Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-MISS-2027-02-CANCER-01

A oncologia de precisão dos últimos quinze anos transformou a forma como se trata cancro, mas a heterogeneidade temporal dos tumores continua a ser uma barreira fundamental. Um tumor que responde inicialmente a uma terapia adaptativa quase sempre desenvolve resistência por mecanismos que ainda não estão bem compreendidos. E nos cancros pediátricos, raros e com baixa sobrevida aos cinco anos, a falta de alvos terapêuticos validados deixa os doentes com poucas opções clínicas.

O tópico HORIZON-MISS-2027-02-CANCER-01 inscreve-se na Missão Cancer e financia precisamente este ponto: gerar conhecimento funcional sobre o comportamento dos tumores em fase de iniciação e progressão, com vista à identificação de alvos mais precisos para terapias de nova geração informadas por genómica. Foco prioritário em cancros pediátricos e de adolescentes (até aos 19 anos), cancros com poucas opções terapêuticas, cancros refratários, cancros raros e tipos com baixa taxa de sobrevida aos cinco anos.

O instrumento financia investigação aplicada de natureza translacional. Não é um aviso para ensaios clínicos avançados, esses estão noutros tópicos da Missão Cancer. É um instrumento para a fase a montante: a biologia molecular, a deteção de vulnerabilidades terapêuticas, a construção de modelos experimentais que permitam testar hipóteses farmacológicas antes do ensaio clínico e a integração dos dados na plataforma europeia UNCAN.eu.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Pela natureza translacional e pela exigência explícita de envolver dados clínicos, biobancos e infraestruturas de saúde, este tópico cruza investigação fundamental aplicada com uso intensivo de dados clínicos multimodais. A combinação posiciona-o como instrumento clássico de I&D em ciências da vida, com vertente forte de processamento e gestão de dados de saúde.

  • I&D e ciência: o tópico financia a identificação e validação de novos alvos terapêuticos através de genómica funcional, single-cell, spatial transcriptomics, epigenetic profiling, liquid biopsies e functional precision oncology pipelines. Inclui o desenvolvimento de modelos experimentais (in silico, in vitro, in vivo, ex vivo) que reproduzam a heterogeneidade temporal do tumor e a investigação dos mecanismos de resistência adaptativa às terapias.
  • Digitalização e IA: as candidaturas competitivas integram causal inference, modelação computacional e ferramentas de inteligência artificial para recolher, visualizar, analisar e gerir datasets clínicos longitudinais multimodais. Os datasets têm de ficar interoperáveis na European Health Data Space e disponíveis na plataforma UNCAN.eu, com metadados FAIR e governança alinhada com o projeto UNCAN-CONNECT.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

A Comissão Europeia define três atividades obrigatórias que cada proposta tem de endereçar. A ausência clara de qualquer uma compromete a admissibilidade técnica e a pontuação no critério Excelência.

  • Identificar e validar novos alvos terapêuticos: desenvolver modelos experimentais e tecnologias que permitam aceder aos efeitos funcionais da heterogeneidade temporal do tumor sobre a iniciação, progressão e recidiva. O termo-chave é heterogeneidade temporal, distinguir como o tumor evolui ao longo do tempo, não apenas como se apresenta num único momento.
  • Investigar mecanismos de resistência adaptativa: elucidar a interação entre as características multi-omics dinâmicas do tumor, o seu microambiente e fatores específicos do doente (background genético, estado imunitário, idade, sexo, comorbilidades) durante iniciação e progressão. O foco em resistência adaptativa às terapias é diferenciador do tópico.
  • Integrar dados longitudinais FAIR na UNCAN.eu: aplicar ferramentas state-of-the-art para integrar e analisar dados multimodais longitudinais, descritos com metadados na European Health Data Space e tornar os datasets e ferramentas disponíveis na plataforma UNCAN.eu em construção. O envolvimento das ESFRI life science research infrastructures, incluindo biobancos, tem de ficar refletido no workplan.
Articulação com iniciativas de larga escala
As candidaturas competitivas integram explicitamente dados e experiência de iniciativas como a European 1M+ Genomes Initiative e a European Cancer Imaging Initiative e estabelecem colaboração formal com o projeto UNCAN-CONNECT, que está a implementar a plataforma UNCAN.eu. Não tirar partido destas iniciativas existentes é geralmente penalizado, porque o tópico é desenhado para multiplicar valor sobre infraestrutura europeia já investida.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

O tópico segue o formato Research and Innovation Action do Horizonte Europa, com regras gerais aplicáveis à participação na Missão Cancer. O modelo financeiro segue grant tradicional, distinguindo-se de outros tópicos da mesma call que operam em formato lump sum. A dotação específica e o número de projetos a financiar são definidos no aviso formal a publicar pela Comissão Europeia em alinhamento com o Work Programme 2026-2027 das Missões.

Parâmetro Valor
ProgramaHorizonte Europa - Pilar II - Missões
MissãoCancer Mission
CallHORIZON-MISS-2027-02
Tipo de açãoRIA - Research and Innovation Action
Modelo financeiroGrant tradicional (não lump sum)
População alvoCancros pediátricos, raros, refratários e de baixa sobrevida
Fase do ciclo I&DTranslacional - identificação e validação pré-clínica de alvos
Cluster pós-grant"Understanding" cluster da Cancer Mission
Conformidade dadosUNCAN.eu, European Health Data Space, FAIR
Limiar de avaliação4/4/4 (cumulativo 12)
Deadline indicativo21 de setembro de 2027
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa para tópicos da Missão Cancer. São elegíveis pessoas coletivas de Estados-Membros e Países Associados ao Horizonte Europa. A natureza multidisciplinar do tópico é explícita: as propostas devem incluir um conjunto adequado de stakeholders de várias disciplinas e sectores, incluindo médicos, especialistas em health-IT, investigadores, especialistas em IA, fornecedores de soluções, academia, instituições de investigação, infraestruturas de investigação europeias e PME.

Composição típica de consórcio competitivo
Vários centros oncológicos europeus de referência com capacidade em oncologia molecular e biobanking; institutos de investigação com produção forte em genómica funcional, single-cell e spatial omics; grupo de bioinformática especializado em integração de dados multi-omics e em modelação causal; equipa de inteligência artificial aplicada a dados clínicos longitudinais; PME ou spin-out com tecnologia diferenciadora em precision oncology; ESFRI life science research infrastructure (BBMRI, EATRIS, ELIXIR ou ECRIN) como parceiro associado; participação alinhada com o projeto UNCAN-CONNECT.
Posicionamento Português

Oportunidade para oncologia e ciências da vida nacional

Portugal tem ativos relevantes para participar nesta call, em particular através do i3S, do IMM, do Champalimaud, do CNC.IBILI, do iBiMED, dos IPO de Lisboa, Porto e Coimbra e do CIBB. Vários destes centros têm produção científica em genómica funcional, single-cell e spatial transcriptomics e bancos de amostras clínicas pediátricas ou de cancros raros que podem alimentar pipelines de validação. A componente de inteligência artificial aplicada a saúde tem crescido em centros como o INESC TEC, IST e LASIGE.

Para empresas portuguesas em biotecnologia oncológica com plataformas tecnológicas relevantes, em particular em sequenciação, single-cell, organoides ou imagiologia digital, este tópico oferece janela para entrar em consórcios europeus competitivos. Para os IPO e centros oncológicos hospitalares, a participação como parceiros permite reforçar capacidade em oncologia molecular e dar contributo de cohortes clínicas anotadas de cancros raros ou pediátricos, segmento onde a casuística nacional pode ter valor diferenciador.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Tópicos da Missão Cancer com componente de descoberta de alvos terapêuticos são extremamente competitivos. As propostas vencedoras combinam quatro elementos. Primeiro, uma hipótese biológica clara e fundamentada, com identificação prévia de candidatos a alvo ou de uma lógica funcional consistente, não apenas exploração genérica. Segundo, acesso comprovado a cohortes de doentes com cancros raros ou pediátricos, com amostras anotadas e biobanking estruturado. Terceiro, capacidade técnica em pelo menos duas das tecnologias funcionais avançadas mencionadas pelo tópico, idealmente uma estabelecida (single-cell ou spatial transcriptomics) e outra emergente. Quarto, integração tecnicamente credível com a plataforma UNCAN.eu e capacidade de processar dados multimodais ao nível exigido pela European Health Data Space.

A fragilidade mais comum em propostas neste tópico é subestimar o esforço de governance de dados, ética e interoperabilidade. A Comissão Europeia avalia com rigor o plano de gestão de dados, a sua disponibilização FAIR e a articulação com infraestruturas europeias de saúde. Investigadores acostumados a um modelo de proposta clássico, com governança de dados como anexo, tendem a perder pontos no critério Impact. As candidaturas competitivas tratam a dimensão de dados como pilar técnico, não como secção administrativa.

Outro ponto frequentemente subestimado é a articulação com o cluster "Understanding" da Cancer Mission. O tópico exige explicitamente que projetos vencedores integrem este cluster, com orçamento dedicado a networking e atividades conjuntas. Propostas que não orçamentam adequadamente este envolvimento, ou que não demonstram alinhamento estratégico com outros projetos do cluster, perdem pontuação. Para investigadores, IPO, biotechs e centros oncológicos portugueses interessados em explorar este tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: identificação da hipótese funcional e dos cancros-alvo concretos, mapeamento de centros parceiros europeus complementares com pacote tecnológico adequado e desenho do plano de governance de dados e da articulação com a UNCAN.eu.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]