Contexto e relevancia

Da capacidade de resposta a capacidade de decisao

A Europa enfrenta um padrao de catastrofes em mutacao. Incendios florestais cada vez mais intensos no sul, inundacoes subitas no centro e norte, calor extremo prolongado, sismos em zonas mediteranicas, eventos hibridos com componente climática e tecnologica simultanea. A capacidade de resposta técnica das forcas de proteção civil tem evoluido, mas a capacidade de decisao em tempo de crise depende cada vez menos de meios e cada vez mais da qualidade dos sistemas de informacao que sustentam essa decisao.

Este topico do Cluster 3 da Horizonte Europa, integrado na chamada Civil Security for Society 2027, financia a evolucao dos sistemas de apoio a decisao para crises. O foco nao e construir sistemas de raiz mas reforcar e integrar sistemas existentes com tecnologias emergentes, em particular IA confiavel, gemeos digitais, drones e sensores em tempo real, com transparencia e auditabilidade explicitas na operação algoritmica.

Portugal tem um caso de uso operacional consolidado neste topico. A ANEPC (Autoridade Nacional de Emergencia e Proteção Civil) gere uma das redes de proteção civil mais ativas da Europa, com integração operacional com municipios, Forcas Armadas e meios aereos. Centros de investigação com competencias em IA, observacao da Terra e modelacao de incendios (INESC TEC, INOV, IPMA, ICNF) tem materia técnica para suportar consorcios competitivos.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este topico cruza investigação em tecnologia digital com seguranca civil e proteção pública. Nao financia compras operacionais nem despesa corrente das autoridades, financia desenvolvimento e teste de capacidade tecnologica nova em sistemas existentes.

  • I&D e ciencia em tecnologia digital: o eixo central e a integração de IA confiavel, transparente e explicavel em sistemas de apoio a decisao, com processamento de grandes volumes de dados em tempo quase real e modelacao preditiva para antecipar a evolucao da crise.
  • Digitalização e IA para infraestrutura critica: a integração de drones com viaturas de emergencia, sistemas de trafego inteligente e forcas de seguranca exige plataformas digitais coordenadas, com soberania tecnologica e ciberseguranca rigorosa.
  • Impacto social e inclusão: as solucoes tem de garantir usabilidade e acessibilidade para utilizadores diversos, em particular forcas de seguranca, autoridades locais e populacao em situacao de risco. A componente de inclusão e atualmente um dos eixos de pontuacao em scope.
O que financia este topico

Tres resultados esperados, articulados

As propostas devem contribuir para os tres resultados abaixo de forma articulada. A excelencia em apenas um dos eixos sem articulacao com os outros nao satisfaz a logica de scope do topico.

  • Sistemas de apoio a decisao com dados em tempo quase real: desenvolvimento de plataformas que integrem dados de sensores no terreno, observacao da Terra, IoT urbano e fontes operacionais para construir consciencia situacional em alta resolucao temporal e espacial.
  • Sistemas para preparacao civil avancada: aplicacoes que reforcem a eficiencia operacional e os tempos de resposta, desde early warning ate early action, com modelacao preditiva integrada na cadeia de decisao.
  • Análise avancada e tomada de decisao: ferramentas de análise para autoridades e forcas de primeira linha, baseadas em principios de IA confiavel (transparencia, accountability, explicabilidade) e em conformidade com o AI Act.

Adicionalmente, o regulamento explicita que os projetos devem incluir análise de stakeholder ou de mercado e roteiro de adopcao das metodologias desenvolvidas pela indústria, comunidade I&D e autoridades relevantes.

2
Autoridades de risco/crise
2
Representantes autoridades locais
3+
Estados-Membros ou Associados
8
TRL esperado no final
Elegibilidade e composicao do consorcio

Autoridades como beneficiarias formais

A composicao do consorcio para este topico tem um conjunto de requisitos mais detalhado que o standard Horizonte Europa, refletindo a natureza operacional do trabalho:

  • Pelo menos duas autoridades de risco de catastrofe ou comunicação de crise: entidades públicas a nível nacional com responsabilidades legalmente definidas em gestão de risco, planeamento de preparacao, resposta operacional ou comunicação de crise. Para Portugal, a ANEPC enquadra-se claramente nesta categoria.
  • Pelo menos dois representantes de autoridades locais ou regionais: com responsabilidades em resposta a catastrofes, como proteção civil regional, municipios com plano municipal de emergencia ativo, comunidades intermunicipais com competencia em gestão territorial de risco.
  • Tres Estados-Membros ou Paises Associados: os participantes obrigatorios acima distribuem-se por pelo menos tres jurisdicoes diferentes, com a tabela "Information about security practitioners" preenchida no formulario.
  • Exclusao de entidades controladas pela China: a clausula de proteção em tecnologias criticas aplica-se, com exclusao formal de entidades estabelecidas ou controladas por entidades chinesas.
  • Uso obrigatorio de Galileo/EGNOS e Copernicus: se a proposta usa dados de observacao da Terra ou navegacao satelite, tem de usar os sistemas europeus como base, com outros sistemas apenas como complemento.
Conformidade com Preparedness Union Strategy e UCPM
As solucoes desenvolvidas devem alinhar-se com a Preparedness Union Strategy europeia e com as orientacoes do AI Act sobre IA confiavel. O regulamento sugere ainda explorar sinergias com a análise das lacunas de capacidade do Mecanismo de Proteção Civil da Uniao (UCPM) e com projetos operacionais como o programa Knowledge for Action in Prevention and Preparedness (KAPP). A demonstracao de articulacao com estes instrumentos politicos e técnicos e diferenciadora na avaliação de impacto.
Dimensoes adicionais

Dados FAIR, IA explicavel e centros de teste

O topico identifica explicitamente tres dimensoes que merecem tratamento dedicado nas propostas:

  • Conformidade FAIR para os dados: Findable, Accessible, Interoperable, Reusable. Os dados produzidos no contexto do projeto devem cumprir estes principios, com utilização de European Open Science Cloud, Destination Earth, Copernicus e Data Spaces quando aplicavel.
  • Centros de teste e validacao: os test centres tem um papel relevante para avaliar tecnologias emergentes em condições proximas das reais. Consorcios com acesso a infraestruturas de teste tem vantagem competitiva.
  • Dimensao de genero: a integração da análise de sexo e genero so deve ser abordada se relevante ao objetivo da investigação. Diferentemente de outros topicos, aqui nao e requisito automatico.
Modelo de custos e prazo

Lump sum, single-stage, prazo a 4 de novembro de 2027

O esquema de custos e o lump sum padrao da Horizonte Europa, com montantes pre-aprovados por pacote de trabalho. A call e single-stage com submissão única ate 4 de novembro de 2027. Trata-se do prazo mais longo deste grupo de calls da CL3 2027, o que reflete a complexidade da composicao do consorcio: integrar autoridades nacionais e locais de varios paises requer tempo prolongado de negociacao.

O regulamento prevê que as atividades possam envolver background classificado ou produzir resultados sensiveis (EUCI ou SEN). Esta possibilidade obriga ao consorcio a definir desde o inicio o regime de classificacao da informacao manipulada, com efeito vinculativo no acordo de consorcio.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este topico tem aderencia operacional alta para Portugal. A combinacao de ANEPC com competencias academicas nacionais em deteccao remota, IA aplicada a riscos naturais e modelacao climática cria base para consorcios competitivos. A vantagem comparativa do pais esta no histórico recente de incendios florestais de grande escala, que produziu volumes significativos de dados operacionais e ensinamentos sistemicos que outros paises europeus ainda nao tiveram oportunidade de gerar.

A janela competitiva esta na qualidade da integração entre autoridade central, autoridades locais e tecnologia. Consorcios liderados por universidades sem envolvimento operacional ativo tendem a perder na avaliação de impact e de implementação. Recomendamos posicionamento de centros de investigação portugueses como parceiros técnicos, com a ANEPC ou municipios com planos de emergencia robustos como lead beneficiarios em representacao do uso final.

O ponto critico do consorcio e a clausula de proteção em tecnologias criticas. A formacao do consorcio deve verificar explicitamente a estrutura de propriedade de cada beneficiario, com particular atencao a empresas tecnologicas com investidores ou parent companies fora do espaco europeu. Esta verificacao deve ser feita na fase de carta de intencoes, nao a meio da escrita da proposta, sob pena de invalidar o consorcio a poucas semanas do prazo de submissão.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]