A nova espinha dorsal eletrónica da aeronave SMR
A linha SMR-01 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia uma das peças menos visíveis e mais determinantes da próxima geração de aeronaves de curto e médio raio: a plataforma integrada de sistemas. Trata-se da espinha dorsal eletrónica que combina três arquiteturas até hoje historicamente separadas: a arquitetura de computação de alta performance (HPC) da aviónica, a arquitetura de distribuição elétrica de potência da aeronave e a arquitetura de dados e comunicações de bordo. Numa aeronave SMR convencional, estas três camadas têm caminhos distintos, redundâncias separadas e interfaces que limitam funcionalidade. Numa aeronave ultra-eficiente, têm de ser desenhadas como uma plataforma única, certificável e segura, capaz de suportar funções emergentes que a aviação convencional não usa.
A consequência prática é que esta plataforma deixa de ser um conjunto de subsistemas para passar a ser um produto coerente. O controlo ativo (load alleviation, gust suppression, flutter mitigation), a hibridização energética (gestão de fluxos entre baterias, fuel cells e propulsão), a manutenção preditiva (sensorização ubíqua + analítica em tempo real) e a integração com sistemas externos (Single European Sky, U-Space) passam a depender da maturidade desta plataforma. A SMR-01 financia a demonstração desta camada, com horizonte de entrada em serviço da próxima geração SMR em 2035 (EIS 2035).
O que tem de ser demonstrado
- Plataforma unificada e certificável que integre HPC, arquiteturas de potência elétrica e arquiteturas de dados num conjunto coerente, com gestão centralizada de fiabilidade, segurança e cibersegurança.
- Suporte de funções avançadas, nomeadamente controlo ativo da aeronave, hibridização energética e manutenção preditiva, com demonstração de viabilidade em ambiente representativo.
- Demonstração em terra a TRL6, validando desempenho funcional, comportamento sob falha, segurança e robustez ciber em condições próximas das de operação.
- Trajetórias claras para CRL4 (Certification Readiness Level) e para maturação até integração na aeronave da próxima geração SMR EIS 2035.
Innovation Action de grande escala
A SMR-01 segue o template Innovation Action (IA) do Horizon Europe, no regime específico do Clean Aviation JU para projetos de grande escala (Large Scale Projects). O cofinanciamento é de até 70% para entidades com fins lucrativos e até 100% para entidades sem fins lucrativos. Esta diferença é estrutural: as grandes OEMs aeronáuticas, fornecedores tier-1 de aviónica e integradores de sistemas entram com cofinanciamento privado significativo, enquanto RTOs e universidades operam em regime de financiamento elevado. O orçamento total mobilizado nesta linha é, na prática, várias vezes superior ao financiamento público formal.
A Clean Aviation JU usa o Evaluation Form CAJU Large Scale Projects (IA Actions). A SMR-01 está sujeita ao anexo financeiro mandatório adicional, introduzido a 20 de março de 2026, sob a forma de folha de cálculo com Budget Summary, In-Kind Contributions e Cost Breakdown. O nível de detalhe orçamental exigido é compatível com a escala da operação.
Perfil de consórcio competitivo
A SMR-01 mobiliza um perfil de consórcio diferente das outras linhas SMR (que são predominantemente estruturais ou propulsivas). O consórcio competitivo combina:
- OEMs aeroespaciais ou tier-1 de aviónica (Thales, Leonardo, Collins Aerospace, Honeywell, Safran Electronics & Defense), responsáveis pela arquitetura global e pela integração na aeronave de referência.
- Especialistas em arquiteturas de computação de alta performance certificáveis (HPC para aviação, com sistemas operativos certificados DO-178C e hardware DO-254), incluindo fornecedores europeus de processadores aeroespaciais e de soluções de virtualização certificáveis.
- Fornecedores de eletrónica de potência avançada (conversores, distribuidores inteligentes, proteção elétrica) capazes de gerir as arquiteturas elétricas mais densas exigidas pela aeronave ultra-eficiente.
- Especialistas em cibersegurança aeroespacial, em redes de bordo de alta capacidade (AFDX, TSN, fibra ótica) e em técnicas formais de verificação para certificação de software crítico.
- RTOs e universidades (DLR, ONERA, NLR, FhG, INRIA), com grupos em sistemas embarcados, controlo, cibersegurança, fiabilidade e arquiteturas distribuídas.
- PMEs com tecnologias diferenciadoras em sensorização avançada, analítica embarcada, software embebido, ferramentas de model-based engineering ou cibersegurança especializada.
Para empresas portuguesas, esta é uma das linhas Clean Aviation com perfil mais favorável. O ecossistema português tem competência demonstrada em software embebido, cibersegurança, sistemas embarcados, computação de alta performance e analítica de dados, áreas em que vários grupos universitários e PMEs nacionais estão estabelecidos. PMEs com produtos em ciber industrial, engenharia de software certificável ou sensorização para sistemas críticos podem entrar como parceiros tecnológicos relevantes em consórcios liderados por OEMs ou tier-1 de aviónica.
A SMR-01 dentro do CfP 04
| Linha | Foco | Tipo de ação |
|---|---|---|
| SMR-01 (esta) | Plataforma de sistemas otimizada | IA |
| SMR-02 | Fuselagem traseira e empennagem | IA |
| SMR-03 | Outros componentes SMR | IA |
| REG-01 | Aeronave regional ultra-eficiente integrada | IA |
| HPA-01 a HPA-04 | Hidrogénio (fuel cell, combustão, distribuição) | IA |
| FTA-01 a FTA-07 | Tecnologias de subsistemas | RIA |
A SMR-01 é a coluna vertebral conceptual das outras linhas SMR e REG, porque é nela que se decide como os subsistemas estruturais, propulsivos e de aviónica se integram numa plataforma coerente. Os consórcios competitivos para a SMR-01 estão tipicamente em diálogo permanente com as equipas SMR-02, REG-01 e com as linhas HPA, sob coordenação informal das grandes OEMs europeias que lideram o roadmap EIS 2035.
Janela apertada
A call publicada a 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma IA de grande escala com TRL6 e demonstração integrada de plataforma de sistemas, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. Os consórcios competitivos para a SMR-01 já estão constituídos, com origens em programas anteriores Clean Sky 2 e SESAR. A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026). Os templates financeiros tornaram-se disponíveis a 20 de março de 2026 e a sessão de submissão abriu a 3 de abril de 2026.
O que recomendamos
A SMR-01 é a porta de entrada mais natural para o ecossistema português no roadmap Clean Aviation, porque é a linha onde competências em software, cibersegurança, computação certificável e sistemas embarcados pesam mais que competências estruturais ou de propulsão. Para empresas portuguesas com produtos nestas áreas, a leitura útil desta call é dupla: por um lado, mapear o ecossistema europeu de aviónica e plataformas de sistemas para identificar parceiros e gaps; por outro, preparar candidaturas para próximos ciclos do programa, ou para programas nacionais articulados (PRR, Agendas Mobilizadoras Aeroespaciais), enquanto se constrói histórico colaborativo com OEMs e tier-1 europeus.
A nossa recomendação para empresas portuguesas: usar este ciclo como mapeamento estratégico, com construção paralela de relações via redes europeias de aviónica e sistemas críticos. Para investidores em deep tech em sistemas embarcados, cibersegurança industrial, software certificável e analítica para infra-estrutura crítica, a SMR-01 sinaliza onde está o capital europeu de longo prazo e que verticais (HPC certificável, cibersegurança aeroespacial, plataformas integradas para mobilidade) merecem atenção em ciclos futuros de investimento privado.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]