O que é

Antecipar disrupções, manter operação, recuperar rápido

A resiliência num sistema de transporte de passageiros é a sua capacidade de absorver perturbações sem colapsar, manter o nível de serviço aceitável e recuperar em tempo e custo razoáveis. Quando uma greve atinge metro e autocarro no mesmo dia, quando uma cheia interrompe um corredor ferroviário, quando uma ciberameaça paralisa a bilhética, a diferença entre uma cidade preparada e uma cidade vulnerável é a velocidade com que reage e comunica. O concurso HORIZON-CL5-2026-10-D6-10 financia, com €10 milhões em dois projetos de €5 milhões, soluções operacionais que combinam analítica em tempo real, IA generativa e discriminativa, manutenção preditiva e ferramentas de gestão de crise para corredores multimodais.

É um Innovation Action (HORIZON-IA) Lump Sum, ou seja, mais próximo da implementação do que da investigação fundamental. O alvo é TRL 6-7, com validação em pelo menos três corredores piloto em Estados-Membros distintos, abrangendo no mínimo três modos de transporte por caso de uso (autocarros, metro, elétricos, comboios, autocarros de longo curso, trolebus, ferries, mobilidade partilhada).

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico cruza investigação aplicada com transformação digital de operadores de transporte. Quem candidata mobiliza simultaneamente competências de IA aplicada, conhecimento operacional de redes multimodais e capacidade de instalar tecnologia em três pilotos diferentes.

  • Digitalização e IA: aplicação de IA generativa e discriminativa, big data, gémeos digitais e analítica em tempo real ao planeamento e resposta a disrupções. Inclui ferramentas de partilha de dados entre operadores e autoridades e geração automática de bibliotecas de cenários para diferentes eventos disruptivos.
  • I&D e ciência: desenvolvimento de algoritmos preditivos, métodos de manutenção antecipativa para infraestrutura e equipamento e abordagens de avaliação de segurança e cibersegurança em interpretação de dados, com mitigação explícita de vieses na tomada de decisão.
Dotação e modelo

Dois projetos de €5 milhões em regime lump sum

A Comissão prevê adjudicar dois grants de €5 milhões cada, com pagamento por entregáveis. O modelo Innovation Action exige tipicamente forte presença industrial e operacional no consórcio: operadores de transporte, autoridades de mobilidade, fornecedores de tecnologia e centros de investigação aplicada. Não é um RIA puro de investigação.

€10M
Dotação total 2026
2
Projetos esperados
€5M
Grant por projeto
6-7
TRL alvo
Métricas exigidas

Indicadores quantitativos de impacto

Este tópico distingue-se de outros do D6 por ter metas numéricas explícitas que o consórcio terá de cumprir e demonstrar. A avaliação penaliza propostas que não articulem claramente como atingem estes indicadores.

IndicadorMeta
Atraso médio de passageiros em corredorRedução de pelo menos 20% durante disrupções planeadas, face a baseline
Tempo entre evento crítico e disseminação do planoRedução de pelo menos 40% face a baseline, em eventos não planeados
Pilotos validadosPelo menos 3 corredores em Estados-Membros distintos, com 3+ modos de transporte por caso de uso
Implicação para o consórcio
Sem operadores reais de transporte público (metropolitanos, ferroviários, urbanos) com dados históricos para estabelecer baselines, é impossível demonstrar as reduções de 20% e 40%. Quem candidata sem este tipo de parceiro não tem hipótese de cumprir os outcomes.
Frentes de trabalho

Seis aspetos a cobrir no plano

  • Medidas de resiliência: desenvolvimento e implementação de medidas para reforçar resiliência em transporte urbano, suburbano e de longa distância.
  • Antecipação e previsão de disrupções: uso de IA generativa e discriminativa, big data e gémeos digitais para prever evolução de disrupções e impacto, com sistemas de planeamento e informação em tempo real.
  • Aquisição e integração de dados: tecnologias inovadoras de aquisição, integração de fontes diversas, geração de bibliotecas de cenários para eventos disruptivos e monitorização da implementação dos planos de resposta.
  • Co-criação com autoridades e operadores: envolvimento das autoridades e operadores no desenho das soluções para garantir alinhamento operacional e usabilidade.
  • Avaliação de segurança e cibersegurança: com decisões baseadas em fatores objetivos e mitigação de vieses na interpretação de dados.
  • Validação em corredores reais: testes em pelo menos três corredores multimodais, em Estados-Membros distintos, com diversidade operacional, geográfica e tecnológica.
Articulações

Trabalhos prévios e quadros europeus

A proposta deve ancorar-se em concursos anteriores sobre resiliência de infraestruturas e transportes (HORIZON-CL5-2024-D6-01-11, MG-7-1-2017, HORIZON-CL5-2021-D6-01-09), gestão de tráfego multimodal (HORIZON-CL5-2022-D6-02-05, MG-2-11-2020) e mobilidade partilhada e transporte público (HORIZON-CL5-2022-D6-02-04, HORIZON-MISS-2021-CIT-02-02). Deve também alinhar-se com o European mobility data space (EMDS) e cumprir princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable) na produção de dados.

Esta articulação não é decoração editorial. A avaliação examina a forma como o projeto se integra no ecossistema europeu de mobilidade já financiado e penaliza consórcios que ignorem o trabalho prévio.

Quem deve concorrer

Perfil do consórcio competitivo

O consórcio típico tem três núcleos. Primeiro, um operador ou grupo de operadores de transporte (metro, ferroviário urbano, autocarros, ferries) com escala operacional para gerar baselines e instalar pilotos. Segundo, um fornecedor de tecnologia com competências em IA, gémeos digitais e analítica de dados em tempo real. Terceiro, autoridades de mobilidade locais ou regionais que tornam o piloto possível em ambiente regulado.

Para Portugal, há três ângulos com lógica industrial. Operadores como CP, Metro de Lisboa, Metro do Porto, Carris, STCP ou autoridades como AMT podem ser parceiros de validação em corredores reais. Empresas portuguesas de software de transporte e mobilidade têm competências em ITS (Intelligent Transport Systems) e podem entrar como fornecedores tecnológicos. Universidades com track record em ciência de dados aplicada a transportes (IST, FEUP) e em gestão de tráfego são interlocutores naturais para coordenação científica.

Calendário

Janela de candidatura

  • Abertura: 6 de maio de 2026
  • Submissão: 8 de outubro de 2026, 17h00 hora de Bruxelas
  • Avaliação: outubro de 2026 a início de 2027
  • Grant Agreement: tipicamente até 8 meses após submissão
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este é um dos D6 mais executáveis do call de outubro de 2026. As métricas são quantificadas, o TRL é elevado e o ecossistema português tem peças. O risco operacional principal é confundir IA generativa com solução universal: o tópico exige IA discriminativa para previsão e classificação e generativa para geração de cenários. Consórcios que apresentem LLMs como resposta para tudo perderão pontos no critério de excelência.

Para um operador de transporte português que pondere entrar, o caminho mais realista é como parceiro de validação num consórcio liderado por uma cidade ou operador de maior escala em Espanha, França, Alemanha ou Itália. A oportunidade comercial não está apenas no grant de €5 milhões. Está em ser o piloto onde a tecnologia se valida e em capturar a aplicação subsequente em compras públicas pós-projeto.

A interoperabilidade com EMDS e o respeito pelos princípios FAIR não são detalhes técnicos. São critério de elegibilidade implícito: dados que não cumpram FAIR não podem ser reutilizados pelos restantes Estados-Membros e isso compromete o impacto sistémico que a Comissão exige.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]