O gargalo silencioso das biorrefinarias
Esta Research and Innovation Action é um dos topics da Call HORIZON-JU-CBE-2026, gerida pela Circular Bio-based Europe Joint Undertaking (CBE JU). O foco é estritamente técnico: desenvolver tecnologias escaláveis e seletivas de separação e purificação que possam ser integradas em biorrefinarias industriais, tanto upstream como downstream, melhorando ao mesmo tempo eficiência de recursos e custos operacionais.
A motivação é industrial. Os processos centrais das biorrefinarias evoluíram significativamente nos últimos anos. O que ficou para trás foram as etapas de separação e purificação, que costumam representar uma fração desproporcionada dos custos totais e são frequentemente o ponto de bloqueio que impede a passagem de demonstrador para escala comercial. Para os produtos biobaseados (intermédios, químicos, ingredientes, materiais), a pureza e a estabilidade do output condicionam a sua compatibilidade com etapas posteriores de conversão e a sua aceitação no mercado.
As propostas devem contribuir para a Estratégia Atualizada da Bioeconomia da UE, o Circular Economy Act, o Clean Industrial Deal, o European Chemical Industry Action Plan e a Estratégia para a Sustentabilidade dos Produtos Químicos.
Dois projetos, 3,25 milhões cada
A CBE JU prevê financiar 2 projetos neste topic com contribuição UE única e fixa de 3,25 milhões de euros por projeto. A taxa de financiamento é de 100% dos custos elegíveis para todas as entidades, com 25% adicionais a título de overheads forfetários, sob a forma de subvenção não reembolsável.
Três requisitos cumulativos para a tecnologia desenvolvida
A descrição do topic estabelece um conjunto de obrigações técnicas que uma proposta competitiva tem de cobrir em simultâneo. Cada tecnologia desenvolvida tem de cumprir pelo menos dois critérios de melhoria sobre o state-of-the-art, tem de ser testada em pelo menos três casos de uso diferentes e tem de demonstrar compatibilidade com tecnologias existentes a montante.
- Escalabilidade e amplitude: desenvolver tecnologias de separação e purificação escaláveis e testá-las em pelo menos 3 casos de uso de biorrefinaria à escala industrial ou de demonstrador.
- Melhoria mensurável: cada tecnologia tem de cumprir pelo menos 2 dos 3 vetores: maior eficiência com solventes verdes (incluindo água) ou desenvolvimento de novos solventes minimizando os agressivos; intensificação de processo (redução do número de etapas); e redução do consumo de energia térmica ou elétrica e de água.
- Integração industrial: abordar a compatibilidade das soluções com tecnologias upstream existentes ou desenvolver soluções que tratem em conjunto desafios upstream e downstream.
- Validação no produto final: testar e validar a performance das tecnologias e o seu efeito sobre os bio-based products selecionados, incluindo produtos novos (não comercialmente disponíveis) e produtos já estabelecidos.
Em paralelo, a CBE JU exige duas condições de governance específicas: aplicação do framework Safe and Sustainable by Design da Comissão Europeia para avaliar os produtos obtidos através das tecnologias desenvolvidas; e demonstração de complementaridade com projetos passados e em curso financiados pelo Cluster 6 e outros Clusters do Horizonte Europa, BBI JU e CBE JU.
O que a CBE JU contratualiza
2. Plataformas tecnológicas de separação e purificação eficientes, seletivas e escaláveis, com elevado potencial de integração em biorrefinarias existentes ou novas.
3. Pureza e estabilidade dos intermédios e produtos compatíveis com requisitos de conversão posterior.
Os três outcomes são avaliados explicitamente na rubrica "Impact" da grelha standard das RIA. A linguagem é deliberada: "high potential to be integrated", "compatible with further conversion". A CBE JU não financia desenvolvimento de tecnologias separadas dos seus contextos industriais. Espera demonstradores plug-in.
Single-stage até 22 de setembro
A submissão é single-stage, com deadline em 22 de setembro de 2026 às 17h00 (horário Bruxelas). A abertura ocorreu em 23 de abril de 2026, o que dá aos consórcios cerca de 5 meses para preparar a proposta. A avaliação segue o modelo standard das RIA: Excellence, Impact e Quality and Efficiency of Implementation, cada um com peso de 1/3 e threshold individual de 3/5, threshold global de 10/15. A negociação do Grant Agreement decorre tipicamente nos 5 a 8 meses subsequentes à comunicação dos resultados.
O consórcio mínimo é de 3 entidades de 3 Estados-Membros ou países associados. Em projetos vencedores deste tipo de topic, é frequente uma configuração de 8 a 12 parceiros, com pelo menos uma biorrefinaria industrial ativa como anfitriã dos casos de uso.
Quem pode (e deve) candidatar-se
A natureza intensamente industrial deste topic significa que a coordenação raramente cabe a uma universidade. Em projetos similares no histórico CBE JU/BBI JU, os coordenadores são tipicamente centros de I&I aplicados (RISE, Fraunhofer, VTT, TNO) ou grandes empresas químicas com estrutura de I&D consolidada. Para empresas portuguesas, o caminho prático é entrar como WP leader em casos de uso ou em validação à escala demonstrador.
- Centros de I&I aplicados com competências em engenharia de processo, separação e purificação (membranas, cromatografia, extração com solventes verdes)
- Empresas operadoras de biorrefinaria com infraestrutura disponível para os 3 casos de uso requeridos
- PME tecnológicas que desenvolvem soluções específicas (ex: equipamento de separação por membrana, solventes verdes proprietários)
- Universidades e centros de investigação com competências em química verde, engenharia de processos e LCA
- Consultoras de engenharia química para o trabalho de scale-up e techno-economic assessment
Para o ecossistema português, há ativos relevantes em centros como o LNEG, INEGI, CIEPQPF (Coimbra) e Universidade de Aveiro e empresas com infraestrutura aplicável a casos de uso (Bondalti, Altri, Navigator) ainda que estas raramente surjam como parceiras formais em RIA da CBE JU. O caminho razoável é negociar entrada em consórcios já em formação a partir de redes europeias do setor.
O que recomendamos
Este é um topic de elevada exigência técnica e baixa visibilidade política. Não capta as manchetes que a fileira têxtil ou a química de plataforma capturam, mas é exatamente o tipo de problema cujo desbloqueio determina se a bioeconomia europeia cresce ou estagna. Para empresas com tecnologia validada em separação seletiva, membranas avançadas, cromatografia preparativa ou extração com solventes verdes, a oportunidade é real.
A nossa recomendação para empresas portuguesas: pensar este topic como uma RIA de validação industrial, não como uma RIA de descoberta. A CBE JU exige 3 casos de uso à escala industrial ou demonstrador, o que pressupõe acesso a instalações reais e disponibilidade de feedstock representativo. Sem este ativo, a candidatura tende a ser tecnicamente fraca por falta de demonstração credível. Para PME tecnológicas com solução proprietária mas sem infraestrutura própria, a estratégia razoável é parceria com operador industrial europeu antes de pensar em consórcio multi-país.
Erros comuns: desenhar uma plataforma genérica sem casos de uso específicos identificados desde a candidatura (a CBE JU pune severamente este abstracionismo); subdimensionar o trabalho de techno-economic assessment, que é frequentemente o que separa propostas tecnicamente sólidas de propostas adjudicáveis; ignorar a tarefa SSbD ou tratá-la como mero anexo. Este topic recompensa especialmente propostas com path to market explícito e parceiro industrial credível.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]