Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-MISS-2027-03-OCEAN-01

As áreas ripárias e costeiras desempenham um papel crítico na regulação do clima local e funcionam como buffers entre a terra e a água, fornecendo serviços de ecossistema fundamentais: barreiras naturais contra tempestades, controlo de cheias e erosão, filtragem de poluentes, habitats para espécies, melhoria da saúde do solo e sequestro de carbono. As ilhas, com recursos naturais valiosos que suportam pessoas, culturas e meios de subsistência, são particularmente vulneráveis às alterações climáticas.

O tópico HORIZON-MISS-2027-03-OCEAN-01 inscreve-se na Missão Restore our Ocean and Waters e financia demonstrações em larga escala de soluções para aumentar a resiliência destas áreas ao clima. Cada projeto endereça apenas uma das quatro bacias da Missão (Atlântico e Ártico; Mediterrâneo; Báltico e Mar do Norte; Danúbio incluindo Delta e Mar Negro) e tem de operar pelo menos seis demonstrações em três países diferentes da bacia escolhida.

O instrumento opera ao nível TRL 6-8, ou seja, demonstrações em condições operacionais reais, não investigação fundamental nem prototipagem laboratorial. As soluções baseadas na natureza são privilegiadas, integradas numa abordagem source-to-sea que reconhece a interligação entre terra e mar. O envolvimento direto de autoridades públicas que gerem as áreas e das suas comunidades, é critério estrutural.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A natureza simultaneamente de demonstração climática em escala real, de coordenação com autoridades públicas locais e regionais e de transferência para regiões associadas via financial support a terceiros, posiciona este tópico em duas necessidades complementares. É instrumento de transição climática, mas também de coesão local.

  • Sustentabilidade, energia e clima: o tópico financia demonstrações de soluções baseadas na natureza para aumentar a resiliência climática das áreas ripárias e costeiras, com benefícios em biodiversidade, redução de risco de cheias, adaptação à subida do nível do mar, resiliência à seca, sequestro de carbono e melhoria da qualidade da água. Está alinhado com a Diretiva-Quadro da Água, a Diretiva-Quadro Estratégia Marinha e o Regulamento da Restauração da Natureza.
  • Impacto social e inclusão: autoridades regionais e locais, organismos de gestão de águas interiores, comunidades costeiras e ilhas são participantes ativos no consórcio, não apenas beneficiários. O tópico exige envolvimento de pelo menos cinco regiões associadas, com financial support a terceiros até 100.000 euros para autoridades públicas locais ou regionais demonstrarem replicabilidade.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

A Comissão Europeia define um pacote de atividades obrigatórias muito articulado, que cobre demonstração, replicação, monitorização e envolvimento institucional. A clareza com que o consórcio responde a cada uma delas define a credibilidade técnica e a pontuação.

  • Demonstrações em larga escala: testar e demonstrar soluções eficazes em áreas ripárias e costeiras, cidades junto à água e ilhas para alcançar os objetivos da Missão e endereçar a resiliência das comunidades aos impactos climáticos. Forte ênfase em Nature-based Solutions, abordagem integrada source-to-sea com interações terra-mar, ações transfronteiriças e regeneração da economia azul.
  • Pelo menos 6 demonstrações em 3 países: cada projeto opera no mínimo seis demonstrações em diferentes tipos de áreas ripárias e costeiras (incluindo cidades junto à água e ilhas), distribuídas por pelo menos três países da bacia escolhida. Os países das Regiões Ultraperiféricas são particularmente encorajados, dado o seu património natural.
  • Plano de replicação e 5 regiões associadas: cada projeto trabalha com pelo menos cinco regiões associadas (representadas por autoridades locais ou regionais e organismos públicos) para mostrar a eficácia das soluções e desenvolver plano de replicação. As regiões associadas seguem o projeto, recebem os resultados e conhecimento partilhado e beneficiam de assistência técnica para implementar a abordagem.
  • Financial Support a Terceiros: os beneficiários podem providenciar suporte financeiro a terceiros, sob a forma de subvenções, exclusivamente para autoridades locais ou regionais (estabelecidas como organismos públicos por lei nacional). Montante máximo por terceiro: 100.000 euros, uma única vez por projeto.
  • Monitorização e integração com Digital Twin Ocean: monitorização dos impactos e da eficácia das demonstrações a nível local, com articulação com as atividades do Digital Twin Ocean (em particular as que cobrem águas costeiras e doces) e partilha de dados via Ocean and Water Knowledge System. A monitorização deve alinhar-se com programas de observação ecológica e de biodiversidade de longo prazo.
  • Cooperação institucional reforçada: articulação com a Coordination and Support Action (CSA) da Mission Lighthouse da bacia escolhida e com a Mission Implementation Platform para acompanhar progresso. Colaboração com os Water Oriented Living Labs da Water4All Partnership é bem recebida. Recomendações para alinhar a melhoria da resiliência com novas medidas políticas, infraestrutura verde e cooperação intersetorial (água, navegação, pescas, hidroenergia, transportes).
Restrições obrigatórias para uso de dados de observação
Se o projeto utilizar observação terrestre por satélite, posicionamento, navegação ou serviços relacionados, os beneficiários têm de usar Copernicus e/ou Galileo/EGNOS (outros dados podem ser usados adicionalmente). É um requisito formal de elegibilidade. Adicionalmente, se forem recolhidos dados in-situ e observações marinhas, devem ser disponibilizados abertamente via European Marine Observation and Data network (EMODnet), com princípios FAIR.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

O tópico segue o formato Innovation Action do Horizonte Europa, focado em demonstração próxima de mercado e opera com avaliação por basin que assegura cobertura geográfica balanceada. A dotação específica e o número de projetos são definidos no aviso formal a publicar pela Comissão Europeia, em alinhamento com o Work Programme 2026-2027 das Missões.

Parâmetro Valor
ProgramaHorizonte Europa - Pilar II - Missões
MissãoRestore our Ocean and Waters
CallHORIZON-MISS-2027-03
Tipo de açãoIA - Innovation Action
TRL alvoTRL 6-8 (demonstração em condições reais)
Demonstrações mínimas6 demonstrações em 3 países da bacia escolhida
Regiões associadasPelo menos 5
Financial Support to Third PartiesSim, até 100.000 € por terceiro (autoridades públicas)
Bacias elegíveisAtlântico/Ártico, Mediterrâneo, Báltico/Norte, Danúbio/Mar Negro
Avaliação por baciaSim, top ranked por cada bacia (se passar limiares)
Deadline indicativo21 de setembro de 2027

O critério de avaliação por bacia é diferenciador. Para assegurar um portefólio balanceado, as subvenções são atribuídas não apenas por ordem de ranking mas também a pelo menos uma proposta top ranked em cada bacia, desde que cumpra todos os limiares. Isto significa que uma proposta para o Mar Negro/Danúbio compete principalmente com outras para a mesma bacia, não com todas as candidaturas. É uma vantagem estratégica para consórcios que escolham bacias menos saturadas.

Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa para a Missão Restore our Ocean and Waters. São elegíveis pessoas coletivas de Estados-Membros e Países Associados. A presença de organismos públicos com mandato de gestão das áreas envolvidas é fortemente recomendada como parceiros do consórcio. Autoridades regionais, locais e organismos de gestão de águas interiores são encorajados a integrar como parceiros, não apenas como observadores.

Composição típica de consórcio competitivo
Coordenador com experiência em projetos europeus de grande dimensão e gestão de demonstrações multi-país. Várias autoridades regionais, locais ou municipais com competências de gestão das áreas ripárias ou costeiras visadas, idealmente em três países diferentes da bacia. Institutos de investigação especializados em ecologia, oceanografia, hidrologia ou ciência costeira. Empresas e PME com soluções tecnológicas em Nature-based Solutions, monitorização ambiental, ou gestão integrada de águas. ONGs ambientais com presença local e capacidade de mediação com comunidades. Pelo menos uma região ultraperiférica como parceira ou região associada, dada a centralidade que o tópico lhe dá. Parceiros tecnológicos para integração com o Digital Twin Ocean e EMODnet.
Posicionamento Português

Oportunidade para o oceano português e as ilhas

Portugal tem ativos particularmente fortes para este tópico, em duas dimensões. Em primeiro lugar, a geografia. Portugal Continental é uma das maiores frentes atlânticas da União Europeia, com costas vulneráveis a erosão, subida do nível do mar e eventos extremos e com estuários e zonas ripárias relevantes em Tejo, Sado, Mondego, Vouga, Mira e Lima. Açores e Madeira são Regiões Ultraperiféricas, segmento que o tópico explicitamente encoraja, com ecossistemas costeiros únicos e vulnerabilidades climáticas particulares.

Em segundo lugar, a capacidade institucional e científica. Câmaras municipais costeiras e ribeirinhas, Agência Portuguesa do Ambiente, Administrações das Regiões Hidrográficas e Direções Regionais dos Açores e da Madeira têm mandato de gestão das áreas-alvo. Centros como CCMAR, MARE, CIIMAR, IPMA, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Universidade dos Açores e CIBIO produzem ciência relevante. PME com soluções em monitorização marinha, sensorização, biotecnologia marinha ou engenharia ambiental podem entrar em consórcios europeus com valor diferenciador.

A bacia Atlântica e Ártica é uma escolha natural para consórcios liderados ou participados por entidades portuguesas. Para projetos que escolham esta bacia, a participação portuguesa robusta, em particular envolvendo zonas continentais e uma ou ambas as Regiões Ultraperiféricas, oferece narrativa territorial muito difícil de replicar por consórcios sem participação portuguesa.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Tópicos da Missão Oceano com componente de demonstração em larga escala e financial support a terceiros são tipicamente competitivos, com orçamentos por projeto significativos e exigências organizativas elevadas. As propostas vencedoras combinam quatro elementos. Primeiro, uma escolha estratégica clara de bacia, com argumento defensível para a sua escolha e para a relevância das demonstrações naquele contexto específico. Segundo, presença real e contratualizada de autoridades públicas locais ou regionais com mandato sobre as áreas a demonstrar, não apenas cartas de apoio. Terceiro, pacote técnico defensível em TRL 6-8, com soluções Nature-based maduras o suficiente para demonstrar em condições reais e plano de monitorização credível. Quarto, gestão profissional do mecanismo de financial support to third parties, com critérios transparentes para seleção das autoridades terceiras a apoiar.

A escolha da bacia merece análise cuidadosa. A regra de seleção por bacia significa que consórcios podem ganhar com bacias menos saturadas mesmo com pontuação moderadamente inferior à de líderes em bacias mais competitivas. O Danúbio e o Mar Negro e em menor grau o Báltico, tendem a ter menos candidaturas e podem oferecer caminho mais previsível para consórcios com força técnica mas não suprema. O Atlântico tende a ser muito disputado por consórcios franceses, espanhóis, irlandeses e ingleses e exige proposta verdadeiramente distintiva.

Outro ponto sensível é o equilíbrio entre demonstração e ciência. O TRL 6-8 implica maturidade tecnológica e proximidade de implementação operacional. Consórcios liderados por academia tendem a tratar o projeto como ciência aplicada, o que faz perder pontos no critério Implementation. As candidaturas vencedoras incluem desde início parceiros com capacidade de execução operacional e governance pública. Para municípios, agências regionais, centros de I&D ambiental, PME tecnológicas em monitorização marinha e ONGs ambientais portuguesas interessadas em explorar este tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: escolha de bacia, mapeamento das áreas concretas a demonstrar (incluindo opções nas Regiões Ultraperiféricas) e desenho operacional do financial support a terceiros e do plano de replicação em cinco regiões associadas.

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