Capitalizar o que já existe na missão Mediterrâneo Sustentável
O Interreg Euro-MED é o programa transnacional que cobre 69 regiões em 14 países da bacia mediterrânica, incluindo o sul de Portugal (Algarve). A particularidade do programa face a outros Interreg é a organização por missões: ao contrário de prioridades temáticas isoladas, a Euro-MED articula projetos em torno de quatro grandes missões, das quais uma é Sustainable Tourism.
O aviso MMM (Mediterranean Mainstreaming Mission) Capitalisation Call dedicado à missão Sustainable Tourism é a operação de capitalização desta missão. Não financia projetos novos de teste ou validação. Financia a transferência e mainstreaming dos resultados que já saíram dos avisos anteriores da missão, levando-os a stakeholders e territórios que ainda não os adotaram. A abertura está prevista para setembro de 2026.
Necessidades que este instrumento resolve
O aviso responde a um problema bem identificado no programa Euro-MED. Os projetos das missões produzem soluções, frameworks e estratégias de qualidade variável, mas a sua adoção sistémica pelos atores territoriais costuma ficar aquém da ambição original. O capitalisation call existe para fechar esta lacuna.
- Sustentabilidade, energia e clima: os três objetivos específicos cobertos (2.4 adaptação climática, 2.6 economia circular, 2.7 biodiversidade) ancoram o aviso na agenda climática europeia. As soluções a capitalizar têm de demonstrar contributo direto para a transição verde do setor turístico mediterrânico.
- Internacionalização: a estrutura transnacional do programa exige que os projetos cobrem grande parte do território Euro-MED. Para uma entidade portuguesa do Algarve, o instrumento é menos sobre apoiar atividade local e mais sobre alargar a presença numa rede mediterrânica de operadores e autoridades turísticas.
Onde os projetos vão atuar
O aviso permite candidaturas em três objetivos específicos da prioridade Greener Mediterranean. Cada projeto deve contribuir para um destes objetivos, mas com foco aplicado ao setor do turismo.
| Objetivo | Foco no turismo | Outputs típicos |
|---|---|---|
| SO 2.4 Adaptação climática | Resiliência de destinos turísticos face a riscos climáticos e naturais; turismo regenerativo | Estratégias de gestão de risco em destinos, planos de recuperação ecossistémica |
| SO 2.6 Economia circular | Eficiência de recursos e redução de resíduos no turismo; modelos circulares para PME hoteleiras | Ferramentas de gestão de resíduos, modelos de reuse, capacitação para PME |
| SO 2.7 Biodiversidade | Ecoturismo sustentável; soluções baseadas na natureza; preservação de áreas com pressão turística | Modelos de gestão Natura 2000, infraestrutura verde, governance comunitária |
Importante: o aviso não financia atividades de turismo per se, financia a coordenação, a transferência metodológica e a infraestrutura de adoção. Uma cadeia hoteleira que queira financiamento direto para investimento em eficiência energética não encontra aqui resposta. Uma associação regional de turismo que queira capitalizar uma metodologia validada noutro projeto Euro-MED para a aplicar em seis destinos do Mediterrâneo, sim.
Test, Transfer ou Capitalisation
A nomenclatura do programa distingue várias categorias de projetos temáticos. O MMM Capitalisation Call é, como o nome indica, focado em projetos de capitalização e transferência. Compreender as fronteiras entre categorias é essencial para evitar candidatar uma proposta que pertence a outro tipo de aviso.
- Capitalisation projects: levam outputs já validados a novos territórios, atores ou políticas públicas. É o foco do MMM.
- Transfer projects: otimizam e partilham instrumentos validados, com o objetivo de adoção pelos stakeholders. Afins ao capitalisation, mas com foco mais operacional.
- Test projects: experimentam soluções já desenvolvidas para validar aplicabilidade. Não fazem parte deste aviso.
- Study projects, Strategic Territorial projects: também fora deste âmbito.
14 países, 69 regiões, foco no Mediterrâneo
A área de cooperação Euro-MED inclui regiões costeiras e adjacentes ao Mediterrâneo em 14 países. Para Portugal, a região elegível é o Algarve. Outras regiões portuguesas (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo) podem participar como subcontratadas ou observadoras, mas não como partners financiados.
A parceria de cada projeto deve agregar atores de várias geografias mediterrânicas. Para uma entidade do Algarve, isto significa identificar partners em regiões como a Andaluzia, Catalunha, Sicília, Creta, Toscana, ou países da margem sul como Tunísia, Albânia ou Bósnia, conforme a tese do projeto.
O que recomendamos
O MMM Sustainable Tourism é um instrumento útil para um perfil bem definido: entidades do Algarve com presença prévia em projetos Interreg ou Horizon na área do turismo sustentável, que têm na manga outputs validados e querem alargar a sua disseminação no Mediterrâneo. Para a Região de Turismo do Algarve, para universidades como a UAlg com track record em turismo, ou para associações setoriais com obra feita em economia circular hoteleira, o aviso encaixa.
A nossa nota crítica vai para entidades portuguesas que veem aqui uma porta de entrada europeia. Não é. Sem outputs validados anteriormente, sem rede mediterrânica pré-existente e numa janela curta entre setembro e fim de setembro de 2026, candidatar-se de raiz é um exercício pouco realista. Para essas entidades, recomendamos primeiro construir pegada via avisos da prioridade Greener Mediterranean (Test ou Transfer), regressando ao MMM em ciclos posteriores.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]