Contexto

Por que supercondutores em motores aeronáuticos

A linha FTA-06 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia uma das tecnologias mais transformadoras do roadmap de propulsão elétrica: enrolamentos supercondutores para motores de corrente alterna. A propulsão elétrica de aeronaves comerciais embate sempre numa equação simples e brutal: a densidade de potência (kW por kg) dos motores convencionais não chega para substituir os turbofans. Cada quilo gasto em motor é alcance ou carga útil perdida e a fração de cobre necessária para mover dezenas de megawatt em motores síncronos convencionais é, hoje, incompatível com a eficiência exigida por uma aeronave fuel cell H2 verdadeiramente competitiva.

Os supercondutores resolvem esta equação por uma propriedade fundamental: à temperatura criogénica adequada, transportam corrente sem perdas resistivas. Isto permite densidades de corrente uma ordem de grandeza superiores ao cobre, com perdas joule reduzidas a praticamente zero. O resultado é um motor com densidade de potência radicalmente superior, mais compacto e com perdas térmicas comportáveis no envelope da aeronave. Numa plataforma fuel cell H2, em que já existe a bordo hidrogénio líquido a 20 K para alimentação das células de combustível, o aproveitamento dessa cadeia criogénica para arrefecer enrolamentos supercondutores é um sinergismo natural.

Resultado esperado

O que tem de ser demonstrado

  • Demonstração de enrolamento supercondutor de motor AC a TRL5, ou seja, validação em ambiente representativo, próximo do ambiente final de operação no motor de propulsão fuel cell.
  • Comprovação de fiabilidade e desempenho em regime AC (corrente alterna), que apresenta desafios distintos dos enrolamentos DC dominantes na investigação supercondutora aplicada (perdas em AC, transientes, gestão térmica).
  • Caminho para sistemas de propulsão elétrica criogénica mais eficientes, compactos e escaláveis, ou seja, com aplicabilidade real em arquiteturas de aeronave fuel cell e não apenas em demonstradores de laboratório.
Tipo de ação

Research and Innovation Action

A FTA-06 segue o template Research and Innovation Action (RIA) do Horizon Europe, no regime específico do Clean Aviation JU. O cofinanciamento atinge até 100% dos custos elegíveis, incluindo entidades com fins lucrativos. Esta diferença face às Innovation Actions clássicas reflete o estado de maturidade tecnológica: os enrolamentos supercondutores AC para aviação estão claramente na fronteira da investigação aplicada, com componente significativa de desenvolvimento de materiais, técnicas de bobinagem, encapsulamento criogénico e instrumentação.

A Clean Aviation JU usa o Evaluation Form CAJU Fast Track Activities (FTA), específico para projetos RIA do programa. Os critérios formais são os do Annex D do Work Programme General Annexes, calibrados para projetos com forte componente de investigação tecnológica e horizonte de integração industrial.

Quem se candidata

Perfil de consórcio competitivo

A FTA-06 mobiliza uma comunidade técnica relativamente concentrada. Para o consórcio competitivo, devem combinar-se:

  • RTOs e grupos universitários com competência em supercondutividade aplicada (CEA, KIT, ENEA, Cambridge, TU Delft, IIT Genova, INESC), com infraestruturas para caracterização de fitas supercondutoras e ensaios em criogenia.
  • Fabricantes de fitas supercondutoras de alta temperatura (HTS) ou de fios de baixa temperatura (LTS), na sua maioria europeus ou japoneses, capazes de fornecer material certificável para aplicações aeronáuticas.
  • Especialistas em motores elétricos de alta densidade de potência (Rolls-Royce, Safran, Honeywell, MTU e respetivos parceiros tier-1), com mandato de integração no roadmap fuel cell H2.
  • PMEs e startups especializadas em encapsulamento criogénico, instrumentação magnética, técnicas de winding ou software de simulação eletromagnética e térmica acoplada.

Para empresas e universidades portuguesas, a entrada típica na FTA-06 é por consórcios mistos liderados por grupos europeus com histórico em supercondutividade aplicada. Universidades portuguesas com competência em eletromagnetismo aplicado, materiais cerâmicos avançados ou simulação multifísica podem entrar como parceiros de investigação. PMEs portuguesas com produtos em sensorização, instrumentação ou subcomponentes especializados podem entrar como fornecedores específicos. A entrada como líder não é realista no horizonte desta call.

Articulação com o resto da call

A FTA-06 dentro do CfP 04

LinhaFocoTipo de ação
FTA-01Ice Protection System de baixa potênciaRIA
FTA-02Otimização acústica de cabineRIA
FTA-06 (esta)Enrolamentos supercondutores ACRIA
HPA-01Techno-bricks de propulsão fuel cellIA
HPA-02Sistema integrado combustível H2IA
SMR-01, SMR-02Aeronaves SMR ultra-eficientesIA

A FTA-06 articula-se diretamente com a HPA-01 (techno-bricks de propulsão fuel cell), porque os enrolamentos supercondutores são uma das tecnologias-chave dos motores de propulsão elétrica que essa linha pretende demonstrar. Existe igualmente articulação com a HPA-02 (sistema integrado de combustível H2), porque a cadeia criogénica de hidrogénio líquido pode partilhar arquitetura com a cadeia criogénica de arrefecimento dos enrolamentos supercondutores. Os consórcios competitivos para a FTA-06 estão tipicamente em diálogo com as equipas HPA.

Calendário

Janela apertada

A call publicada a 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma RIA com componente experimental significativa em supercondutividade aplicada e ensaios criogénicos, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. Os consórcios competitivos para a FTA-06 já estão constituídos, beneficiando de programas anteriores Horizon e Clean Aviation e usam o período da call para finalizar documentação. A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026). Os templates de submissão tornaram-se disponíveis em finais de março de 2026 e a sessão de submissão abriu a 3 de abril de 2026.

Atenção
A supercondutividade aplicada a motores AC para aviação é uma comunidade científica concentrada. Não há, para esta linha específica, um pool europeu vasto de consórcios alternativos: as candidaturas competitivas tendem a vir das mesmas redes que vêm a trabalhar o tema desde o Horizon 2020. Para entidades portuguesas sem histórico nesta comunidade, a candidatura competitiva nesta call passa por entrar como parceiro especializado, não por liderar.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A FTA-06 é uma das calls do CfP 04 onde a fronteira tecnológica está mais alta e onde o ecossistema europeu é mais concentrado. Para empresas portuguesas com competência em eletromagnetismo aplicado, simulação multifísica, instrumentação magnética ou subcomponentes criogénicos, a leitura útil desta call é menos a candidatura imediata e mais o mapeamento estratégico do ecossistema europeu de supercondutividade aplicada. Identificar quem lidera, perceber os roadmaps técnicos e construir relação com grupos universitários estabelecidos são passos preparatórios para entrar em ciclos futuros do programa.

A nossa recomendação para empresas e universidades portuguesas: aproveitar este ciclo para construir ligações com o ecossistema europeu de supercondutividade aplicada à aviação e em paralelo explorar instrumentos nacionais (Agendas Mobilizadoras, projetos PRR de hidrogénio e mobilidade) que possam financiar capacidade interna em áreas adjacentes. Para investidores em deep tech criogénica e propulsão elétrica, a FTA-06 sinaliza onde está o capital europeu de longo prazo: motores supercondutores, instrumentação criogénica para sistemas elétricos de potência, simulação acoplada eletromagnética/térmica, materiais HTS para aplicações móveis. São verticais com horizonte longo e intensivos em capital, mas com janela tecnológica que pode definir liderança industrial europeia em propulsão elétrica de elevada densidade.

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