligação a sete ecossistemas digitais europeus, TRL 5 à saída e co-design com decisores políticos é quase impossível para um consórcio que não esteja já organizado e com track record DestinE. Recomendamos olhar primeiro para os RIAs INFRA-2021, INFRA-2024 e INFRA-2025-TECH-01 já contratados, identificar quem coordena e está em fase de extensão e procurar entrar como work package leader ou parceiro tecnológico em propostas que se construam sobre essa base.

Para Portugal, a janela útil é até início de 2027. Ainda há tempo para identificar consórcios em formação, posicionar uma empresa portuguesa de climate tech ou IA aplicada e explorar o canal AI Factory que vai abrir num dos hubs nacionais. Tópicos com 7M a 12M EUR por projeto deixam espaço para parcerias robustas mesmo de SMEs, com ticket de 500K a 2M EUR per parceiro plenamente realista.

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