Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-MISS-2027-06-SOIL-CANCER

Estima-se que os riscos ambientais e ocupacionais contribuem para mais de 10% da carga total de cancro na Europa. A poluição dos solos por substâncias cancerígenas, como os PFAS e metais pesados do tipo arsénio e cádmio, é uma das fontes mais preocupantes para a saúde humana e ambiental. No entanto, as relações entre práticas de gestão da terra, propriedades do solo e presença destas substâncias permanecem em larga medida desconhecidas e há lacunas profundas no conhecimento sobre como os poluentes do solo passam para a cadeia alimentar, a água e o ar e como essa exposição se traduz em incidência de cancro.

O tópico HORIZON-MISS-2027-06-SOIL-CANCER é uma chamada conjunta entre a Missão Solo (Pacto para Solos Saudáveis) e a Missão Cancro. Liga dois objetivos da União: criar 100 living labs e faróis que liderem a transição para solos saudáveis até 2030 e melhorar a vida de mais de três milhões de pessoas afetadas por cancro até à mesma data. O instrumento financia investigação e inovação aplicada, do tipo RIA, organizada em torno de living labs, colaborações de longo prazo entre múltiplos atores em locais reais.

Um living lab reúne 10 a 20 sítios reais numa região, que podem ser explorações agrícolas, áreas florestais, zonas urbanas verdes ou áreas industriais, onde se cocriam e testam soluções de saúde do solo. Cada projeto deve estabelecer quatro a cinco living labs centrados em investigação e inovação, localizados em pelo menos três Estados-Membros ou países associados diferentes, com atenção especial às regiões mais afetadas por substâncias cancerígenas.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O tópico cruza investigação científica de fronteira com um objetivo ambiental e de saúde pública concreto, o que define duas necessidades centrais.

  • I&D e ciência: o financiamento cobre investigação interdisciplinar e transdisciplinar sobre as vias ambientais pelas quais as substâncias cancerígenas afetam o ser humano e a cadeia alimentar, integrando dados de biomonitorização, registos oncológicos regionais e nacionais e modelação, em articulação com iniciativas como a HBM4EU e a parceria PARC.
  • Sustentabilidade, energia e clima: as soluções procuram isolar, imobilizar, reduzir ou eliminar substâncias cancerígenas dos solos, alinhadas com a Estratégia da União para os Solos, a proposta de Diretiva sobre Monitorização e Resiliência dos Solos, o Plano de Ação Poluição Zero e a Estratégia de Biodiversidade para 2030.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

As propostas têm de adotar a abordagem multi-ator, envolvendo investigadores, proprietários e gestores da terra, representantes da indústria, administração pública e sociedade civil. O contributo das ciências sociais e humanas é esperado para promover inovação social e mudança comportamental.

  • Soluções de remediação: implementar, em living labs em pelo menos três países, soluções adaptadas ao contexto para reduzir a contaminação dos solos por substâncias cancerígenas, com soluções tecnológica, social, económica e ambientalmente viáveis e potencial de replicação.
  • Linha de base e monitorização: estabelecer uma baseline das condições do solo em cada living lab, usando o conjunto de indicadores da proposta de Diretiva sobre Monitorização e Resiliência dos Solos, para acompanhar com rigor a evolução ao longo do tempo e entre sítios.
  • Vias de exposição e cancro: analisar as frações biodisponíveis dos contaminantes, a sua bioacumulação nas culturas e as vias críticas de exposição no nexo solo-água-ar, correlacionando-as com a incidência e a prevalência de cancro através de biomonitorização humana.
  • Faróis e sustentabilidade: identificar sítios de elevado desempenho que possam tornar-se faróis, em articulação com o projeto SOILL e propor estratégias financeiras e organizacionais que garantam a continuidade dos living labs para além do financiamento do Horizonte Europa.
Apoio Financeiro a Terceiros
Os beneficiários podem conceder apoio financeiro a terceiros para facilitar o envolvimento ativo de atores de menor dimensão, como gestores e proprietários de terra, agricultores, PME ou sociedade civil, num ou mais living labs do projeto. O apoio é concedido exclusivamente sob a forma de subvenção e o montante máximo por terceiro é de 60 mil euros.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e parâmetros

À data de publicação do tópico, a dotação específica e o número de projetos a financiar são definidos no aviso formal a publicar pela Comissão Europeia, em alinhamento com o Work Programme 2026-2027 das Missões. As condições gerais seguem os Anexos do Work Programme do Horizonte Europa. O tópico é uma ação de investigação e inovação, com subvenção baseada em orçamento.

Parâmetro Valor
ProgramaHorizonte Europa - Pilar II - Missões
MissõesChamada conjunta Solo (Pacto para Solos Saudáveis) e Cancro
CallHORIZON-MISS-2027-06
Tipo de açãoRIA, abordagem multi-ator e living labs
Living labs4 a 5 por projeto, em pelo menos 3 países
Apoio a terceirosSim, até €60 000 por entidade
Deadline indicativo21 de setembro de 2027
Posicionamento Português

Oportunidade para investigação e território nacional

Portugal reúne condições relevantes para este tópico. Há centros de investigação com produção consolidada em ciências do solo, toxicologia ambiental, saúde pública e oncologia. Há registos oncológicos regionais que podem alimentar a componente epidemiológica do projeto. O país tem ainda territórios com passivo industrial e agrícola onde a questão da contaminação do solo é material, o que oferece sítios reais credíveis para integrar um living lab.

A natureza place-based e multi-ator do tópico valoriza a articulação entre universidades, autoridades de saúde, autarquias, agricultores e PME de remediação e monitorização ambiental. O mecanismo de apoio financeiro a terceiros é particularmente útil para envolver pequenos proprietários e agricultores nos sítios demonstradores, uma dimensão onde a proximidade ao território conta. A janela natural é a participação num consórcio europeu liderado por uma instituição com massa crítica em saúde do solo, com Portugal a contribuir com living labs específicos e competência epidemiológica.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Tópicos conjuntos entre duas Missões são exigentes porque obrigam a integrar mundos que raramente trabalham juntos: ciência do solo e oncologia, remediação ambiental e biomonitorização humana. A proposta vencedora não justapõe estas competências, articula-as em torno de uma pergunta de investigação clara sobre a ligação entre contaminantes do solo e cancro, com dados que permitam medir essa relação ao longo do tempo.

A fragilidade mais comum é tratar a componente de saúde como acessória, com living labs fortes em solo mas fracos na ligação à incidência de cancro, ou o inverso. A Comissão avalia a profundidade do envolvimento dos atores locais, o rigor das medições e a colaboração com estruturas como o projeto SOILL e o Observatório Europeu do Solo. Para centros de investigação, autoridades de saúde e empresas portuguesas interessados, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: identificação de sítios nacionais credíveis para um living lab, mapeamento de parceiros europeus complementares nas restantes regiões e definição da componente epidemiológica que ligue solo e saúde de forma mensurável.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]