Uma ação central para integrar SSH e STEM no Horizonte Europa
O tópico HORIZON-CL2-2026-01-TRANSFO-10 inscreve-se na destinação "Innovative Research on Social and Economic Transformations" do Cluster 2 e tem um perfil singular dentro do Cluster: é uma Coordination and Support Action (CSA) com apenas um grant disponível, desenhada para criar uma ação europeia única que monitoriza, facilita e promove a cooperação entre Social Sciences and Humanities (SSH) e Science, Technology, Engineering and Mathematics (STEM) ao longo da execução do programa-quadro.
A racional é simples e foi articulada no Relatório "Align, Act, Accelerate" sobre competitividade europeia: a investigação europeia tem de produzir excelência técnica e excelência social ao mesmo tempo e a cooperação trans- e interdisciplinar entre SSH e STEM é hoje considerada parte integrante do que é ciência excelente. A integração de SSH no Horizonte Europa está mandatada como prioridade transversal, mas o seu cumprimento efetivo ao nível dos projetos e das políticas tem sido irregular. Esta ação visa criar uma estrutura europeia permanente para acompanhar e elevar a qualidade dessa integração.
Necessidades que este instrumento resolve
Este aviso é um instrumento de coordenação e suporte horizontal ao programa-quadro, não de investigação primária. Cruza monitorização sistemática, facilitação metodológica e ciência para a política num único contrato de quatro anos.
- I&D e ciência: a ação tem de desenvolver uma estratégia de monitorização da cooperação SSH-STEM com avanços metodológicos verificáveis face a relatórios anteriores, incluindo recolha e análise de dados, ferramentas baseadas em IA para identificação de padrões de cooperação e propor métricas de avaliação dessa cooperação dentro de projetos. É uma ação meta-científica sobre como a investigação europeia se faz.
- Formação e qualificação: exige-se também uma componente de formação a investigadores sobre como integrar melhor SSH ou STEM nos seus projetos, com ênfase em qualidade e profundidade da cooperação. Implica desenho de guidelines, materiais formativos e apoio direto a stakeholders dentro de consórcios ativos.
Dimensão financeira
A modalidade é Coordination and Support Action (CSA) com financiamento por lump sum e o limite de páginas da Parte B é de 28, mais reduzido do que os 50 das ações RIA do mesmo Cluster 2. A escassez de páginas, conjugada com a expectativa de uma ação rica em outputs (relatórios anuais, eventos, guidelines, métricas), exige economia narrativa rara nestes formatos.
Três pilares obrigatórios
A Comissão estrutura o tópico em três pilares interligados. Uma proposta competitiva tem de demonstrar capacidade real de execução nos três:
- Monitorização: desenho, no primeiro ano, de uma estratégia de monitorização da cooperação SSH-STEM, com clara justificação dos avanços metodológicos face a reportes anteriores. Reporting anual obrigatório com recolha, análise e interpretação de dados sobre cooperação SSH-STEM em projetos do Horizonte Europa. Encorajadas abordagens baseadas em open data e ferramentas de IA para escala.
- Facilitação e promoção: desenvolvimento de guidelines para cooperação SSH-STEM, formação de investigadores e organização de um evento anual de showcasing com troca de experiências entre policymakers e equipas de projeto. A ação tem de também construir uma evidence base R&D quantitativa e qualitativa sobre como adaptar políticas (incluindo financiamento) aos setores com maior potencial competitivo e propor métricas de avaliação.
- SSH/STEM Science for Policy: a ação atua como um interface entre a Comissão Europeia e o ecossistema SSH-STEM, fornecendo aconselhamento sobre cooperação interdisciplinar e mantendo a Comissão informada sobre últimos desenvolvimentos. Daí a importância da inclusão de peritos SSH no consórcio.
O que distingue uma proposta competitiva
A Comissão é explícita sobre quatro exigências qualitativas que vão para além da execução técnica:
- Reconhecer diversidade dentro de SSH: a ação tem de incluir estratégias específicas para aumentar a participação das humanidades a par das ciências sociais quantitativas e qualitativas. Não basta tratar SSH como bloco homogéneo.
- Priorização STEM por relevância temática: a escolha de áreas STEM dentro de cada parceria ou portfolio deve seguir critérios de relevância temática e exequibilidade da cooperação com SSH, não generalidade.
- Abordagem sensível ao género e interseccional: a integração SSH-STEM tem de incorporar diversidade de necessidades e perspetivas societais, garantindo inclusividade e equidade nas políticas R&I.
- Articulação com Parcerias Co-fundadas do Cluster 2: o consórcio é esperado de fazer ligação às duas Parcerias Europeias co-fundadas do Cluster 2 e a projetos com integração SSH bem-sucedida e contribuir para as prioridades do European Research Area e do EU Competitiveness Compass.
Perfil do consórcio
A natureza horizontal e meta-científica da ação favorece consórcios pan-europeus com perfil heterogéneo:
- Centros de estudos de ciência e política científica: instituições com capacidade de meta-análise, scientometria, estudos de avaliação de programas R&I e desenho de métricas. Este perfil é cada vez mais difícil de encontrar em estado puro, mas é o lead candidato natural deste tópico.
- Universidades com peritos SSH e STEM em diálogo: grupos com track-record em colaboração interdisciplinar real, não nominal, em projetos passados do Horizonte 2020 ou Horizonte Europa.
- Networks europeias de investigação: ALLEA, EASSH, Science Europe e outras associações pan-europeias dedicadas à coordenação de comunidades cientificas. A sua presença em consórcio reforça credibilidade institucional.
- Joint Research Centre e organismos da Comissão: envolvimento direto ou consultivo do JRC e dos serviços DG Research é diferenciador, dado o caráter Science for Policy.
Datas-chave
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura da call | 12 maio 2026 |
| Limite de submissão | 23 setembro 2026 |
| Avaliação e atribuição | aproximadamente 5 meses após o prazo |
| Assinatura de grant agreement | aproximadamente 8 meses após o prazo |
O que recomendamos
Para o ecossistema português, este é um tópico de difícil acesso enquanto líder de consórcio. Os candidatos naturais são poucos a nível europeu e Portugal não tem hoje uma instituição com track-record europeu suficiente para liderar uma CSA pan-europeia desta dimensão. A abordagem realista é integrar consórcios em formação, com posicionamento claro no eixo SSH (humanidades digitais, estudos de ciência, política científica) ou no eixo de diálogo SSH-STEM aplicado a competitividade.
Dois alertas práticos. Primeiro, o critério "Excellence" pesa muito num CSA: a proposta tem de demonstrar avanço metodológico claro face ao relatório "Integration of SSH in Horizon 2020" (2023) e ao relatório de integração 2021-2023 do Horizonte Europa (2024), ambos referenciados no tópico. Não basta replicar metodologias passadas. Segundo, com apenas 28 páginas para descrever uma ação de quatro anos, com três pilares e múltiplos outputs anuais, a economia narrativa é critica: cada página perde-se rapidamente em descrição de tarefas se não houver framework analítico unificador desde o primeiro parágrafo.
Para discutir a integração de uma instituição portuguesa num consórcio TRANSFO-10 emergente, ou explorar com mais detalhe o ajuste do perfil das equipas portuguesas a este tópico, a equipa da Open Capital pode apoiar no scoping da participação.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]