A maior aposta europeia em baterias de próxima geração
A Comissão Europeia destinou 100 milhões de euros a um único call de baterias de próxima geração para mobilidade. O HORIZON-CL5-2026-10-D2-03 é a peça central da convergência entre duas parcerias europeias, a Batt4EU (sobre baterias) e a Made in Europe (sobre advanced manufacturing) e contribui diretamente para o Industrial Action Plan do setor automóvel. O objetivo é escalar baterias para além da geração 3, ou seja, semi-solid state, all-solid-state e generation 5, do nível de protótipo de célula (TRL 4-5) para a demonstração de produção e integração em módulo e pack a nível industrial (TRL 6-7).
São esperados três projetos com subvenção média de 33,3 milhões cada. O modelo de financiamento é Action Grant Budget-Based, ou seja, baseado em custos reais e não em lump sum, o que dá flexibilidade orçamental durante a execução, mas exige reporte detalhado e auditoria final. O page limit foi alargado para 60 páginas (face às 45 standard), refletindo a complexidade técnica e industrial do tópico.
Necessidades que este instrumento resolve
Três necessidades em simultâneo: investigação aplicada nos materiais e nas interfaces de células próxima geração, investimento produtivo em equipamento de produção piloto e digitalização através de Battery Management Systems e sensores integrados no pack para uso em condições operacionais reais.
- I&D e ciência: entendimento das interfaces das baterias de próxima geração à escala industrial, com foco em manufacturability, durabilidade e custo. Otimização e métodos de integração à escala piloto de ânodos e cátodos compatíveis com eletrólitos de próxima geração. Validação compreensiva de performance, durabilidade e segurança em condições operacionais realistas.
- Investimento produtivo: desenvolvimento de cell concepts, equipamento e maquinaria. Métodos flexíveis e high-throughput para produção em larga escala (laser patterning, vacuum sintering, advanced calendaring). Maquinaria de próxima geração específica (solid electrolyte deposition tools, high-precision stacking machines). Demonstração de packs em ambiente relevante.
- Digitalização e IA: desenvolvimento de Battery Management Systems e sensores otimizados para integração cell-to-system. Testes de gestão térmica, stress mecânico, resistência a vibração e performance elétrica em escalas relevantes. Conformidade regulatória específica de cada modo de transporte alvo.
Três projetos, um modo de transporte cada
Cada proposta tem de fixar-se num único modo de transporte estrategicamente relevante. O modo escolhido tem de ser claramente indicado na proposta. Os modos elegíveis são quatro: automóvel, aviação, ferrovia e marítimo. Esta escolha condiciona toda a arquitetura técnica, os requisitos regulatórios e o desenho do pack alvo.
Especificações por aplicação
Cada modo tem requisitos técnicos e regulatórios distintos. A tabela abaixo resume o essencial.
| Modo | Características críticas |
|---|---|
| Automóvel | Densidade gravimétrica e volumétrica, ciclo de vida longo, custo agressivo. Articulação direta com OEMs europeus e Tier-1. Slot reservado no portfolio. |
| Aviação | Compatibilidade mínima com EASA CS.23 (level 4), CS.27 e preferencialmente CS.25. Foco em peso e segurança em condições extremas. Slot reservado no portfolio. |
| Ferrovia | Densidade energética alta para regional e suburbano, cycling intenso, durabilidade em ciclos diários. Sem slot reservado. |
| Marítimo | Densidade volumétrica e safety em ambiente salino, integração com plataformas elétricas e híbridas marítimas. Sem slot reservado. |
As propostas têm de definir KPIs apropriados para densidade energética (volumétrica e gravimétrica), densidade de potência, C-rate, número de ciclos e custo, todos em condições operacionais.
Os três pilares de produção
As propostas têm de cobrir os três pilares simultaneamente, não basta concentrar-se num só.
- Upscaling de produção de componentes: otimização e integração à escala piloto de ânodos e cátodos compatíveis com os eletrólitos de próxima geração.
- Cell concepts, equipamento e maquinaria: métodos flexíveis e high-throughput para produção em larga escala (laser patterning, vacuum sintering, advanced calendaring) e maquinaria específica para a próxima geração (solid electrolyte deposition tools, high-precision stacking machines).
- Design e demonstração de módulos e packs em veículos: design do pack com sensores e BMS otimizados para integração cell-to-system, conformidade regulatória, validação em condições operacionais reais com gestão térmica, stress mecânico, vibração e performance elétrica.
Safe and Sustainable by Design e papel do JRC
A iniciativa Safe and Sustainable by Design (SSbD) da Comissão é referência obrigatória, sobretudo para a química dos materiais e a sustentabilidade do ciclo de vida da bateria. As propostas que omitam esta dimensão arriscam-se a perder pontos em "Excellence" e "Impact".
Os planos de exploração e disseminação têm de incluir uma estratégia de exploração com plano preliminar de escalabilidade, comercialização e deployment. A proposta deve identificar fontes de financiamento subsequente, com referência explícita ao Innovation Fund. Esta articulação Horizon-Innovation Fund é um diferencial em cell-to-system: dois projetos vencedores podem mais tarde aceder ao Innovation Fund para financiar a fábrica gigafactory que materializa os resultados.
O perfil dos consórcios
Uma subvenção de 33,3 milhões de euros por projeto exige consórcios de 15 a 25 entidades, com OEM líder do modo de transporte alvo, fabricantes de células e equipamentos de produção, fornecedores de materiais (cátodo, ânodo, eletrólito), fabricantes de equipamento industrial (deposition, stacking), centros de investigação em eletroquímica e em manufacturing e centros de teste para validação. A liderança industrial fica tipicamente em consórcios alemães, franceses, italianos ou nórdicos, com forte presença das gigafactories europeias em construção.
Para entidades portuguesas, há três entradas credíveis. A primeira é em fornecimento de materiais, sobretudo grafite ou tratamento de minerais críticos com cadeia em Portugal. A segunda é como centro de investigação em eletroquímica e materiais (LNEG, INL, INESC, CEMUP, IST), com competências reconhecidas em next-generation interfaces. A terceira é em integração e teste em aplicações específicas, com foco em ferrovia (CP, EMEF) ou marítimo (clusters portuários do Algarve e Norte).
Janela de candidatura
- Abertura: 4 de junho de 2026
- Submissão: 8 de outubro de 2026, 17h00 hora de Bruxelas
- Avaliação: outubro 2026 a fevereiro 2027
- Grant Agreement: tipicamente até 8 meses após submissão. Início efetivo provavelmente em meados de 2027.
O que recomendamos
Este é o tópico mais bem dotado do D2 e um dos mais ambiciosos do call CL5 2026-10. Os consórcios competitivos estão a ser construídos desde 2024, com participação direta dos secretariados Batt4EU e Made in Europe. Para entidades portuguesas, candidatar como líder não é realista. O caminho prático é entrar como work package leader em integração de packs, fornecimento de materiais, ou validação especializada. A janela é curta: agora em maio e junho, contacto direto com potenciais coordenadores via Ponto Nacional de Contacto Horizonte (FCT), Batt4EU Association ou eventos Made in Europe.
A regra de portfolio garantido em automóvel e aviação tem implicação prática importante. Empresas e centros portugueses com competências em qualquer dos quatro modos têm probabilidade de ser convidados, mas o aviation slot é particularmente competitivo dado o número limitado de OEMs aerospaciais europeus. Quem tem competência em CS.27 (helicópteros) ou CS.23 level 4 (aviação ligeira) tem vantagem, dada a fragmentação do mercado e a importância europeia em UAM (Urban Air Mobility) e drones de carga.
Atenção ao desalinhamento entre TRL alvo (6-7) e dotação por projeto (33M). Esta combinação implica que a Comissão espera resultados a nível de pré-série industrial, não apenas demonstração laboratorial. Entidades sem capacidade de produção piloto real (linhas com pelo menos 1 GWh equivalente) terão dificuldade em justificar valor no consórcio. O risco principal de execução é o cronograma. Três anos de projeto chega para validar pré-série mas não para escalar a fábrica final, que dependerá do Innovation Fund subsequente.
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