O que é

A interface onde se decide se a viagem é sustentável

Uma interface multimodal de passageiros é o ponto onde se cruzam, no mínimo, dois modos de transporte: a estação onde se troca o comboio pelo autocarro, o parque de estacionamento de acesso a transporte público, o nó onde a viagem urbana se liga à rede de longa distância. É aí que se decide, na prática, se um passageiro continua de carro ou muda para um modo mais limpo. Na definição da revista regulação das Redes Transeuropeias de Transportes (RTE-T), é o ponto de conexão que assegura informação de viagem, acesso ao transporte público e transferências entre modos.

O tópico HORIZON-MISS-2027-04-CIT-03 financia ações de inovação que tornam estas interfaces ao mesmo tempo resilientes ao clima e inclusivas, e que as usam como alavanca para a transferência modal. O transporte é responsável por uma fatia significativa das emissões e da poluição nas cidades, e as suas infraestruturas estão cada vez mais expostas a eventos extremos, tempestades, cheias, ondas de calor, e a stresses climáticos prolongados como a escassez de água ou a subida do nível do mar. Preparar a resiliência destes sistemas é condição para garantir a continuidade do serviço e a segurança dos passageiros.

É uma ação do tipo Innovation Action, com exigência de pelo menos três demonstradores por projeto e de atingir um nível de maturidade tecnológica mínimo de TRL 8, ou seja, soluções demonstradas em ambiente operacional real, prontas a entrar em serviço.

Em síntese
Dois projetos serão financiados, com 9 milhões de euros cada, num total de 18 milhões para 2027. Cada projeto demonstra soluções em pelo menos três interfaces reais, dentro do quadro de um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) das cidades participantes, e em articulação com a iniciativa CIVITAS.
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O tópico junta três necessidades que raramente se tratam em conjunto: a descarbonização, a inclusão social e a investigação aplicada à infraestrutura. É essa combinação que define o perfil dos projetos que pretende financiar.

  • Sustentabilidade, energia e clima: as soluções têm de reduzir emissões e poluição do transporte através da transferência modal para modos ativos, partilhados e de micromobilidade, e simultaneamente proteger as infraestruturas dos impactos climáticos, recorrendo entre outras a soluções de base natural com benefícios ambientais demonstrados.
  • Impacto social e inclusão: a acessibilidade é um eixo central. Os projetos têm de melhorar a experiência de todos os passageiros, independentemente de idade, género ou situação económica e social, com acesso igual para pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência, reconhecendo que as alterações climáticas afetam de forma desproporcionada as populações mais vulneráveis.
  • I&D e ciência: o instrumento financia o desenvolvimento e teste de soluções inovadoras em ambiente operacional, incluindo monitorização digital e métodos práticos baseados em IA para avaliar, prevenir e gerir os impactos climáticos adversos sobre a operação da interface.
Quem pode aceder

Cidades, autoridades de transporte e os seus parceiros

O perfil de consórcio combina autoridades urbanas e de transporte, operadores, empresas de tecnologia e engenharia de mobilidade, projetistas de espaço público, e centros de investigação. A contribuição efetiva das ciências sociais e humanas é obrigatória, dado o peso dos fatores de comportamento, aceitação e equidade no sucesso das soluções.

A condição de enquadramento mais importante é que as propostas têm de ser implementadas no âmbito de um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável ou plano equivalente das cidades participantes. A colaboração com a Plataforma da Missão Cidades é essencial e faz-se através da iniciativa CIVITAS, com cooperação ativa entre os projetos selecionados para disseminação, avaliação e coordenação. Os projetos devem ainda promover os princípios da Nova Bauhaus Europeia, sustentabilidade, estética e inclusão, através de iniciativas locais como eventos, concursos, diálogos com cidadãos e laboratórios vivos.

Para o ecossistema português, há espaço claro. Municípios e autoridades de transporte com interfaces relevantes e um PMUS em vigor podem ancorar demonstradores. Empresas nacionais de engenharia de mobilidade, software de gestão de transportes, sensorização e soluções de base natural podem integrar consórcios como parceiros tecnológicos. A exigência de TRL 8 favorece quem já tem soluções maduras à procura de validação em ambiente real e de uma referência europeia.

O que o projeto tem de entregar

Resiliência, transferência modal e inclusão, ao mesmo tempo

As propostas têm de abordar o conjunto dos seguintes pontos, e não apenas alguns deles.

  • Aumentar os fluxos sustentáveis: desenvolver e testar soluções que aumentem as deslocações de acesso e saída da interface por transporte público e por modos ativos, partilhados e de micromobilidade, melhorando a conectividade, a acessibilidade e o reequilíbrio de frotas.
  • Mapear as vulnerabilidades climáticas: identificar as vulnerabilidades atuais e futuras das infraestruturas e serviços selecionados, e determinar os riscos de segurança e as perdas económicas e sociais causadas por eventos extremos ou stresses climáticos prolongados.
  • Proteger e adaptar a infraestrutura: desenvolver e testar soluções de resiliência climática, incluindo soluções de base natural, e integrar monitorização digital e métodos baseados em IA para gerir os impactos sobre a operação.
  • Garantir inclusão e cocriação: assegurar ou melhorar a inclusividade e acessibilidade das interfaces, e estabelecer processos de cocriação com os interessados relevantes para garantir a adoção das soluções, com um modelo económico associado.
Quanto vale

Dezoito milhões de euros para dois projetos

A dotação para 2027 é de 18 milhões de euros, repartida por dois projetos de 9 milhões de euros cada. Como Innovation Action, a taxa de financiamento é de 70% dos custos elegíveis para entidades com fins lucrativos e de 100% para entidades sem fins lucrativos. O calendário segue o conjunto da chamada: abertura prevista a 9 de fevereiro de 2027 e prazo único a 7 de outubro de 2027.

€18M
Dotação total 2027
2
Projetos esperados
3
Demonstradores (min.)

O instrumento liga-se diretamente à implementação da regulação RTE-T para os nós urbanos, complementando os requisitos de resiliência climática com demonstrações concretas. Por serem apenas dois projetos a financiar, a competição é exigente, e a qualidade dos demonstradores escolhidos e a robustez do enquadramento no PMUS de cada cidade pesam tanto como a sofisticação técnica.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é um tópico de demonstração, não de investigação inicial. A exigência de TRL 8 e de três interfaces reais por projeto deixa de fora quem ainda esteja a desenvolver conceito. Para cidades e autoridades de transporte portuguesas, a recomendação é avaliar cedo se têm interfaces candidatas com problemas reais de resiliência climática e acessibilidade, e se o seu PMUS está suficientemente maduro para enquadrar a demonstração, porque essa é uma condição formal, não um detalhe.

Para empresas de mobilidade, engenharia e tecnologia, o valor está em entrar nos consórcios certos como fornecedor de solução madura. A combinação obrigatória de resiliência, transferência modal e inclusão significa que nenhum parceiro isolado cobre o âmbito, o que abre espaço a especialistas em soluções de base natural, em sensorização e IA aplicada à operação, e em acessibilidade universal. O erro comum a evitar é tratar a inclusão e as ciências sociais como um anexo: aqui são critério de avaliação e estão no centro do âmbito. Quem integrar essa dimensão desde o desenho, e não no fim, parte em vantagem clara.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]