O que é

Um Innovation Action para destravar a multimodalidade na logística europeia

A procura europeia de transporte de mercadorias deverá duplicar nas próximas décadas. Os objetivos políticos da União são claros: duplicar a quota do transporte ferroviário até 2050 e aumentar em 50% o transporte por vias navegáveis interiores e short sea shipping no mesmo horizonte. A realidade no terreno é menos animadora. O transporte rodoviário unimodal continua mais competitivo e a mudança para soluções multimodais tem sido lenta. O HORIZON-CL5-2026-10-D6-06 ataca uma das principais barreiras identificadas pela Comissão: a falta de integração de dados ferroviários, fluviais e marítimos nas soluções de logística e supply chain usadas pelos operadores.

É um Innovation Action (HORIZON-IA) com modelo Lump Sum, dotado de 20 milhões de euros para 2026 e expectativa de adjudicar três projetos de aproximadamente 6,5 milhões cada. O TRL alvo é 7-8, ou seja, demonstração em ambiente operacional próximo do real. Os projetos têm de validar as soluções em dois grandes pilotos ao longo de segmentos dos principais corredores europeus de carga, com balanço geográfico e cobertura de vários setores industriais (incluindo, por exemplo, FMCG).

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico cruza três necessidades que raramente aparecem juntas num único instrumento europeu: gerar conhecimento aplicado em logística multimodal, financiar equipamento e infraestrutura digital de demonstração e mobilizar consórcios transfronteiriços com presença em vários Estados-Membros.

  • I&D e ciência: exploração de IA generativa, IoT e tecnologias emergentes para procurement e gestão de smart containers (monitorização em tempo real de cargo conditions e ETA), exploração de estratégias de sincromodalidade para hubs e redes multimodais e definição de casos de uso para fluxos intra-europeus entre 500 e 1000 km com modelos de negócio colaborativos.
  • Investimento produtivo: demonstração em dois pilotos de larga escala em corredores europeus de carga, com participação de operadores de transporte, empresas logísticas e gestores de infraestrutura. Aquisição e operação de equipamentos, sistemas digitais e infraestrutura nos hubs e nas first/last mile connections que sustentam a operação real durante o projeto.
  • Digitalização e IA: ferramentas interoperáveis integradas em plataformas existentes de carregadores, transitários, gestores de armazém, centros de distribuição, retalhistas e plataformas de e-commerce. Visibilidade em tempo real, tracking, predictive analytics, ETA fiável e capacidade de reagir rapidamente a falhas, acidentes, sabotagem e força maior.
Dimensão e modelo

Três projetos, dois pilotos cada, lump sum

€20M
Dotação total 2026
3
Projetos esperados
€6,5M
Subvenção por projeto
2
Pilotos por proposta

Três grants de igual dimensão para serem executados em paralelo. Ao contrário do flagship D6-01, este tópico funciona em regime Lump Sum, em que o orçamento é definido a priori e o pagamento depende da entrega dos work packages, não dos custos reais. Para consórcios habituados ao reporte detalhado de custos elegíveis, a transição para lump sum exige planeamento orçamental mais rigoroso na fase de proposta. Erros de calibração dificilmente se corrigem em execução.

Coordenação entre projetos
As propostas têm de prever colaboração ativa entre os três projetos selecionados, em disseminação, avaliação e coordenação. O work plan e o orçamento têm de incluir explicitamente recursos para esta articulação. Recomenda-se também troca de informação com a Europe's Rail Joint Undertaking Flagship Area 5 para evitar duplicação de investigação.
Âmbito

O que cada proposta tem de cobrir

A descrição do tópico é peremptória: as propostas têm de tratar todos os aspetos seguintes, não basta cobrir alguns. Esta abrangência é deliberada e responde à fragmentação histórica das soluções de logística multimodal na Europa.

  • Ferramentas interoperáveis: alavancando o European Data Act, os Common European Data Spaces e o eFTI Regulation, desenvolver ferramentas que se integram nas plataformas existentes de carregadores, transitários, operadores e armazéns. Desenvolver uma plataforma digital nova está fora de âmbito. O foco é integração, não criação de mais um sistema isolado.
  • Mapeamento de datasets: identificar conjuntos de dados existentes ou a desenvolver para enriquecer a integração das soluções multimodais (ex: rail timetable information). Avaliar como IA generativa e IoT podem ser aplicadas, incluindo procurement e gestão de smart containers.
  • Soluções para freight forwarders: com base nos requisitos de negócio e técnicos (TMS, estruturas de dados, segurança), desenvolver soluções para transitários e operadores multimodais responderem às exigências dos carregadores em provisão e partilha de informação, incluindo hubs e first/last mile.
  • Casos de uso 500-1000 km: definir casos de uso para fluxos intra-europeus nesse intervalo de distância, com modelos de negócio colaborativos que desloquem procura para soluções multimodais.
  • Pilotos em corredores europeus: validar e demonstrar com balanço geográfico e cobertura setorial, envolvendo operadores de transporte, empresas logísticas e gestores de infraestrutura.
  • Avaliação de valor: quantificar o valor gerado para carregadores, operadores e terminais, incluindo sustentabilidade e redução de consumo energético.
  • Planos de contingência: propor recomendações para gerir disrupções em supply chains multimodais.
  • Recomendações regulatórias: identificar barreiras e propor revisões ao quadro regulamentar existente para acelerar a adoção da multimodalidade.
Restrições

Entidades controladas pela China e uso obrigatório do Galileo

Atenção
Em linha com a "restriction on control in innovation actions in critical technology areas" do General Annex B, entidades estabelecidas em país elegível mas direta ou indiretamente controladas pela China ou por entidade legal estabelecida na China não são elegíveis. Esta cláusula aplica-se a vários tópicos do D6 e é uma das primeiras coisas a verificar antes de assumir elegibilidade num consórcio internacional.

Adicionalmente, se as soluções propostas usarem serviços ou dados PNT (position, navigation and timing), os beneficiários têm de usar Galileo, podendo complementar com outros GNSS. Sempre que aplicável, devem usar serviços Galileo como OSNMA (Open Service Navigation Message Authentication) e HAS (High Accuracy Service). Para soluções que envolvam observação satelital de terra, é exigido o uso de Copernicus e Galileo/EGNOS.

Quem deve concorrer

O perfil dos consórcios competitivos

A subvenção de 6,5 milhões por projeto exige consórcios com 12 a 18 entidades, incluindo dois operadores de pilotos com presença em corredores transfronteiriços, gestores de infraestrutura ferroviária ou de vias navegáveis, transitários com escala europeia, fornecedores de TMS e plataformas logísticas e centros de investigação especializados em supply chain digital. A coordenação científica fica tipicamente em centros do Norte ou Centro da Europa com tradição em logística e mobilidade.

Para entidades portuguesas, há três posições onde o contributo é credível e diferenciado. A primeira é entrar como parceiro tecnológico em integração de plataformas TMS e WMS, área onde várias empresas portuguesas operam à escala internacional. A segunda é oferecer um piloto que cubra um corredor relevante, por exemplo o corredor Atlântico TEN-T (Sines, Lisboa, Aveiro, Leixões, Vilar Formoso) com ligação ferroviária a Espanha e França, ou o tráfego short sea shipping nos portos portugueses. A terceira é entrar como contributo de investigação em sincromodalidade ou avaliação de impacto, através de centros como o INESC TEC, IST ou universidades com competências em logística e otimização.

Calendário

Janela de candidatura

  • Abertura: 4 de junho de 2026
  • Submissão: 8 de outubro de 2026, 17h00 hora de Bruxelas
  • Avaliação: outubro 2026 a fevereiro 2027
  • Grant Agreement: tipicamente até 8 meses após submissão. Início efetivo do projeto provavelmente em meados de 2027.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico é uma das melhores oportunidades de 2026 para empresas portuguesas com presença em logística digital, integração de TMS, ou operação portuária e ferroviária. A janela de candidatura é curta, quatro meses entre abertura e fecho e a complexidade de articular dois pilotos europeus exige consórcios já em pré-formação. Quem ainda não está a falar com potenciais coordenadores em maio ou junho de 2026 entra atrasado.

A regra do lump sum traz uma vantagem e um risco. A vantagem: menos burocracia administrativa em fase de execução, sem auditoria detalhada de custos. O risco: o orçamento por work package é definido na proposta e raramente se renegocia. Erros de estimativa de pessoal técnico ou de custos de equipamento dos pilotos ficam refletidos na margem do projeto. A nossa recomendação é trabalhar com financial template detalhado em fase de proposta, com buffer de 8 a 12% sobre custos diretos, mesmo em regime lump sum.

Outro alerta prático: a exigência de não desenvolver "plataformas digitais novas" significa que propostas que apresentem uma plataforma como deliverable principal são liminarmente eliminadas. O exercício é integrar e enriquecer plataformas existentes, não construir mais uma camada. Este detalhe escapa frequentemente a consórcios menos experientes em Horizonte Europa e custa a candidatura.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]