Innovation Action sobre eletrificação de pesados
O HORIZON-CL5-2027-03-D5-05 é um topico do programa Horizon Europe, integrado no Cluster 5 (Clima, Energia e Mobilidade) e na call HORIZON-CL5-2027-03 (MOBILITY) do Work Programme 2026-2027. Está classificado como Innovation Action (IA) em modalidade lump sum, com 16 milhões de euros distribuídos por dois projetos esperados de 8 milhões cada.
O foco é a eletrificação de pesados (Heavy Duty Vehicles, HDV) através de duas alavancas técnicas concretas: subir a tensão do powertrain acima dos 800V atuais para um nível ótimo do ponto de vista de eficiência, custo e desempenho e garantir a compatibilidade com Megawatt Charging Systems (MCS), o standard europeu emergente para carregamento de camiões em paragem curta. A redução das perdas de carregamento dentro do veículo deve atingir 10% face a soluções a 800V.
A modularidade está no centro do scope. O regulamento exige que a configuração proposta seja modular ao nível do powertrain, das baterias (incluindo possibilidade de remoção e segunda vida) e dos componentes auxiliares como a gestão térmica. Esta orientação suporta economias de escala num segmento (camiões) onde a fragmentação de casos de uso encarece historicamente o desenvolvimento.
Necessidades que este instrumento resolve
O topico cobre duas necessidades estruturais para empresas portuguesas ligadas a transporte rodoviário pesado, eletrónica de potência, baterias industriais ou infraestrutura de carregamento. Não é I&D fundamental, é Innovation Action com TRL 7 no final, ou seja, demonstração em ambiente operacional.
- Investimento produtivo: os outputs visam viabilizar redução do custo total de propriedade (TCO) dos camiões elétricos. Para empresas com ambição industrial em eletrificação de pesados (fabricantes de baterias, eletrónica de potência, conversores DC-DC, sistemas de gestão térmica), o investimento em capacidade alinhada com powertrain de alta tensão é a aposta lógica para os próximos anos.
- Sustentabilidade, energia e clima: o transporte rodoviário pesado representa cerca de um quarto das emissões do setor de transporte rodoviário europeu. Sem eletrificação viável de camiões, as metas de descarbonização do European Green Deal não se cumprem. O topico ataca diretamente o ponto crítico da equação: tornar o BEV pesado economicamente competitivo e operacionalmente compatível com janelas curtas de paragem.
O que tem de constar nas propostas
O scope do topico é prescritivo. As propostas vencedoras devem cobrir a totalidade dos seguintes objetivos:
- Simplificação de configurações que assegurem eficiência energética e permitam economias de escala e extensão da vida util dos componentes.
- Subida da tensão acima de 800V até nível ótimo em termos de eficiência, custo e desempenho, com compatibilidade explícita com Megawatt Charging Systems. A redução de perdas de carregamento dentro do veículo deve atingir 10%.
- Demonstração de benefícios em fast charging e em componentes auxiliares, designadamente sistemas de gestão térmica, com intermutabilidade modular.
- Sistemas de bateria modulares e removíveis que viabilizem aplicações de segunda vida, prolongando o ciclo de utilização dos packs.
- Powertrains modulares com interfaces hardware e software definidas, permitindo soluções configuráveis por caso de uso sem perder a flexibilidade para aplicação alargada.
- Demonstração em ambiente relevante com integração efetiva em arquitetura E/E inovadora e estratégias de gestão térmica avançadas. Esta exigência de TRL 7 obriga a contar com fabricante de veículos no consórcio.
- Avaliação de custos de ciclo de vida face a sistemas de tensão inferior, identificando ganhos potenciais.
Dezasseis milhões para dois consórcios
O ticket é fixo em 8 milhões por projeto. Em modalidade lump sum, o pagamento está indexado ao cumprimento dos pacotes de trabalho declarados na candidatura. A taxa de cofinanciamento é de 100% para todos os participantes em ações IA quando integradas na parceria 2ZERO.
Com dois projetos esperados, a competição é menos intensa do que no D5-06 (grant único), mas continua a ser exigente. O facto de o ticket ser elevado e único permite consórcios com 8 a 12 parceiros e demonstradores em escala real, o que é compatível com a exigência de TRL 7.
Janela de submissão
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura prevista | 15 de dezembro de 2026 |
| Deadline submissão | 14 de abril de 2027 |
| Modelo | Single-stage |
| TRL fim | 7 (demonstração em ambiente operacional) |
O período útil é de 17 semanas. Para um topico que exige demonstração em ambiente operacional, a presença de um fabricante de veículos pesados no consórcio é praticamente obrigatória. Negociar a entrada num consórcio que envolve OEMs como Volvo Trucks, Mercedes-Benz Trucks, MAN, DAF ou IVECO no espaço de quatro meses é inviável; estes processos arrancam tipicamente seis a doze meses antes da abertura formal.
Quem se enquadra
O perfil tipico de consórcio vencedor combina OEM de pesados, fornecedores Tier-1 de eletrónica de potência e baterias, operadores de transporte rodoviário e infraestrutura de carregamento:
- Fabricantes de pesados: presença obrigatória de pelo menos um OEM por consórcio para suportar a integração veicular e a validação em TRL 7.
- Fornecedores Tier-1 de eletrónica de potência e conversores de alta tensão. A gama de empresas com competência em SiC e GaN para tensões acima de 800V é restrita e os candidatos lideres (Bosch, Continental, ZF, Vitesco) já estão posicionados.
- Fabricantes de células e packs de bateria com capacidade demonstrada em sistemas modulares e arquitetura compatível com segunda vida. Para entidades portuguesas, parceiros do CEiiA ou empresas com I&D em packs industriais (Bondalti em fase de expansão para químicos para baterias) podem oferecer competência específica.
- Centros de I&D com competência em arquitetura E/E e gestão térmica: INEGI, IST, FEUP em Portugal têm enquadramento tecnológico para pacotes específicos.
- Operadores de transporte rodoviário pesado dispostos a integrar piloto com camião elétrico em ambiente operacional. Empresas portuguesas com ambição em descarbonização da frota (Luís Simões, Patinter, ETE Logística) podem participar como utilizadores pilotos.
- Operadores de infraestrutura de carregamento com investimento em estações MCS. A galp e a EDP, em parceria com fornecedores europeus, são candidatas naturais para a componente de infraestrutura.
Os candidatos típicos a coordenação são consórcios europeus liderados por OEMs (Volvo Trucks, Daimler Truck) ou Tier-1 (Bosch, ZF). Para entidades portuguesas, a entrada como fornecedor de tecnologia diferenciada (eletrónica de potência, gestão térmica, software de BMS) ou como utilizador piloto é o caminho realista.
O que recomendamos
Este topico é exigente em três dimensões: requer integração com OEM de pesados, exige TRL 7 (demonstração operacional) e está aprofundadamente alinhado com a roadmap industrial europeia da 2ZERO. A barreira de entrada é alta para entidades portuguesas porque a indústria nacional não inclui OEM de pesados em escala europeia. Há, contudo, vários ângulos de participação realista.
A nossa recomendação para entidades portuguesas é triplice. Primeiro, posicionar competências de fornecedor especializado. Empresas com produto em eletrónica de potência avançada (Tier-2 com tecnologia diferenciadora em SiC, GaN ou conversores DC-DC), em gestão térmica (refrigeração líquida de baterias, materiais de mudança de fase) ou em software de BMS, têm porta de entrada se conseguirem demonstrar produto. Segundo, mobilizar polos como o CEiiA enquanto integrador de sistema. O CEiiA tem track-record em projetos europeus de mobilidade elétrica e pode atuar como ponte entre fornecedores portugueses e OEMs europeus. Terceiro, oferecer-se enquanto utilizador piloto. Um operador português de transporte rodoviário pesado disposto a alojar demonstrador comercial num corredor real (por exemplo, Iberia-França via A8/A1/A9) traz valor logístico que muitos consórcios europeus precisam.
Para entidades fora do consórcio vencedor, há valor adjacente. A linha temática vai dar continuidade nos Work Programmes 2028 e 2029. Investir em capacidade demonstrada em alta tensão (>800V), MCS e modularidade é a forma de ficar pronto para janelas subsequentes, incluindo eventuais avisos PT2030 ou Banco de Fomento sobre eletrificação industrial e infraestrutura de carregamento de pesados.
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