A competição global pelo talento como prioridade europeia
O tópico HORIZON-CL2-2026-01-TRANSFO-06 inscreve-se na destinação "Innovative Research on Social and Economic Transformations" do Cluster 2 do Horizonte Europa e responde a uma agenda política que ganhou peso na Comissão eleita em 2024: a Union of Skills, adotada em março de 2025, transformou em política explícita o objetivo de fazer da UE e do European Research Area (ERA) um íman global de talento. A ambição é dupla: atrair brilhantes estudantes terciários, investigadores de topo e quadros qualificados de países terceiros e retê-los na Europa após a sua formação ou contratação inicial.
A Comissão reconhece que falta evidência rigorosa sobre o que efetivamente decide a escolha de destino destes três grupos. O que pesa mais para um estudante internacional ao escolher uma universidade europeia em vez de uma americana ou britânica? Que fatores mantêm um investigador de topo na UE em vez de o levarem para outro continente após o doutoramento? Que critérios usa um quadro qualificado quando avalia mover-se com a família para um Estado-Membro europeu? Sem evidência sólida, as Talent Partnerships e os esquemas nacionais de mobilidade qualificada arriscam-se a tirar conclusões erradas e a desperdiçar capital político em respostas que não respondem.
Necessidades que este instrumento resolve
Este aviso é centralmente um instrumento de produção de evidência científica para policy-making, com aplicação direta a desenho de programas de mobilidade, contratação e integração. Não financia investimento em infraestrutura nem programas de bolsas. Financia investigação que mude a forma como Estados-Membros e instituições desenham as suas políticas de talento.
- I&D e ciência: o tópico financia investigação rigorosa, idealmente com métodos quantitativos sólidos complementados por trabalho qualitativo e SSH, sobre os fatores que pesam na decisão de mobilidade dos três grupos-alvo. Beneficiários típicos são universidades, centros de investigação em economia da educação, sociologia das migrações, economia laboral e estudos de políticas públicas.
- Contratação e RH: as conclusões devem informar políticas de recrutamento de quadros qualificados, esquemas de retenção pós-formação e mecanismos de mobilização do potencial profissional de migrantes humanitários já presentes na UE. O tópico pede explicitamente que se avalie como mobilizar este último grupo no contexto da competição global por talento.
Dimensão financeira
A modalidade é Research and Innovation Action (RIA) com financiamento por lump sum. Limite de páginas da Parte B: 45.
Perfil do consórcio
A combinação de métodos quantitativos rigorosos com leitura qualitativa de fenómenos migratórios complexos exige consórcios disciplinarmente diversos. Os perfis típicos:
- Investigação SSH: universidades e centros em economia das migrações, sociologia, demografia, economia da educação, ciência política, estudos europeus, estudos de género.
- Instituições de ensino superior e investigação: universidades e organizações de investigação que recebam fluxos significativos de estudantes e investigadores não-UE, podendo contribuir com dados administrativos e estudos de caso.
- Atores não académicos e indústria: a Comissão encoraja explicitamente a cooperação com indústria e parceiros sociais, ou seja, empregadores que contratem internacionalmente, associações de empresas tecnológicas, federações setoriais e parceiros sociais europeus.
- JRC (opcional): o Joint Research Centre pode integrar o consórcio como beneficiário com financiamento zero ou como parceiro associado.
O que se espera dos projetos
A Comissão lista um conjunto de questões de investigação que estruturam a proposta. As candidaturas têm flexibilidade para se focarem num dos três grupos — estudantes, investigadores ou quadros qualificados —, mas devem cobrir as principais áreas analíticas:
- Fatores de decisão na escolha de destino: qualidade académica, oportunidades de carreira, atratividade cultural, contexto político, disponibilidade de financiamento, qualidade de vida, salários, integração familiar, ecossistema de inovação. A variabilidade entre Estados-Membros e países associados é parte do objeto.
- Eficácia das Talent Partnerships: avaliação do funcionamento dos acordos entre a UE e países terceiros para mobilidade qualificada.
- Retenção de médio-longo prazo: condições e políticas que mantêm estudantes, investigadores e trabalhadores na UE após a sua entrada inicial.
- Mobilização de migrantes humanitários: como tirar partido do potencial profissional de pessoas com estatuto de proteção internacional já presentes na UE, no contexto da competição por talento.
- Coerência das vias de mobilidade na UE: opções para tornar mais flexíveis e atrativos os esquemas de mobilidade entre Estados-Membros, reduzindo barreiras administrativas.
- Dimensões de género e deficiência: as propostas devem integrar uma análise das diferenças de atratividade e retenção para mulheres e pessoas com deficiência.
Datas-chave
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura da call | 12 maio 2026 |
| Limite de submissão | 23 setembro 2026 |
| Avaliação e atribuição | ~5 meses após o prazo |
| Assinatura de grant agreement | ~8 meses após o prazo |
O que recomendamos
Para o ecossistema português de investigação, este é um tópico com ângulo natural de entrada. Portugal é, de forma estrutural, um caso interessante de "atratividade não-óbvia": um país pequeno, periférico, com salários abaixo da média europeia, mas com forte atratividade reputacional para estudantes e investigadores em determinados nichos (Médio Oriente, Brasil, África lusófona, alguns países asiáticos). Universidades portuguesas com programas internacionais consolidados podem trazer dados administrativos e estudos de caso que enriquecem a proposta sem desviar do mainstream europeu.
Três alertas práticos. Primeiro, o componente quantitativo é a espinha dorsal da proposta: equipas que dependam exclusivamente de métodos qualitativos e estudos de caso dificilmente passam o critério "Excellence". É preciso ter, no consórcio, capacidade de econometria das migrações ou economia laboral aplicada. Segundo, a dimensão de género e deficiência não é declarativa: deve estar embutida na metodologia e nos indicadores. Terceiro, a articulação com a Union of Skills, com a Talent Pool da UE em desenvolvimento e com a Recomendação sobre Strengthening Research Security é peso real na avaliação do critério "Impact". Propostas que mostrem como os resultados alimentam estes processos têm vantagem.
Para discutir o alinhamento de uma instituição de ensino superior, centro de investigação ou empregador português com este tópico, a equipa da Open Capital pode apoiar no scoping da proposta e na formação de consórcio.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]