Contexto

A descarbonização marítima e a aposta SOFC

O transporte marítimo é responsável por cerca de 3% das emissões globais de CO2 e enfrenta desde 2024 a pressão regulatória crescente do Fit for 55, do regime ETS para shipping e do FuelEU Maritime. A indústria europeia tem várias rotas tecnológicas em estudo: amoníaco verde, metanol, hidrogénio comprimido, hidrogénio líquido. O denominador comum é a flexibilidade de combustível: nenhum porto europeu tem hoje, simultaneamente, infraestrutura de bunker para todas as opções e nenhum armador quer comprometer um navio com 25 anos de vida útil a um único combustível alternativo.

As células de combustível de óxido sólido (SOFC) têm aqui uma vantagem estrutural sobre as PEM: operam a alta temperatura, o que lhes permite consumir vários combustíveis (hidrogénio, amoníaco, metanol, gás natural, biogás, gases sintéticos) com adaptação mínima do sistema. O tópico HORIZON-JU-CLEANH2-2026-03-04 da Clean Hydrogen JU dirige-se exatamente a esta promessa: desenvolver um sistema SOFC de pelo menos 100 kW, com capacidade multi-combustível, robusto a um ambiente marítimo, com inclinações de até 22,5 graus, vibração contínua e exposição a névoa salina.

Âmbito técnico

O que tem de ser desenvolvido e demonstrado

  • Sistema SOFC de mínimo 100 kW: não é um stack de bancada, é um powertrain integrado em escala suficientemente representativa para validar a tese técnica em embarcações reais.
  • Operação multi-combustível: capacidade de conversão direta de combustíveis neutros em carbono (hidrogénio, amoníaco, e-metanol, gases sintéticos), sem a complexidade dos pré-processadores que limitam as opções PEM.
  • Robustez marítima: operação sob inclinação até ±22,5 graus, vibração contínua, exposição a névoa salina e humidade reduzida controlada.
  • Mínimo 1.000 horas de teste em condições marítimas simuladas: a maturidade alvo é validada num programa de durabilidade não trivial.
  • Estudo de viabilidade para escalas MW: os 100 kW são plataforma de aprendizagem; o roteiro tem de mostrar como se chega a sistemas multi-MW.
  • Avaliações de sustentabilidade via LCA e LCC: os entregáveis incluem análise de ciclo de vida e de custo de ciclo de vida, completando a tese económica.
Métricas técnicas

Os parâmetros que delimitam a candidatura

100kW+
Potência mínima do sistema SOFC
±22,5°
Inclinação operacional alvo
1.000h
Mínimo de teste em condições marítimas
4 → 6
Trajetória de TRL durante o projeto
Por que SOFC, não PEM
As células PEM operam a baixa temperatura (50-90 graus Celsius) e exigem hidrogénio puro, com pré-processador para qualquer outro combustível. As SOFC operam a 600-1000 graus Celsius, o que lhes permite reformar internamente amoníaco, metanol ou gás natural sem subsistema externo. Para um navio que pode abastecer em portos com infraestrutura diferente, esta flexibilidade vale mais do que a eficiência marginal mais alta das PEM. É esta tese estrutural que o tópico financia.

Configuração do call

RIA, lump sum, um projeto financiado

ParâmetroValor
Contribuição máxima da UE8.000.000 EUR
Projetos esperados financiados1
Pool total da call 2026105.000.000 EUR
ModalidadeHORIZON-JU-RIA, Lump Sum
TRL inicial / final4 / 6
Potência mínima do sistema100 kW
Propostas recebidas8
Resultados de avaliaçãoagosto de 2026
Elegibilidade

Quem pode participar

As regras gerais de elegibilidade do Horizonte Europa aplicam-se. Pelo menos um parceiro do consórcio tem de ser membro da Hydrogen Europe ou Hydrogen Europe Research. Subcontratação tem de ocorrer em Estados-Membros da UE ou Países Associados. Custos capitalizados integrais são permitidos para equipamento adquirido especificamente para o projeto e custos adicionais de equipamento e serviços que excedam 15% dos custos de pessoal exigem justificação.

  • Fabricantes de células SOFC e fornecedores de stacks com escala europeia (Topsoe, Bloom Energy, Convion, Sunfire, FuelCell Energy, AVL).
  • Estaleiros e operadores marítimos europeus com plataformas de teste ou navios disponíveis para integração futura.
  • Centros de investigação especializados em sistemas energéticos navais e em durabilidade de materiais cerâmicos.
  • Universidades técnicas com competência em modelação termodinâmica, ensaio de stacks e análise de degradação.
  • Sociedades de classificação (Bureau Veritas, DNV, Lloyd's Register) dispostas a acompanhar o desenvolvimento e contribuir para o quadro de certificação.
Despesas elegíveis

O perímetro técnico do projeto

  • Design e fabrico de sistema SOFC adaptado a condições marítimas, com mínimo 100 kW.
  • Programa de testes de durabilidade em corrosão, humidade reduzida e exposição a névoa salina.
  • Testes em condições simuladas marítimas durante pelo menos 1.000 horas operacionais.
  • Estudo de viabilidade técnica e económica para sistemas escaláveis em MW.
  • Avaliações de sustentabilidade via Life Cycle Assessment e Life Cycle Cost.
  • Custos capitalizados integrais para equipamento e infraestrutura de teste adquiridos para o projeto.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

À data deste artigo, o tópico está fechado, com oito propostas em avaliação para um único slot financiável. É uma das taxas de competição mais altas da call 2026, sinal de que o nicho técnico, SOFC marítimo multi-combustível, mobiliza vários consórcios europeus já estruturados em redor de fabricantes nórdicos e alemães. O resultado é esperado para agosto de 2026.

Para Portugal, este tópico tem dois ângulos relevantes. O primeiro é industrial: o cluster naval do Norte (West Sea, Atlantic Eagle, ENVC) e o complexo portuário de Sines têm ambições no segmento de descarbonização marítima, mas falta-lhes presença em consórcios de SOFC propriamente ditos. A entrada faz-se mais facilmente como parceiro de demonstração, oferecendo plataforma de teste em estaleiro ou em navio de apoio costeiro, do que como fabricante de células. O segundo ângulo é académico: o Instituto Superior Técnico, a FEUP e o LNEG têm competência relevante em materiais cerâmicos e em sistemas de energia marítima e podem juntar-se a consórcios europeus como work package leaders em durabilidade ou em LCA.

A leitura prospetiva é que o segmento marítimo de hidrogénio entra em 2027 numa fase mais quente. A regulamentação FuelEU Maritime começa a morder em 2025, o regime ETS para shipping tem o seu primeiro impacto financeiro em 2026 e o IMO 2050 estabelece a trajetória de descarbonização total. Quem não estiver posicionado em projetos europeus de SOFC ou amoníaco até 2027 dificilmente entra na próxima vaga de financiamento, que será orientada para demonstradores de TRL 7 a 8 em navios reais. Para o ecossistema português, a janela curta de entrada são os calls de TRL 4 a 6 que ainda decorrem em 2026 e 2027.

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