A floresta como matéria-prima de bioeconomia
A Circular Bio-based Europe Joint Undertaking, ou CBE JU, é a parceria público-privada europeia para a bioeconomia circular. O Work Programme 2026 inclui o IA-03, dedicado especificamente à valorização de resíduos lenhosos em químicos e materiais biobaseados. O orçamento é de 14 milhões de euros, repartidos por dois projetos com bolsa fixa de 7 milhões cada, com janela de submissão entre 23 de abril e 22 de setembro de 2026.
O tópico está enquadrado por quatro instrumentos de policy europeu. A Estratégia Florestal da UE para 2030 estabelece que a biomassa lenhosa deve ser usada em cascata, priorizando aplicações de elevado valor acrescentado em detrimento de queima energética. A Estratégia da Biodiversidade reforça a necessidade de manter a floresta saudável face às pressões climáticas. O Regulamento de Certificação de Remoção de Carbono, entrado em vigor em 2024, abre a porta a modelos de remuneração da floresta por carbono armazenado em produtos biobaseados duráveis. A Estratégia da Bioeconomia atualizada e o Circular Economy Act em preparação completam o quadro estratégico.
Como o orçamento se distribui
A dotação total da call HORIZON-JU-CBE-2026 ascende a 170,76 milhões de euros, distribuídos por catorze tópicos. O IA-03 representa cerca de 8% desta dotação. O modelo Innovation Action permite cofinanciamento até 70% das despesas elegíveis para empresas comerciais e 100% para entidades não lucrativas. A bolsa fixa de 7 milhões posiciona o tópico num intervalo intermédio, suficiente para sustentar consórcios de seis a oito parceiros com forte componente industrial.
O que a CBE JU quer ver acontecer
As propostas competitivas têm de articular contribuições para três outcomes principais, todos ligados à competitividade da fileira florestal europeia.
- Maior disponibilidade: alargar a oferta europeia de químicos e materiais biobaseados produzidos a partir de resíduos lenhosos.
- Sustentabilidade da fileira: reforço da sustentabilidade das cadeias de valor florestais, em cooperação demonstrada com proprietários e cooperativas locais.
- Fim de vida melhorado: melhoria mensurável dos indicadores de fim de vida dos produtos biobaseados derivados de resíduos lenhosos.
Que feedstock e que processos
O scope é prescritivo no tipo de feedstock elegível e nos requisitos técnicos. As atividades têm de combinar três blocos com requisitos quantitativos.
- Feedstock elegível: resíduos lenhosos gerados em operações florestais ou em sítios de processamento industrial, incluindo cascas, serradura e resíduos de colheita ou de processamento de madeira. Folhas finas e ramos típicamente deixados no solo para manter o ecossistema florestal estão fora de âmbito.
- Processos demonstrados a TRL 6: tecnologias inovadoras e escaláveis para obtenção de químicos e materiais, com combinação ótima de pré-tratamento, conversão e separação.
- Maximização de yield, seletividade e produtividade: demonstração quantitativa de eficiência de conversão face a benchmarks atuais.
- Flexibilidade ao feedstock: as tecnologias têm de demonstrar capacidade de operar com variabilidade de qualidade do feedstock, dado que resíduos lenhosos têm composição mais variável que matérias-primas convencionais.
- Validação em produto final: a TRL 5 ou superior, os químicos e materiais obtidos têm de ser validados em produtos finais, com avaliação de performance face a requisitos de mercado.
- Eco-design e fim de vida: aplicação dos princípios do Regulamento Eco-conceção, com testes de fim de vida sustentável a TRL 5 ou superior. Incineração está fora de âmbito.
As exigências adicionais sobre biomassa
Para além das atividades técnicas, as propostas têm de incluir atividades específicas sobre o fornecimento e a logística do feedstock lenhoso. A CBE JU dá peso explícito a estas componentes porque são frequentemente o gargalo entre TRL 6 e TRL 8 em projetos posteriores.
- Modelos de cadeia de fornecimento: otimização de modelos de sourcing, armazenamento e transporte aplicáveis aos resíduos lenhosos selecionados.
- Cooperação cooperativa: trabalho direto com cooperativas e associações setoriais florestais para mobilização do feedstock.
- Framework SSbD: aplicação obrigatória do framework Safe and Sustainable by Design para avaliação dos químicos e materiais ao longo do ciclo de vida.
- Complementaridade: articulação demonstrada com projetos H2020, Horizon Europe (Cluster 6 e outros) e BBI JU/CBE JU anteriores.
Os limiares e o que pesa
| Critério | Threshold | Nota máxima |
|---|---|---|
| Excellence | 4 / 5 | 5 / 5 |
| Impact | 4 / 5 | 5 / 5 |
| Implementation | 4 / 5 | 5 / 5 |
| Cumulativo | 12 / 15 | 15 / 15 |
Em IA da CBE JU sobre biomassa florestal, o critério Implementation tende a ter peso desproporcional. A presença efetiva de proprietários florestais e cooperativas no consórcio, com compromissos formais de fornecimento, é frequentemente o diferenciador entre propostas competitivas e propostas que falham o threshold. Excellence valoriza tecnologias com flexibilidade comprovada a feedstock variável e com integração de unit operations otimizada. Impact pesa o potencial de mercado dos químicos e materiais resultantes, com referência explícita a setores de aplicação como construção, embalagem, têxteis técnicos ou cosmética.
Onde Portugal entra com força
Portugal tem ativos competitivos de primeira linha para este tópico. A fileira florestal nacional, ancorada no eucalipto e no pinheiro bravo, tem capacidade industrial concentrada em players como a Navigator e a Altri, com volumes de resíduos lenhosos superiores a 1,5 milhões de toneladas por ano em estimativas recentes. Em I&D, o RAIZ é o centro técnico industrial de referência europeia em valorização de matérias-primas lignocelulósicas e tem track record CBE JU consolidado. A Universidade de Aveiro, a Universidade de Coimbra, a Universidade do Minho e o INESC TEC oferecem capacidade científica complementar em extração de lignina, celulose nanocristalina, bioplásticos e químicos finos.
A configuração mais competitiva de uma proposta liderada por Portugal seria um consórcio com RAIZ ou Universidade de Aveiro como coordenador, Navigator e/ou Altri como ancora industrial, uma cooperativa florestal regional como fornecedor de feedstock, dois ou três players europeus de I&D em conversão química ou biotecnológica e dois ou três end-users industriais europeus. A Centro PINUS pode atuar como mediador da componente cooperativa. Esta é, possivelmente, a única configuração CBE JU 2026 onde Portugal tem condições reais para coordenar uma proposta competitiva.
Onde o instrumento mostra os seus limites
- Concorrência intensa: tópicos sobre valorização florestal na CBE JU registaram historicamente forte presença de consórcios finlandeses, suecos, austríacos e alemães. A taxa de seleção tende a ser de 10 a 15%.
- Mobilização cooperativa: a obrigatoriedade de envolver proprietários florestais e cooperativas é tecnicamente complexa em Portugal, dado o minifúndio florestal e a dispersão da propriedade.
- Bolsa intermédia: 7 milhões por projeto pode ser insuficiente para consórcios com forte componente industrial e múltiplos sites de pilotagem.
- Risco de feedstock: a variabilidade qualitativa dos resíduos lenhosos pode introduzir incerteza durante a execução, com impacto na replicabilidade dos resultados.
O que recomendamos
A janela é confortável até 22 de setembro de 2026, mas o trabalho útil de mobilização do consórcio deve ficar concluído nas próximas oito a doze semanas. Para o ecossistema florestal e celulósico português, este é provavelmente o tópico mais alinhado da call CBE JU 2026 com as forças nacionais. Recomendamos que o RAIZ, em articulação com a Navigator e com a Universidade de Aveiro, inicie de imediato uma análise de oportunidade detalhada, mapeando potenciais coordenações e parcerias europeias. A janela de cinco meses é suficiente para preparar uma proposta liderada se a decisão for tomada nas próximas três a quatro semanas.
Para entidades que prefiram não coordenar, três caminhos de entrada são realistas. O primeiro é integrar consórcios europeus já em formação, tipicamente liderados por VTT, Stora Enso, RISE Suécia ou Fraunhofer Holzforschung, oferecendo capacidade especializada em pasta de eucalipto ou em resíduos do pinheiro mediterrâneo. O segundo é mobilizar capacidade tecnológica em valorização de lignina, área onde a Universidade de Aveiro tem publicações de elevado impacto. O terceiro é oferecer-se como sítio de pilotagem industrial, com a Navigator ou a Altri a poderem ancorar testes a TRL 6 nos respetivos pilots em Aveiro, Setúbal, Cacia ou Constância.
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