Coordenar, não construir tecnologia
A sigla CCAM designa a mobilidade conectada, cooperativa e automatizada, ou seja, o universo dos veículos autónomos e da condução assistida. O D6-05 do Cluster 5 do Horizonte Europa não financia o desenvolvimento de um veículo nem de um sensor. É uma Coordination and Support Action, um tipo de ação dedicado a alinhar, coordenar e apoiar o ecossistema, com uma dotação de 4 milhões de euros para um único projeto.
O objetivo central é alargar a base de conhecimento europeia sobre CCAM, gerida no âmbito da parceria do mesmo nome, dotando-a de ferramentas práticas que apoiem o destacamento seguro de veículos automatizados. Esta base consolida informação de projetos europeus e nacionais e serve investigadores, decisores políticos e profissionais da indústria. O projeto vencedor continuará a gerir e a alojar o observatório tecnológico CCAM, incluindo a sua base de dados e conteúdos.
O problema que justifica o concurso é concreto: apesar dos avanços regulatórios desde 2022, o panorama europeu da condução automatizada continua fragmentado entre Estados-Membros, fragmentação que trava o destacamento em larga escala. Coordenar perspetivas e procedimentos de aprovação comuns é, por isso, tão importante como a própria tecnologia.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de coordenação, o valor deste tópico está em organizar conhecimento e em ligar atores, não em produzir um protótipo. Mesmo assim, serve duas necessidades empresariais bem definidas.
- I&D e ciência: o projeto reúne e estrutura os resultados de investigação de toda a Europa sobre condução automatizada, incluindo bases de dados federadas de cenários para validação de sistemas CCAM, ligadas a bases europeias de acidentes em profundidade.
- Digitalização e IA: a base de conhecimento e o observatório tecnológico são infraestruturas digitais que aceleram a adoção de soluções de mobilidade automatizada, incluindo plataformas seguras de troca de pedidos de licenças de ensaio em estrada aberta entre Estados-Membros.
Entidades de coordenação e plataformas de conhecimento
Pelo seu perfil de Coordination and Support Action, este concurso é mais adequado a entidades vocacionadas para coordenar e disseminar do que a empresas que desenvolvem produto. Falamos de plataformas tecnológicas europeias, associações setoriais, centros de investigação com vocação de articulação e organizações com capacidade de gerir conferências de alto nível, como a EUCAD, além de operar bases de dados partilhadas.
Para o ecossistema português, o interesse está sobretudo em entidades com papel de coordenação no setor da mobilidade, em centros de competência e em organizações que já participam em redes europeias de condução automatizada. A participação dá visibilidade e um lugar na mesa onde se desenham os procedimentos comuns de aprovação e ensaio, algo que pode beneficiar indiretamente todo o tecido nacional ligado à mobilidade automatizada.
Fase única e regime de montante fixo
A candidatura é em fase única, com prazo a 7 de outubro de 2027 e abertura prevista para 3 de junho de 2027. O financiamento assume a forma de montante fixo. Por ser uma ação de coordenação, não se aplica a lógica de níveis de maturidade tecnológica que caracteriza as ações de inovação, o foco está na qualidade da coordenação, na sustentabilidade da base de conhecimento e na capacidade de envolver os Estados-Membros, as autoridades públicas e os cidadãos.
As propostas devem demonstrar capacidade de continuar a gerir o observatório CCAM, de coordenar eventos como a conferência EUCAD, de desenvolver procedimentos práticos de avaliação de segurança e de articular com uma eventual futura iniciativa de interesse europeu comum nesta área.
O que recomendamos
Convém ser claro sobre a natureza deste concurso. Uma ação de coordenação não traz financiamento para desenvolver produto nem para investir em capacidade produtiva. O retorno é de outro tipo: influência sobre as regras do jogo, acesso privilegiado a uma rede europeia e posicionamento como referência num setor estratégico. Para a entidade certa, isso vale muito. Para uma empresa que procura financiar I&D próprio, este não é o instrumento.
Recomendamos este tópico apenas a organizações com vocação real de coordenação e com presença prévia nas redes CCAM europeias. Quem desenvolve tecnologia de condução automatizada encontra melhor encaixe nas Innovation Actions e Research and Innovation Actions do mesmo Cluster 5. Antes de qualquer passo, há que confirmar a admissibilidade da estrutura de capital face à exclusão de entidades chinesas. Se a sua organização se enquadra no perfil de coordenação, vale a pena começar a conversa cedo com potenciais parceiros europeus.
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