A IA como motor de competitividade dos setores culturais
O tópico HORIZON-CL2-2026-01-HERITAGE-03 inscreve-se na destinação "Cultural Heritage and Cultural and Creative Industries" do Cluster 2 do Horizonte Europa. Parte de uma constatação simples: a IA está a transformar profundamente a forma como se cria, produz, distribui e preserva conteúdo cultural e os setores culturais e criativos (CCSI, no acrónimo da Comissão) precisam de ferramentas, dados e infraestruturas para acompanhar essa transformação sem perderem o seu papel de motor de diversidade cultural e de criatividade humana.
A oportunidade é vasta e os exemplos são concretos: assistência a criadores em fases de produção, automatização de tarefas repetitivas em catalogação e curadoria de património, motores de recomendação para audiências, ferramentas de personalização editorial, soluções de acessibilidade para pessoas com deficiência, novos modelos de receita baseados em dados de audiência. O tópico assume que muitas destas soluções já existem em laboratório, mas escalam mal nos CCSI por restrições estruturais: pouco poder de compra, fragmentação setorial, falta de dados de qualidade, falta de capacidade técnica interna. Os projetos financiados existem para ultrapassar essas barreiras.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico cruza duas necessidades complementares: investigação aplicada e inovação digital tangível. Não é um instrumento de capital nem de tesouraria. É um instrumento de cofinanciamento de projetos colaborativos que produzam, em três anos, ferramentas e modelos utilizáveis por organizações culturais reais.
- I&D e ciência: o tópico financia projetos de Innovation Action que avancem o estado da arte da IA aplicada aos CCSI. As propostas têm de produzir conhecimento novo sobre a integração de IA em práticas culturais, mapear lacunas de dados, infraestruturas e capacidade e desenhar soluções escaláveis e éticas.
- Digitalização e IA: a entrega esperada é um conjunto de pilotos funcionais de produtos e serviços baseados em IA, nomeadamente para criação assistida, gestão de conteúdo, modelos de negócio digitais e acessibilidade inclusiva. Os pilotos têm de demonstrar viabilidade económica para os CCSI e ter documentação e materiais de formação que permitam adoção por atores menos capitalizados.
Dimensão financeira
O instrumento opera em modalidade Innovation Action (IA) com financiamento por lump sum, ou seja, montante fechado por marcos de execução em vez de reembolso de custos reais. Esta modalidade reduz o overhead administrativo durante a execução, mas exige uma estruturação rigorosa do plano de trabalho na fase de candidatura. O limite de páginas da Parte B da candidatura é de 50.
Perfil do consórcio
O aviso espera consórcios transnacionais que reúnam, no mínimo, três entidades de três Estados-Membros ou países associados ao Horizonte Europa, conforme as regras gerais do programa. Mais relevante do que o mínimo legal, porém, é o desenho substantivo do consórcio: o tópico exige explicitamente a participação de representantes dos setores culturais e criativos a par dos developers tecnológicos e o trabalho avaliativo distinguirá os consórcios que demonstrem cooperação real entre as duas comunidades.
- Organizações culturais e criativas: instituições de património, museus, arquivos, bibliotecas, festivais, editoras, produtoras audiovisuais, organizações de artes performativas, empresas de design, plataformas de música, indústrias do livro. A presença destas entidades como beneficiárias e não apenas como utilizadoras finais é determinante.
- Atores tecnológicos: empresas de IA, fornecedores de infraestrutura de dados, integradores, startups deep tech, centros de investigação em ciência de dados e processamento de linguagem ou imagem.
- Investigação e academia: universidades e centros de investigação em humanidades digitais, estudos culturais, ética da IA, ciências sociais aplicadas aos media.
- PME e empresas focadas em acessibilidade e inclusão: as propostas são incentivadas a integrar atores que garantam que as soluções servem pessoas com deficiência, jovens e idosos e respeitam diversidade linguística e cultural.
Duas opções, ou ambas
As propostas escolhem uma de duas opções, podendo cobrir ambas se for materialmente justificado:
- Opção A — Pilotos escaláveis para inovação setorial: desenvolver produtos e serviços alimentados por IA em segmentos diversos das cadeias de valor culturais, em cooperação com os próprios CCSI, focando setores cujos modelos de negócio ainda não tiram partido pleno da IA. Os candidatos têm flexibilidade na escolha das áreas de aplicação.
- Opção B — Pilotos inclusivos focados em diversidade e acessibilidade: desenhar e pilotar soluções éticas, transparentes e inclusivas que promovam diversidade cultural e linguística e melhorem acessibilidade, com foco em pessoas em situação de vulnerabilidade (jovens, idosos, pessoas com deficiência).
Em qualquer caso, os pilotos têm de demonstrar potencial de gerar fluxos de receita novos para os CCSI e modelos de negócio sustentáveis. As propostas podem prever apoio financeiro a terceiros até €60.000 por entidade externa ao consórcio, mecanismo útil para envolver organizações culturais mais pequenas em fase de teste.
Articulação com infraestruturas e políticas europeias
A Comissão pede explicitamente que as propostas considerem o AI Continent Action Plan e que se articulem com infraestruturas existentes: a rede europeia de High-Performance Computing, a European Collaborative Cloud for Cultural Heritage (ECCCH), o Common European Data Space for Cultural Heritage, o ALT EDIC, os European Digital Innovation Hubs e as AI Factories. Esta articulação não é cosmética. Consórcios que demonstrem capacidade de integrar dados e ferramentas com estas infraestruturas reduzem o custo marginal de aceder a poder de computação e a corpora de qualidade e aumentam a probabilidade de avaliação positiva no critério "Excellence".
As propostas devem ainda dialogar com a EIT KIC Culture and Creativity, a knowledge and innovation community recém-criada para os CCSI, que opera como rede europeia de aceleração e capacitação setorial. Apresentar uma proposta sem mencionar esta articulação é deixar pontos em cima da mesa.
Datas-chave
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura da call | 12 maio 2026 |
| Limite de submissão | 23 setembro 2026 |
| Avaliação e atribuição | ~5 meses após o prazo (Anexo F do Programa) |
| Assinatura de grant agreement | ~8 meses após o prazo |
O prazo de 23 de setembro coloca a candidatura em janela estival, o que tipicamente penaliza consórcios pouco preparados. Quem chega ao verão sem consórcio fechado e plano de trabalho desenhado dificilmente entrega proposta competitiva.
O que recomendamos
Este tópico é uma das poucas oportunidades estruturais a nível europeu para a economia criativa portuguesa aceder a fundos de inovação digital com escala material. Quando uma proposta tem €4 a €5 milhões por projeto e três grants disponíveis, o capital por consórcio é significativo e justifica investimento sério na preparação.
Para empresas e organizações portuguesas, três alertas práticos. Primeiro, não competir como líder de consórcio sem experiência prévia em projetos europeus desta dimensão: o risco-reputação é elevado e a curva de aprendizagem ocupa o orçamento útil. Faz mais sentido entrar como parceiro temático forte (museu de referência, plataforma audiovisual, startup de IA aplicada a media) num consórcio liderado por entidade com track-record. Segundo, o componente "ética e inclusão" não é declarativo: avaliadores experientes detetam propostas que tratam acessibilidade como check-box. Vale a pena envolver, desde o início, organizações que representem pessoas com deficiência ou comunidades linguísticas minoritárias. Terceiro, a modalidade lump sum recompensa propostas com plano de trabalho granular e marcos verificáveis e penaliza propostas com formulação genérica. Tempo gasto a estruturar o plano em fases bem delimitadas paga-se na avaliação.
Para consultar candidatura ao tópico HERITAGE-03 ou ao Cluster 2 em geral, a equipa da Open Capital pode apoiar no scoping da proposta, validação de elegibilidade e formação de consórcio.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]