O que é este topic do Horizonte Europa
O HORIZON-CL5-2026-01-D6-08 é um topic Innovation Action do Cluster 5 do Horizonte Europa que financia o desenvolvimento de novas funcionalidades das plataformas Electronic Freight Transport Information (eFTI) para além do âmbito obrigatório do Regulamento (UE) 2020/1056. O propósito é transformar as plataformas eFTI, hoje vocacionadas para troca de informação regulatória entre operadores e autoridades, em infraestrutura digital aberta para serviços B2B colaborativos e novos serviços B2A.
A premissa é simples e estratégica: a Europa investiu na construção de plataformas eFTI para cumprir obrigações regulatórias de transporte de mercadorias e essa infraestrutura tem agora potencial para servir muito mais. Pode reduzir custos administrativos do reporting de sustentabilidade, suportar cálculo de pegada de carbono ao abrigo do CountEmissions EU, alimentar a Corporate Sustainability Reporting Directive, ligar o transporte de mercadorias a data spaces europeus e aproximar PME logísticas de soluções digitais que hoje são caras ou inacessíveis.
Necessidades que este instrumento resolve
O topic cruza duas necessidades claras das empresas europeias de transporte e logística: digitalizar processos para reduzir burden administrativo e cumprir obrigações de reporting de sustentabilidade que se tornam mais exigentes ano a ano.
- Digitalização e IA: o topic financia desenvolvimento de soluções, ferramentas e plataformas digitais reais (TRL 7+), com uso explícito de IA para facilitar interoperabilidade de dados. Cada projeto tem de demonstrar e quantificar o ganho de eficiência operacional e a redução de custos administrativos B2B e B2A face ao baseline definido no início do projeto.
- Sustentabilidade, energia e clima: as funcionalidades a desenvolver incluem partilha de dados de emissões, suporte a sustainability claims, cálculo de pegada de carbono em cadeias multimodais e integração com a proposta de regulamento CountEmissions EU. A digitalização aqui é meio para descarbonizar o transporte de forma auditável e comparável.
O que tem de constar da proposta
O regulamento define oito aspetos a abordar de forma articulada. Um projeto vencedor combina componente regulatória, soluções técnicas para SME adoption e demonstração em ecossistemas de utilização real.
- Soluções B2A complementares ao âmbito eFTI obrigatório: aplicações para enforcement, statistics, customs, e-invoicing, sustainability reporting, data spaces, calculadoras de emissões e custos externos.
- Soluções B2B universais e abertas: tools para partilha de informação em processos logísticos colaborativos, com integração de mínima fricção, incluindo IA para interoperabilidade de dados.
- Foco explícito em adoção por PME: ferramentas, formação, mecanismos de capability building e trust building para acelerar entrada de pequenas empresas logísticas no ecossistema digital.
- Múltiplos casos de uso B2B e B2A: definição estruturada com identificação de barreiras à interoperabilidade e adoção universal.
- Extensão do dataset comum eFTI: dados adicionais relevantes para os novos casos de uso, com tratamento de soberania, privacidade e cibersegurança.
- Acordos-quadro B2B: contratos-tipo para troca de dados, identificação, autenticação, autorização para operações de confiança em data sharing logístico.
- Sinergias com legislação UE: alinhamento explícito com CSRD, CountEmissions EU, GDPR, AI Act, Data Governance Act, Cybersecurity Act, Digital Identity Framework.
- Pilotos em pelo menos 2 ecossistemas reais: liderados por shippers ou logistic service providers em B2B; em cooperação com indústria, investigadores, administração pública e gabinetes de estatística em B2A.
Perfil de consórcio competitivo
Innovation Actions com pilotos a TRL 7-8 exigem consórcios com mistura clara de tecnologia, indústria e regulação. Para D6-08 especificamente, cinco perfis-chave que tornam a proposta credível.
| Perfil | Contributo essencial |
|---|---|
| Operadores de plataforma eFTI certificada | Sem plataforma operacional onde testar extensões, o projeto não tem onde correr os pilotos. A presença de pelo menos uma plataforma certificada é praticamente obrigatória. |
| Shippers e logistics service providers | Lideram os casos de uso B2B com volume real de operações. Empresas como armadores, freight forwarders, transitários e intermodal operators têm aqui papel central. |
| Administração pública e gabinetes de estatística | Lideram a componente B2A. Autoridades aduaneiras, AT, ANSR, INE e equivalentes europeus dão credibilidade ao projeto. |
| Empresas de software e data engineering | Constroem as APIs, conectores, motores de IA e gestão de dataset. Aqui PT tem competência clara, com empresas portuguesas de software empresarial e SaaS B2B com track record europeu. |
| Centros académicos em logística e dados | Universidades com competência em logistic systems, data spaces e IA aplicada. Em Portugal, NOVA, IST, FEUP e centros do Porto e Aveiro têm capacidade demonstrada. |
Onde Portugal pode entrar
O setor logístico português tem três caraterísticas que fazem dele um candidato natural a participar em consórcios europeus deste topic. Primeiro, a forte presença de PME (mais de 90% do tecido logístico), que corresponde diretamente ao público-alvo crítico do topic. Segundo, a concentração de tráfego de mercadorias entre Sines, Leixões, Aveiro e os principais portos europeus, criando casos de uso transfronteiriços naturais. Terceiro, a competência crescente em software empresarial e SaaS B2B, com empresas portuguesas a fornecerem soluções de gestão e EDI a operadores ibéricos e norte-africanos.
Para a Open Capital, a tese natural de entrada portuguesa em D6-08 é como fornecedor de software ou de PME-onboarding tools, com casos de uso assentes em rotas Iberia-Europa Central e operadores portugueses como Luís Simões, Paulo Duarte Transitários, Sonae MC ou outros parceiros relevantes. A presença da AT como gestora dos sistemas e-Fatura e e-Manifesto é um ativo regulatório significativo.
O que recomendamos
A primeira chamada do topic encerrou em 20 de janeiro de 2026 e os projetos selecionados estão em fase de avaliação. Para o setor digital português que ainda não tinha posicionamento neste eixo, três ações concretas para chegar à próxima ronda em condições competitivas.
Primeiro, mapear as plataformas eFTI certificadas em operação na União Europeia e identificar duas ou três com cuja participação faria sentido formar consórcio. As plataformas certificadas são em número limitado e operam em ecossistemas concretos (Holanda, Bélgica, França, Alemanha, Itália). Conhecer quem opera onde e estabelecer relação técnica com elas vale mais do que qualquer documento de capability statement genérico.
Segundo, capitalizar a infraestrutura digital portuguesa em logística. A AT tem o e-Manifesto, o e-Fatura e o e-Faturas, sistemas de elevada maturidade que cruzam transporte de mercadorias e regulação fiscal. Empresas portuguesas que prestam serviços a estes sistemas, ou desenvolveram soluções complementares para o tecido empresarial nacional, têm um track record demonstrável que serve como prova de capacidade num consórcio europeu.
Terceiro, cuidado com o erro mais comum em IAs eFTI: tentar entrar com proposta de "nova plataforma". Está fora do âmbito. O caminho é leverage das plataformas existentes. Quem chegar a uma proposta com hub central para multimodal data sharing será desclassificado mesmo com excelência técnica. Para projetos selecionados em avaliação, o passo seguinte é alinhar com cofinanciamento nacional para a parcela de adoção empresarial, que pode ir buscar liquidez ao PRR (Mobilidade Verde, Trânsito Digital), Portugal 2030 ou vouchers IAPMEI dirigidos a PME logísticas.
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