A Chips JU e a aposta europeia nos semicondutores
A Chips Joint Undertaking (Chips JU) é a parceria público-privada europeia criada no âmbito do EU Chips Act para reforçar a soberania tecnológica da Europa em semicondutores e sistemas eletrónicos. Financiada conjuntamente pelo Horizonte Europa, pela indústria e pelos Estados-Membros, a Chips JU financia investigação de vanguarda em design de chips, arquiteturas de computação e métodos de engenharia para sistemas eletrónicos complexos.
O programa de concursos ECS 2026 da Chips JU organiza o financiamento em Focus Topics (FT), cada um correspondendo a uma área tecnológica estratégica. O Focus Topic 4 (FT4) é dedicado a métodos de inteligência artificial aplicados à engenharia de veículos definidos por software (Software-Defined Vehicles, SDV), um dos domínios mais exigentes do ponto de vista computacional na indústria automóvel atual.
IA generativa ao serviço da engenharia automóvel
O conceito de veículo definido por software (SDV) representa uma mudança de paradigma na indústria automóvel: em vez de funcionalidades serem implementadas diretamente em hardware dedicado, o SDV delega cada vez mais funções a software que corre em plataformas computacionais centralizadas. Esta transformação multiplica a complexidade do software embarcado, tornando a engenharia manual inviável à escala exigida.
O FT4 financia a criação de métodos e ferramentas de IA, incluindo IA generativa, que automatizam tarefas de desenvolvimento de software em múltiplos domínios funcionais do veículo. O objetivo é que uma equipa multi-stakeholder (fabricante, fornecedores, reguladores) consiga trabalhar numa plataforma integrada e aberta, com ganhos mensuráveis em custo, tempo de desenvolvimento, qualidade e gestão do ciclo de vida.
- Objetivo 1: desenvolvimento de métodos avançados de engenharia assistidos por IA, incluindo IA generativa, para automatizar tarefas de software em múltiplos domínios funcionais do veículo.
- Objetivo 2: criação de uma plataforma integrada aberta e extensível assistida por IA, capaz de suportar equipas multi-stakeholder em processos de desenvolvimento distribuído.
- Objetivo 3: demonstração de ganhos de eficiência em veículos SDV reais, em termos de custo, tempo de desenvolvimento, qualidade do software e gestão do ciclo de vida dos sistemas.
Adicionalmente, o FT4 exige que os métodos desenvolvidos sejam aplicáveis a outros setores de alta complexidade, nomeadamente o médico e o farmacêutico, onde os requisitos de software crítico de segurança são igualmente exigentes.
Quem pode candidatar-se
As condições de elegibilidade seguem as regras gerais do programa Chips JU (Apêndice 7 do Workprogramme), com base nas regras de participação do Horizonte Europa. O instrumento é do tipo HORIZON Action Grant Budget-Based (HORIZON-AG), num processo de submissão de fase única.
- Tipo de entidades: consórcios que reúnam fabricantes de automóveis (OEM), fornecedores de Tier 1 e Tier 2, empresas de software e IA, institutos de investigação e universidades.
- Cobertura setorial: o consórcio deve incluir competências nos três setores-alvo: automóvel (SDV), médico e digital/farmacêutico.
- Participação portuguesa: entidades portuguesas (INESC TEC, IST, Bosch Portugal, Critical Software, entre outros potenciais parceiros) são elegíveis como membros de consórcio.
- Partner search: o portal da Chips JU disponibiliza ferramentas de pesquisa de parceiros para consórcios em fase de formação.
SDV: a convergência entre automóvel e tecnologia
O veículo definido por software é frequentemente descrito como "um smartphone sobre rodas", mas esta analogia subestima a complexidade real. Um SDV moderno pode ter mais de 100 milhões de linhas de código, distribuídas por dezenas de domínios funcionais (propulsão, segurança, conforto, conectividade, condução autónoma), cada um com requisitos de tempo real, fiabilidade e certificação distintos.
A indústria automóvel europeia, liderada por OEMs como Volkswagen, BMW, Stellantis e Renault, enfrenta uma pressão crescente para acelerar os ciclos de desenvolvimento de software e reduzir custos de integração. A aplicação de IA generativa a tarefas como geração de código, teste automatizado, verificação formal e gestão de configurações representa uma vantagem competitiva de primeira ordem neste contexto.
Para Portugal, que alberga centros de I&D de vários destes grupos automóveis, bem como empresas de software crítico com experiência em setores regulados, este tópico representa uma oportunidade de posicionamento num domínio tecnológico de alto valor.
O que recomendamos
O FT4 da Chips JU é um tópico de nicho com competição internacional elevada. O facto de financiar um único projeto de €20M coloca esta call num patamar diferente dos tópicos RIA multi-projeto do Horizonte Europa: o consórcio vencedor deve ser o melhor da Europa nesta área específica, sem espaço para "bons mas não os melhores".
Para entidades portuguesas com competências em software crítico, IA e sistemas embarcados, a estratégia mais eficaz é integrar um consórcio liderado por um OEM ou fornecedor Tier 1 europeu com experiência em SDV. Assumir o papel de coordenador seria muito exigente para a maioria das entidades nacionais, mas a participação como parceiro especializado em IA, verificação formal ou domínios de aplicação alternativo (saúde, farmácia) é realista.
Com prazo a 4 de junho de 2026, o tempo para formação de consórcio é curto. Entidades interessadas devem contactar de imediato parceiros internacionais e verificar o portal Chips JU para identificar consórcios em formação que procurem parceiros portugueses.
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