Contexto

A peça central da aviação a hidrogénio

A FTA-07 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia o desenvolvimento e demonstração de um conceito inovador de tanque de hidrogénio líquido (LH2), leve e fiável, para integração em conceitos de aeronaves a hidrogénio. O tanque criogénico não é apenas mais um sistema entre tantos: numa aeronave a LH2, é o objeto que define a fuselagem, condiciona a arquitetura aerodinâmica e determina o balanço energético da plataforma.

A diferença entre uma aeronave a hidrogénio que voa e uma que não passa do papel resume-se em larga medida ao desempenho do tanque. Cada quilo de tanque é um quilo que não é hidrogénio e cada hora de dormência perdida é energia desperdiçada. Por isso a FTA-07 coloca metas de desempenho explícitas, raras nos templates de RIA do Horizon Europe, que funcionam mais como critérios de aprovação que como ambição declarativa.

Métricas obrigatórias

Os números que definem aprovação

TRL4
Maturidade tecnológica
≥40%
Índice gravimétrico (massa LH2 / massa tanque cheio)
≥12h
Dormência sem perda significativa

O índice gravimétrico de 40% é o limiar abaixo do qual a aviação a hidrogénio deixa de fechar contas. Tanques convencionais para LH2 em aplicações terrestres ou espaciais ficam tipicamente em valores inferiores; subir até 40% num tanque certificável para aviação comercial exige avanços em materiais (compósitos criogénicos, ligas metálicas leves), em arquitetura de isolamento (multi-layer insulation, vácuo) e em integração estrutural com a fuselagem.

A dormência de 12 horas é o tempo durante o qual o tanque mantém o LH2 sem perdas operacionalmente relevantes, sem necessidade de venting ou de ativação de sistemas auxiliares. Para uma aeronave que opera em rede de aeroportos com tempos de turnaround variáveis, a dormência define a flexibilidade operacional. Doze horas é o limiar mínimo que torna a operação compatível com escalas curtas e médias.

Resultado esperado

O que tem de ser entregue

  • Conceito de tanque LH2 leve e fiável, com design completo, justificação de materiais e arquitetura de isolamento.
  • Demonstração a TRL4 em terra, com ensaios criogénicos representativos e ensaios de estanqueidade em condições próximas das operacionais.
  • Validação dos requisitos quantitativos de índice gravimétrico ≥40% e dormência ≥12h.
  • Análise de segurança e fiabilidade compatível com o quadro futuro de certificação aeronáutica.

A FTA-07 fica em TRL4: ainda não voa, ainda não está integrada numa aeronave de demonstração. Quem voa, em programas posteriores, é o conceito que sair desta linha como demonstrador credível. As linhas HPA (Hydrogen Powered Aircraft) e a futura aeronave SMR a hidrogénio são as plataformas onde a tecnologia desenvolvida na FTA-07 pode ser integrada em ciclos seguintes, à medida que a maturação tecnológica avança.

Tipo de ação

Research and Innovation Action

A FTA-07 segue o regime de Research and Innovation Action (RIA) do Horizon Europe, com as regras específicas do Clean Aviation JU. O cofinanciamento atinge 100% dos custos elegíveis, incluindo entidades com fins lucrativos. A escolha de RIA, em detrimento de Innovation Action, reflete o estado de maturidade ainda recuado das tecnologias de tanques LH2 para aviação comercial: a investigação aplicada continua a ser componente significativa do trabalho.

O template de avaliação é o CAJU Fast Track Activities (FTA), específico para projetos de investigação tecnológica com horizonte de integração na arquitetura Clean Aviation. Os critérios formais são os de Annex D do Work Programme General Annexes, com calibração para o domínio aeroespacial.

Quem se candidata

Perfil de consórcio competitivo

A FTA-07 cruza várias áreas de competência industrial e científica. Um consórcio competitivo combina:

  • Empresas e PMEs em compósitos criogénicos, ligas metálicas leves, processos de fabrico aditivo ou enrolamento filamentar para vasos de pressão.
  • RTOs com competência em criogenia, isolamento térmico avançado e ensaios de hidrogénio líquido (CEA, DLR, Airbus Defence and Space, INTA, ONERA).
  • OEMs aeroespaciais com mandato de integração com fuselagem e arquitetura de aeronave a hidrogénio.
  • Universidades técnicas com competência em mecânica estrutural a temperaturas criogénicas, fadiga térmica ou modelação multi-físca.

Para empresas portuguesas, há janela credível em compósitos avançados, em fabrico de vasos de pressão para aplicações exigentes e em ensaios estruturais. Universidades nacionais com grupos de investigação em materiais avançados ou em mecânica estrutural podem participar como parceiros especializados. A liderança de uma FTA-07 do zero está fora do alcance neste timing, mas a participação em consórcios pré-existentes é viável para perfis bem posicionados.

Articulação com o resto da call

A FTA-07 na cadeia de hidrogénio

LinhaFocoTipo
FTA-07 (esta)Tanque de hidrogénio líquido leveRIA
HPA-01 a HPA-04Sistemas a hidrogénio (fuel cell, combustão, distribuição)IA
FTA-05Eletrónica de potência criocooled para fuel cellRIA
ACI-01Integração e avaliação de aeronaves H2IA
SMR-01 a SMR-03Aeronave SMR ultra-eficiente (referência integradora)IA

A FTA-07 alimenta diretamente as linhas HPA e a futura aeronave a hidrogénio. Consórcios competitivos têm visibilidade clara dos requisitos definidos pelas equipas HPA-02 (fuel cell) e HPA-04 (distribuição), porque o desenho do tanque depende das interfaces de extração e da arquitetura de gestão térmica. A coordenação com a linha ACI-01 (integração e avaliação) é também relevante, na medida em que o tanque define o envelope estrutural da aeronave.

Calendário

Janela apertada

A call abriu a 31 de março de 2026 e fecha a 19 de maio de 2026. Para uma RIA com componente experimental criogénica, materiais avançados e arquitetura estrutural integrada, este prazo é manifestamente curto para constituir consórcio do zero. Como em todas as calls do Clean Aviation JU, os consórcios competitivos já estão articulados antes da publicação formal e usam a janela aberta para finalizar documentação.

A Clean Aviation JU publicou duas releases do documento de Q&A (17 de fevereiro e 17 de abril de 2026). A segunda release contém clarificações sobre templates de submissão que devem ser revistas antes do envio.

Atenção
Os limiares quantitativos da FTA-07 (índice gravimétrico ≥40%, dormência ≥12h) são critérios de aprovação. Propostas que não os atinjam de forma demonstrável, ainda que tenham excelência científica, não passam o filtro. Empresas que candidatem devem ter claridade técnica sobre como atingir estes números antes de iniciar o consórcio.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A FTA-07 é uma das linhas mais estratégicas do CfP 04. Quem dominar a tecnologia de tanques criogénicos para aviação a partir de 2030 controlará uma das peças que define a viabilidade de aeronaves a hidrogénio. Os limiares quantitativos colocados pela call (40% gravimétrico, 12h dormência) sinalizam que a Comissão e o Clean Aviation JU não estão à procura de exploração tecnológica genérica, estão à procura de demonstradores que passem ou falhem em métricas específicas.

A nossa recomendação para empresas portuguesas: para PMEs com posição em compósitos criogénicos, em vasos de pressão de alta exigência ou em fabrico estrutural avançado, a FTA-07 é uma porta credível para entrada no ecossistema Clean Aviation europeu. Universidades nacionais com competência em materiais e em mecânica criogénica podem ser parceiros valiosos. Para investidores em deep tech, a FTA-07 é um indicador económico relevante: o capital europeu está a sinalizar que a aviação a hidrogénio só avança se o problema do tanque for resolvido e está disposto a financiar quem se aproximar da resolução. Esta é uma área de atenção para ciclos futuros de investimento privado em supply chain aeroespacial de hidrogénio.

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