Certificar contra o gelo é certificar contra a próxima geração
A linha TRA-01 da quarta call do Clean Aviation JU não financia uma tecnologia disruptiva nem uma plataforma nova. Financia algo aparentemente mais discreto, mas estruturante: a metodologia através da qual se vai certificar a entrada em serviço, em 2035, das próximas aeronaves europeias regionais e SMR (Short to Medium Range), em condições de gelo. O que está em jogo é a infraestrutura regulatória que torna possíveis as plataformas que sairão das outras linhas do CfP 04.
O foco é o Apêndice O da regulação aeronáutica internacional, que cobre as condições de Supercooled Large Droplets, ou SLD, formadas em determinadas configurações de nuvens estratiformes e que produzem acumulações de gelo qualitativamente distintas das condições do Apêndice C clássico. Para as aeronaves de nova geração, em particular as plataformas ultra-eficientes ou hibrido-elétricas com asas mais finas e geometrias menos tolerantes à acumulação de gelo, o método de demonstração de conformidade com o Apêndice O é um problema técnico aberto.
O que tem de ser entregue
- Validação de ferramentas numéricas de previsão de gelo contra resultados de testes representativos, em condições SLD.
- Means of Compliance harmonizado para certificação SLD nas plataformas SMR e regionais ultra-eficientes EIS 2035.
- Roadmap regulatório elaborado em colaboração estreita com a EASA e outras autoridades aeronáuticas, para suportar processos de certificação eficientes.
- Contribuição direta para a segurança aeronáutica via redução de incerteza certificatória das próximas plataformas em ambiente de gelo severo.
A particularidade da TRA-01 é que o resultado central não é um protótipo, mas uma combinação de ferramentas, dados experimentais e propostas regulatórias acordadas com a EASA. O critério de sucesso é regulatório antes de ser tecnológico: se os métodos validados são aceites como base para certificação, a TRA-01 cumpriu o seu papel.
Innovation Action com 12 milhões para um único grant
A TRA-01 é uma Innovation Action no regime budget-based do Clean Aviation JU, com contribuição máxima de 12 milhões de euros e um único grant esperado. As regras de cofinanciamento Horizon Europe aplicam-se: até 70% para entidades com fins lucrativos e até 100% para entidades sem fins lucrativos. A avaliação é feita com o template CAJU Large Scale Projects (IA Actions), o mesmo das HPA, embora a escala da TRA-01 seja consideravelmente mais contida que a das linhas de propulsão.
Os anexos financeiros mandatórios incluem o template detalhado disponibilizado a 20 de março de 2026, com Budget Summary, In-Kind Contributions e Cost Breakdown por work package. O CA JU Model Consortium Agreement é parte integral da proposta, bem como o contrato-tipo Clean Aviation com a EASA, que para a TRA-01 tem peso particular: a colaboração com a autoridade de certificação está no centro do mandato.
Perfil de consórcio competitivo
A TRA-01 mobiliza um ecossistema técnico bastante específico, mais estreito que o das linhas HPA ou SMR. Um consórcio competitivo combina:
- RTOs com instalações de teste de gelo de referência europeia: DLR, ONERA, NLR, TsAGI, CIRA, com túneis de gelo, capacidade de geração de SLD em ambiente controlado e histórico de programas de validação.
- OEMs aeronáuticos com plataformas SMR e regionais em desenvolvimento, com responsabilidade de certificação direta sobre EIS 2035.
- Especialistas em ferramentas numéricas CFD e simulação de impacto de gotas em superfícies aerodinâmicas, com produtos validados em ambientes industriais.
- PMEs em instrumentação meteorológica e em sensorização de gelo, com tecnologias para caracterização in-situ ou em laboratório das condições SLD.
- EASA enquanto parceiro estruturante, via contrato de prestação de serviços previsto pelo Clean Aviation JU.
Para empresas portuguesas, a entrada direta na TRA-01 é estruturalmente difícil. O ecossistema de túneis de gelo aeronáuticos europeus está concentrado em quatro ou cinco RTOs históricos e a cadeia de valor de ferramentas CFD validadas para condições SLD é dominada por equipas francesas, alemãs e neerlandesas. PMEs portuguesas com competências em CFD avançado, software de simulação multi-física ou instrumentação meteorológica especializada podem entrar como parceiros convidados, tipicamente em pacotes de validação ou de comparação inter-laboratorial.
A TRA-01 como camada regulatória do CfP 04
A TRA-01 é uma das poucas linhas do CfP 04 onde o produto principal é regulatório, não tecnológico. Articula-se diretamente com:
| Linha | Foco | Articulação com TRA-01 |
|---|---|---|
| SMR-01, SMR-02 | Aeronaves SMR ultra-eficientes | Plataformas alvo da certificação SLD |
| REG-01 | Aeronaves regionais ultra-eficientes | Plataformas alvo da certificação SLD |
| HPA-01 a HPA-04 | Hidrogénio (motor, fuel, distribuição) | Configurações que herdarão as metodologias |
| FTA-04, FTA-07 | Tecnologias térmicas e de superfície | Sistemas de proteção contra gelo a montante |
| ACI-01 | Avaliação integrada de impacto | Cenários de operação e benefícios climáticos |
O resultado da TRA-01 é input direto para a certificação das plataformas das linhas SMR e REG. Por isso, embora o consórcio TRA-01 seja distinto dos consórcios das plataformas, a coordenação técnica é estreita. A EASA é parceira em ambos os contextos.
Janela de submissão
A call abriu para submissão eletrónica a 3 de abril de 2026 e fecha a 19 de maio de 2026. A primeira release de Q&A foi publicada a 17 de fevereiro e a segunda release a 17 de abril de 2026, com atenção particular para informação sobre templates atualizada nas páginas 2, 4 e 13. Os templates financeiros mandatórios estão disponíveis desde 20 de março de 2026.
Como em todas as linhas do CfP 04, três meses de janela de submissão eletrónica são manifestamente insuficientes para constituir um consórcio do zero, particularmente quando a dependência de instalações de teste de gelo limita o universo de potenciais coordenadores a um pequeno conjunto de RTOs. As equipas que vão submeter já trabalham na proposta há vários meses, em diálogo com a EASA.
Empresas portuguesas que se devem posicionar
- Empresas e RTOs com competência em CFD avançado aplicado a impacto de gotas, deposição de gelo e modelação de fluxos multifase.
- PMEs em instrumentação meteorológica e sensorização de gelo, com produtos para caracterização SLD em laboratório ou em voo.
- Universidades portuguesas com grupos em mecânica de fluidos computacional e em aeroelasticidade aplicada a condições de gelo.
- PMEs em software de simulação multi-física com tração internacional e validação industrial.
O que recomendamos
A TRA-01 é uma daquelas linhas em que o impacto estratégico é desproporcional ao seu orçamento. Doze milhões de euros são pouco no contexto do Clean Aviation, mas o produto da linha condiciona a certificação de plataformas que valem dezenas de mil milhões em mercado futuro. Para empresas portuguesas com competência em CFD ou em instrumentação meteorológica, a TRA-01 é um ponto de leitura importante: indica em que mãos europeias estão os métodos que vão definir a certificação aeronáutica de próxima geração.
A nossa recomendação é dupla. Para entidades com ativos relevantes (CFD validado, instrumentação SLD, capacidade de testes complementares), abrir contacto direto com os RTOs líderes europeus para mapear oportunidades de subcontratação ou de entrada como parceiro convidado em ciclos futuros. Para investidores, observar que segmentos de software de simulação aeronáutica (CFD multi-física, sensorização para certificação) estão a consolidar valor estratégico de longo prazo na cadeia europeia.
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