Visão Geral

A quarta edicao de um programa estrutural para a regiao dos Grandes Lagos

A linha EuropeAid/185599/DD/ACT/Multi e o quarto ciclo do programa Peaceful and Resilient Borderlands, agora orientado para a Great Lakes Window: as zonas fronteiricas entre Republica Democratica do Congo (RDC), Ruanda e Burundi. O programa esta inscrito na vertente Paz, Estabilidade e Prevencao de Conflitos do NDICI Global Europe e e gerido pela Comissão Europeia em coordenacao com as Delegacoes UE em Kinshasa, Kigali e Bujumbura. A submissão e via PROSPECT e exige registo PADOR previo, com concept note antes da full application.

A escolha das zonas fronteiricas como teatro de intervencao reflete a leitura politica europeia da regiao: nao se resolvem cliveagens dos Grandes Lagos a partir de capitais nacionais isoladas, resolvem-se nas linhas de contacto entre comunidades transfronteiricas onde se concentram tensoes intercomunitarias prolongadas, deslocamentos massivos de populacoes e desafios de governacao paralela. A continuidade do programa em quatro ciclos consecutivos confirma este posicionamento estratégico e diferencia esta call de programas one-off de cooperação para o desenvolvimento.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A call cobre duas necessidades materiais para organizações que avaliem candidatura. A combinacao de impacto social profundo com componente de inclusão economica confere ao instrumento perfil distintivo no portfolio NDICI e exige consorcios multidisciplinares que articulem competencia em mediacao com competencia em geracao de rendimento.

  • Impacto social e inclusão: a call e desenhada para reduzir tensoes intercomunitarias entre comunidades fronteiricas e para integrar populacoes deslocadas em comunidades de acolhimento. Inclui mediacao comunitaria, dialogo intercomunitario, apoio a deslocados internos e refugiados, mecanismos de coordenacao transfronteirica entre autoridades locais.
  • Internacionalização: ONG europeias podem candidatar-se como lead applicant, com obrigatoriedade prática de parceria local enraizada (ONG comunitarias, parceiros confessionais, redes de mediadores locais). Para uma ONG portuguesa com tese estratégica em Africa Central ou em prevencao de conflitos e via concreta para entrar com presenca operacional estavel a varios anos.
Geografia e Contexto

A regiao dos Grandes Lagos como teatro estrutural

A janela geografica da call cobre as zonas fronteiricas dos tres paises, com prioridade para os corredores de tensao mais intensa: leste da RDC (provincias do Kivu Norte, Kivu Sul, Ituri), norte do Ruanda e linha de contacto com a RDC e norte do Burundi com fronteira para a RDC. Estas areas concentram as principais bolsas de deslocamento interno e de movimentos transfronteiricos da regiao, com mais de cinco milhoes de pessoas em situacao de deslocamento na RDC e contingentes significativos no Burundi e Ruanda.

A continuidade do programa em quatro ciclos sucessivos reflete a leitura europeia de que a regiao precisa de instrumentos plurianuais e nao de respostas humanitarias episodicas. As edicoes anteriores (Borderlands I, II e III) cobriram outras janelas geograficas africanas e a quarta edicao foca-se especificamente nos Grandes Lagos para responder a deterioracao da situacao no leste da RDC e ao seu transbordo para Ruanda e Burundi.

Atividades Elegiveis

O perimetro material da accao

A call financia tipologias de atividade integradas que articulam consolidacao da paz com inclusão economica:

  • Mediacao comunitaria e resolucao de conflitos: mecanismos formais e informais de dialogo entre comunidades em tensao, com formacao de mediadores locais e apoio a estruturas de coordenacao paroquial, distrital ou cantonal.
  • Coesão social transfronteirica: projetos de coesão em zonas de fronteira com particular atencao a juventude, mulheres, comunidades de acolhimento de deslocados e populacoes que coabitam linhas linguisticas ou etnicas.
  • Inclusão economica de populacoes vulneraveis: microempreendimentos, formacao profissional, cooperativas agricolas, acesso a microcredito e a inputs produtivos, com foco em jovens e mulheres deslocadas ou em comunidades de acolhimento.
  • Apoio direto a deslocados internos e refugiados: integração em comunidades de acolhimento, apoio a meios de subsistencia, servicos basicos e proteção especifica para mulheres e criancas em zonas de risco elevado.
  • Coordenacao transfronteirica entre autoridades locais: mecanismos formais de dialogo entre autoridades distritais, provinciais ou comunais dos tres paises, com foco em gestão partilhada de recursos, mobilidade transfronteirica e seguranca local.
Elegibilidade e Consorcios

Quem se candidata e como se estrutura o consorcio

A elegibilidade NDICI Global Europe segue regras standard, mas com expectativas especificas que tornam a call exigente em termos de composicao do consorcio:

  • Organizações da sociedade civil internacionais e locais: ONGs internacionais com presenca consolidada em pelo menos um dos tres paises, ONGs locais (RDC, Ruanda, Burundi), redes regionais e parceiros confessionais com enraizamento profundo nas comunidades alvo.
  • Agencias de cooperação bilaterais: podem participar como co-applicants, mas tipicamente nao como lead em calls NDICI temáticas.
  • Estabelecimento e operação previa na regiao alvo: e fator chave de relevancia. A Delegacao espera nao apenas elegibilidade formal mas presenca operacional verificavel em pelo menos uma das tres jurisdicoes alvo.
  • Consorcios multi-pais: sao estruturalmente vantajosos. A regiao de intervencao e transfronteirica e propostas que cubram dois ou tres dos paises com parcerias locais distintas tem partida competitiva superior.
Consorcios sinalizados publicamente
A DanChurchAid (DCA, Dinamarca) e a CAFOD (Reino Unido) ja sinalizaram intencao de candidatura conjunta com parceiro local confessional na RDC. Esta sinalizacao pública num NDICI Global Europe e indicador da seriedade competitiva da call. Quem entrar como lead applicant tem de ter ancoragem local minimamente equivalente para nao ficar em desvantagem comparativa.
Cofinanciamento

Regra padrao NDICI para contextos fragilizados

A call segue o regime de cofinanciamento NDICI standard para contextos de fragilidade severa. A contribuicao UE e tipicamente ate 95 por cento dos custos elegiveis, com a contraparte própria limitada a 5 por cento, refletindo a expectativa europeia de que ONG locais e parceiros internacionais com presenca em zonas de conflito tem capacidade financeira reduzida e operam com restricoes severas.

As categorias de custos seguem o quadro NDICI padrao: pessoal expatriado e local, deslocacoes (frequentes em zonas com restricoes de mobilidade), equipamento e fornecimentos, escritorios locais, servicos, sub-granting (relevante para canalizar capital para ONG comunitarias mais pequenas), auditoria, visibilidade e custos indiretos a taxa fixa ate 7 por cento. Em contextos como o leste da RDC, a componente de seguranca operacional (logistica de movimento, comunicacoes, equipamento de proteção para staff local) e habitualmente significativa e deve ser orcamentada com realismo.

Aplicacao em Portugal

Quando faz sentido para uma organização portuguesa entrar

A relacao Portugal-Africa Central no terceiro setor e modesta. A tradicao de cooperação portuguesa concentra-se nos paises lusofonos e a regiao dos Grandes Lagos esta fora desse perimetro natural. Mesmo assim, ha perfis especificos que se podem qualificar como entrada nesta call.

Primeiro, ONG portuguesas com expertise técnica em mediacao de conflitos, deslocamento forcado ou inclusão economica de populacoes vulneraveis. Estas organizações podem entrar como parceiros técnicos especializados em consorcios europeus, contribuindo com metodologia validada noutros teatros (Mocambique, Guine-Bissau, Sao Tome) que e transferivel para o contexto dos Grandes Lagos com adaptação local. Segundo, instituicoes academicas e de pesquisa portuguesas com investigação em paz, conflitos ou cooperação em Africa subsahariana podem participar como entidades de monitorizacao, avaliação de impacto ou capitalização de aprendizagens. Terceiro, ONG portuguesas com componente confessional (caritas, organizações ligadas a Igreja Catolica) podem articular com redes confessionais europeias com presenca consolidada na RDC, Ruanda e Burundi, oferecendo continuidade pastoral e enraizamento comunitario que e ativo distintivo nesta call.

A entrada como lead applicant de uma ONG portuguesa sem presenca operacional previa nos Grandes Lagos e improvavel. A barreira nao e administrativa e operacional. A estrutura competitiva da call privilegia consorcios com presenca de varios anos no terreno e isso e um ativo que se constroi em ciclos sucessivos, nao em candidaturas pontuais.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A EuropeAid 185599 e uma call estrutural do desenho NDICI para zonas fragilizadas e isso traz vantagens e exigencias muito acima da media do portfolio EuropeAid. Vantagens: previsibilidade do programa em ciclos sucessivos, envelope significativo, expectativa de continuidade operacional plurianual. Exigencias: a competencia operacional em contextos de fragilidade severa e tao critica como a competencia técnica em paz e desenvolvimento. Sem leitura politica fina da regiao dos Grandes Lagos e sem capacidade de absorver risco operacional em zonas com restricoes de movimento e infraestrutura precaria, a probabilidade de shortlist e marginal.

Para organizações portuguesas que estejam a avaliar entrada, tres recomendacoes práticas. Primeira, posicionamento competitivo claro: como lead applicant apenas com presenca operacional consolidada na regiao, como co-applicant com valor distintivo verificavel (expertise técnica, capacidade academica, ligacao confessional). Segunda, articulacao com consorcios europeus ja sinalizados publicamente. A intencao pública de ONGs como DanChurchAid e CAFOD sugere que o portfolio competitivo se esta a estabilizar precocemente. Quem entrar tem de o fazer com proposta diferenciada e parceiros locais distintos. Terceira, leitura aprofundada das edicoes anteriores do Borderlands. As avaliações ex-post das edicoes I, II e III estao publicadas pela DG INTPA e contem licoes especificas sobre o que funciona e o que nao funciona em programas transfronteiricos NDICI.

Para a Open Capital, este e o tipo de instrumento adequado a entidades portuguesas com tese estratégica clara sobre Africa subsahariana e capacidade demonstravel de operar em contextos fragilizados. Nao e adequado para organizações que procurem subvenção oportunista, nem para entidades sem ancoragem regional previa. O desenho da call expulsa rapidamente quem nao tem competencia operacional especifica para Grandes Lagos.

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