Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-MISS-2027-02-CANCER-03

Cerca de um quarto de todos os cancros são raros e a sua heterogeneidade clínica e biológica desafia o modelo tradicional de desenvolvimento de medicamentos. Os doentes apresentam-se frequentemente em fase avançada por demora no diagnóstico, têm poucas opções terapêuticas e enfrentam uma fila estreita de ensaios clínicos fase 1 onde poderiam ter acesso a medicamentos guiados por biomarcadores ou a intervenções multi-modais ajustadas à sua doença. A taxa de sobrevivência aos 5 anos é geralmente inferior à dos cancros mais comuns.

O tópico HORIZON-MISS-2027-02-CANCER-03 inscreve-se na Missão Cancer e financia precisamente o ponto crítico da pipeline de oncologia de precisão para cancros raros: a validação inicial de segurança e eficácia em ensaios clínicos fase 1, incluindo first-in-human, em medicamentos com lógica de biomarcador ou em intervenções multi-modais. Inclui ainda finalização da validação pré-clínica quando ainda relevante, com modelos in vivo, ex vivo ou in silico e contempla repurposing de medicamentos existentes.

A ambição vai além do ensaio. Os doentes raros tratados beneficiam diretamente do acesso a opções terapêuticas, mas o tópico exige também que os doentes mantenham acesso aos medicamentos via ensaios subsequentes ou via programas nacionais ou regionais de uso compassivo. Investigadores, clínicos, startups, spin-offs, spin-outs, PME, charities e fundações recebem evidência inicial validada para validação posterior ou comercialização. Sistemas de saúde recebem evidência precoce para decidir se vale a pena prosseguir testes alargados em medicamentos cost-effective para cancros raros.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A natureza translacional do tópico, com saída esperada em ensaios fase 1 conduzidos em vários centros europeus, com endpoints clínicos primários, secundários e patient-reported outcomes, posiciona-o claramente como instrumento de I&D em ciência aplicada à oncologia de precisão. Não financia investigação fundamental nem desenvolvimento industrial pós-aprovação, financia o passo intermédio em que biologia molecular e farmacologia se transformam em ensaio clínico viável.

  • I&D e ciência: o tópico financia validação pré-clínica final quando relevante, validação inicial de segurança e eficácia em ensaios fase 1 multi-cêntricos, incluindo first-in-human, com novos desenhos de ensaio adaptados a populações pequenas e desagregação rigorosa dos dados por tumour biology, sexo, género, idade e outras variáveis socioeconómicas.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

As propostas devem cobrir um pipeline coerente do pré-clínico ainda necessário até ao ensaio fase 1, com metodologia adaptada à raridade da doença e aos requisitos modernos de oncologia de precisão. O envolvimento de doentes e cuidadores na definição de endpoints é exigido, em modelos de participative research, não como consulta cosmética.

  • Validação pré-clínica final: quando ainda relevante, finalizar validação de medicamentos guiados por biomarcadores em modelos in vivo, ex vivo ou in silico. O drug repurposing deve ser considerado, com referência a iniciativas em curso como REMEDI4ALL e REPO4EU.
  • Ensaios fase 1 multi-cêntricos: validar segurança inicial e eficácia em ensaios fase 1, incluindo first-in-human, com novos desenhos como decentralised clinical trials, basket trials, umbrella trials, roll-over ou extension trials, adaptive trials. A adequação do desenho às populações pequenas dos cancros raros é critério explícito.
  • Endpoints e participative research: os endpoints primários e secundários do ensaio devem suportar segurança, eficácia e patient-reported outcomes, definidos em conjunto com doentes raros e cuidadores através de social innovation e modelos participativos.
  • Datasets abertos e UNCAN.eu: todos os datasets produzidos devem ser descritos com metadados no EU dataset catalogue da European Health Data Space. Tools e modelos devem usar infraestruturas europeias de investigação, seguir princípios de ciência aberta e ficar disponíveis na plataforma UNCAN.eu em desenvolvimento.
  • Diálogo regulatório precoce: as candidaturas devem incluir prova de aconselhamento de reguladores sobre o desenho do ensaio. A presença equilibrada de várias disciplinas, autoridades regionais e nacionais de saúde e detalhes do clinical study no anexo dedicado, são requisitos formais.
  • Cluster Diagnosis and Treatment: os projetos vencedores integram o cluster Diagnosis and Treatment da Cancer Mission, com orçamento dedicado a networking e atividades conjuntas e devem articular-se com recursos do Knowledge Centre on Cancer.
Acesso pós-ensaio e uso compassivo
Um diferencial deste tópico face a outros tópicos clínicos do Horizonte Europa é a expectativa explícita de que os doentes raros tratados mantenham acesso ao medicamento depois do fim do ensaio, via ensaios subsequentes ou via programas nacionais e regionais de uso compassivo. As propostas competitivas mostram desde o desenho como esse acesso prolongado vai ser garantido em cada Estado-Membro envolvido, com articulação com autoridades reguladoras nacionais.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

O tópico segue formato Research and Innovation Action ou Innovation Action, com custos elegíveis sob a forma de lump sum, conforme a decisão de 2021 que autoriza este tipo de contribuição no Horizonte Europa. A dotação específica e o número de projetos a financiar são definidos no aviso formal a publicar pela Comissão Europeia, em alinhamento com o Work Programme 2026-2027 das Missões.

Parâmetro Valor
ProgramaHorizonte Europa - Pilar II - Missões
MissãoCancer Mission
CallHORIZON-MISS-2027-02
Tipo de açãoRIA / IA
Modelo financeiroLump sum
População alvoCancros raros e subtipos raros (cerca de 24% dos cancros)
Fase clínicaFase 1, incluindo first-in-human
Conformidade dadosGDPR, European Health Data Space, UNCAN.eu
Limiar de avaliação4/4/4 (cumulativo 12)
Deadline indicativo21 de setembro de 2027
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa para topics da Missão Cancer. São elegíveis pessoas coletivas dos Estados-Membros e Países Associados. A natureza translacional e clínica do tópico exige consórcios multidisciplinares com presença simultânea de centros oncológicos clínicos, biotecnologia, farmacologia, biologia molecular, biostatística, ética e regulação. A participação de organizações de doentes oncológicos com mandato real é critério estrutural.

Composição típica de consórcio competitivo
Vários centros oncológicos europeus de referência com unidades de fase 1 já operacionais e capacidade comprovada de recrutamento em cancros raros. Empresa biotecnológica ou spin-out académica com molécula candidata e pacote pré-clínico próximo do ensaio fase 1. Grupo de biologia molecular dedicado à identificação ou validação do biomarcador. Especialistas em desenho de ensaios para populações pequenas, incluindo basket, umbrella e adaptive trials. Equipa de regulamentação com diálogo estabelecido com EMA ou autoridades nacionais. Charity ou fundação dedicada a cancros raros com presença em rede europeia de doentes. Grupo de bioinformática para integração de dados na European Health Data Space.
Posicionamento Português

Oportunidade para oncologia clínica e biotech nacional

Portugal tem ativos relevantes para participar neste tópico, em particular através dos Institutos Portugueses de Oncologia em Lisboa, Porto e Coimbra, dos Centros Hospitalares Universitários com unidades de fase 1 e de centros de investigação como Champalimaud, IMM, i3S e CNC.IBILI com produção em biologia molecular oncológica. A capacidade nacional de conduzir ensaios fase 1 ainda é menor do que a média europeia, mas tem crescido com investimento dedicado nos últimos anos.

Para empresas portuguesas em biotecnologia oncológica, em particular spin-offs académicas com moléculas candidatas, este tópico é uma janela natural até 2027 para acelerar transição da fase pré-clínica para a fase clínica em colaboração com centros europeus. Para os IPO e outros centros oncológicos hospitalares portugueses, a participação como parceiro permite reforçar capacidade de fase 1, expor equipas a metodologia de ensaios complexos e dar aos doentes portugueses com cancros raros acesso antecipado a opções terapêuticas que de outra forma demorariam anos a chegar.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Tópicos da Missão Cancer com componente clínica fase 1 e first-in-human são tipicamente competitivos e relativamente caros do ponto de vista do orçamento europeu. As propostas vencedoras têm pipeline pré-clínico maduro, hipótese clínica clara, biomarcador robusto, plano regulatório credível e centros oncológicos com capacidade comprovada de fase 1 em cancros raros. A combinação destes cinco elementos define o esqueleto de uma proposta forte; a falta de qualquer um costuma ser fatal na avaliação.

Vemos três configurações típicas em propostas competitivas. A primeira é um consórcio liderado por um centro oncológico clínico de referência europeu com unidade fase 1 muito experiente, em parceria com biotech possuidora de molécula candidata. A segunda é um consórcio liderado por uma empresa biotecnológica europeia com pipeline em cancros raros, que mobiliza centros clínicos para validação multi-cêntrica. A terceira, frequentemente diferenciadora, é um consórcio liderado por uma rede europeia de cancros raros, com participação de várias biotechs com moléculas complementares e desenho basket ou umbrella que maximiza utilidade dos doentes recrutados.

A fragilidade mais comum em propostas neste tópico é subestimar o trabalho regulatório, ético e de envolvimento de doentes. A Comissão Europeia avalia explicitamente a maturidade do pacote pré-clínico, a robustez do desenho do ensaio e a qualidade do plano de uso compassivo pós-ensaio. Para centros oncológicos, IPO, biotechs e fundações dedicadas a cancros raros portuguesas interessadas em explorar este tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: identificação da molécula ou intervenção candidata e do biomarcador associado, mapeamento de centros parceiros europeus complementares com capacidade de fase 1 e dimensionamento do plano regulatório, do envolvimento de doentes e do uso compassivo nos sistemas de saúde envolvidos.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]