Um roteiro estratégico para a posição europeia em mobilidade conectada e automatizada
A condução conectada, cooperativa e automatizada (CCAM) deixou de ser um exercício técnico de robótica e algoritmos. Tornou-se um campo onde se cruzam cadeias de fornecimento globais, normas regulatórias, soberania de dados e disputas geopolíticas em torno de chips, sensores, software e plataformas. O concurso HORIZON-CL5-2026-10-D6-02 financia, com um grant único de €4 milhões, um projeto que mapeie a posição da União Europeia neste tabuleiro e produza recomendações concretas de política, governação e estratégia empresarial.
É um instrumento do quinto pilar do Plano de Ação Automóvel Europeu, executado no âmbito da parceria CCAM. Não financia hardware nem demonstrações de veículos. Financia a inteligência estratégica de que decisores públicos e privados precisam para decidir onde investir, que dependências mitigar e que cooperações construir nos próximos cinco a dez anos.
Necessidades que este instrumento resolve
A lógica deste tópico cruza investigação aplicada com formulação de políticas industriais. Não é um projeto de I&D puro, nem é uma consultoria estratégica disfarçada de candidatura. É um exercício de mapeamento e foresight com obrigação de produzir entregáveis utilizáveis por governos, empresas e investidores.
- I&D e ciência: análise geopolítica e económica do CCAM com analítica baseada em IA, ferramentas de mapeamento de inovação, métodos de foresight e validação iterativa em pelo menos três Living Labs em diferentes regiões europeias. O projeto produz conhecimento original sobre vulnerabilidades, dependências e cenários de longo prazo.
- Internacionalização: avaliação de iniciativas CCAM de larga escala a nível mundial, identificação de barreiras à comercialização e fatores de sucesso, posicionamento regulatório europeu face a EUA, China e outros blocos. As conclusões orientam decisões de exportação, parcerias internacionais e abertura de mercados.
Um único projeto de €4 milhões em regime lump sum
A Comissão Europeia espera adjudicar um único projeto com contribuição de €4 milhões, cobrindo tipicamente três anos de execução. O instrumento usa o modelo lump sum: o orçamento é fechado à partida e o pagamento é feito por entregáveis, não por reembolso de custos reais. Esta característica torna o controlo financeiro mais simples, mas exige rigor no desenho do plano de trabalho, porque alterações posteriores ao âmbito não geram orçamento adicional.
O que o projeto tem de entregar
A Comissão estruturou os outcomes esperados em quatro blocos articulados. Um plano de trabalho competitivo cobre todos, sem deixar nenhum como secundário.
- Análise da posição europeia em CCAM: avaliação das vulnerabilidades estratégicas, dependências e oportunidades em modelos de negócio, cadeias de fornecimento, componentes críticos, capacidades tecnológicas, infraestruturas e enquadramento regulatório. Inclui mapeamento de iniciativas CCAM de larga escala fora da UE, identificação de pontos de inflexão e fatores de comercialização.
- Cenários participativos de futuro: métodos avançados de foresight (cenários qualitativos, horizon scanning, technology roadmapping), validados em pelo menos três Living Labs representando diversidade europeia em níveis de urbanização, capacidade de governação e geografia. Os cenários ancoram a discussão sobre trade-offs e prioridades estratégicas.
- Impacto socioeconómico: modelação económica e de transportes integrada, captando interações dinâmicas e efeitos sistémicos entre Estados-Membros, setores e grupos demográficos. Cobre emprego, equidade, pobreza de transportes, convergência regional e ganhos de produtividade.
- Modelos de governação e estratégia empresarial: recomendações de política, modelos de governação e estratégias de negócio testados em stress testing baseado em cenários, com atenção específica a PME e micro-empresas. Inclui prioridades sectoriais de I&D e mecanismos de escalamento da inovação.
Perfil do consórcio competitivo
O perfil ideal combina três núcleos. Primeiro, um núcleo de investigação de excelência em mobilidade, automotive e sistemas de transporte, capaz de produzir o trabalho analítico e de foresight. Segundo, parceiros com competências em ciências sociais e humanas (SSH), explicitamente exigidas pelo edital, para modelação socioeconómica, análise institucional e métodos participativos. Terceiro, organizações de governação local e regional capazes de operacionalizar Living Labs em pelo menos três regiões europeias com perfis distintos.
Universidades, centros de investigação aplicada e think tanks europeus liderarão tipicamente a candidatura. Empresas portuguesas com interesse direto, OEMs, fornecedores Tier-1, operadores de mobilidade, fabricantes de sensores ou software de condução autónoma, têm valor como parceiros de validação industrial e como ponte para os trabalhos de stress testing aplicado a casos de negócio.
Articulação com o ecossistema CCAM europeu
O projeto não opera no vácuo. O edital exige coordenação ativa com várias iniciativas em curso e a qualidade dessa articulação é critério de avaliação.
| Iniciativa | Tipo de articulação |
|---|---|
| European Connected and Autonomous Vehicle Alliance (ECAVA) | Coordenação estreita, em particular com o roteiro de condução autónoma do Plano de Ação Automóvel |
| CCAM Technology Observatory | Colaboração e exploração de complementaridades de atividade e resultados |
| Parceria Europeia CCAM | Reporte de resultados em apoio à monitorização dos KPI da parceria |
| European Common Evaluation Methodology (EU-CEM) for CCAM | Aplicação obrigatória da metodologia de avaliação comum |
Janela de candidatura
- Abertura do concurso: 6 de maio de 2026
- Submissão de propostas: 8 de outubro de 2026, 17h00 hora de Bruxelas
- Avaliação: entre outubro de 2026 e o início de 2027
- Assinatura de Grant Agreement: tipicamente até 8 meses após a submissão
Cinco meses para preparar a candidatura é apertado para um consórcio de raiz. Quem ainda não tem o núcleo de parceiros identificado em maio de 2026 deve usar julho e agosto para fechar consórcio e setembro para escrever, rever e submeter. A janela europeia em outubro de 2026 não admite extensões.
O que recomendamos
Este é um concurso para um consórcio europeu maduro, não para uma candidatura oportunística. Quem encara o D6-02 como um RIA tradicional onde se distribuem €4 milhões por seis ou sete parceiros está a desenhar um plano de trabalho fragmentado que não vence. A Comissão quer um consórcio coeso, com massa crítica em ciências sociais aplicadas, capacidade de modelação económica integrada e três Living Labs com governação real, não apenas com cartas de apoio.
Para empresas portuguesas, o caminho não é liderar a candidatura. É posicionar-se como parceiro num pacote de trabalho específico: análise de cadeias de fornecimento de componentes onde Portugal tem presença industrial, validação de cenários de mobilidade em contexto urbano ou rural português, contributo para o stress testing aplicado a casos de negócio em PME do automóvel. Universidades portuguesas com track record em transportes ou em foresight industrial são interlocutores naturais para coordenadores europeus a montar consórcios.
O risco operacional principal é confundir este projeto com um relatório de consultoria. O lump sum exige entregáveis concretos, replicáveis e validados. O risco estratégico é assumir que a parte SSH é decorativa. Não é. Consórcios que tratam economia, sociologia e análise institucional como anexo do trabalho técnico falham na avaliação do critério de excelência científica.
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