Innovation Action sobre eletrificação total de embarcações
O HORIZON-CL5-2027-03-D5-18 é um topico do programa Horizon Europe, integrado no Cluster 5 (Clima, Energia e Mobilidade) e na call HORIZON-CL5-2027-03 (MOBILITY) do Work Programme 2026-2027. Está classificado como Innovation Action (IA) com 20 milhões de euros distribuídos por dois projetos esperados de 10 milhões cada. É o maior ticket por projeto entre os topicos D5 deste batch e o de TRL alvo mais alto, TRL 8, ou seja, sistema completo qualificado para entrada em operação comercial.
O foco é a viabilização operacional de embarcações totalmente bateria-elétricas para ferries, short sea shipping, embarcações offshore (entre 400 e 6500 GT) e fluviais (86 a 135 metros em rios de fluxo livre). O regulamento estabelece duas metas técnicas concretas: 150 milhas náuticas de autonomia (277,8 km para navegação interior) usando armazenamento elétrico como única fonte de energia e potência de pico de propulsão acima de 5 MW.
Este nível de ambição posiciona o topico como um dos mais industrialmente sérios do batch D5. Não é prova de conceito nem demonstração em ambiente representativo, é construção e operação demonstrada de embarcações elétricas completas em rota comercial real, com infraestrutura de fast charging instalada.
Necessidades que este instrumento resolve
O topico cobre duas necessidades estruturais para empresas portuguesas com ambição em construção naval, eletrificação marítima ou infraestrutura portuária. A escolha das necessidades é determinada pelo perfil industrial do topico: TRL 8, ticket alto, demonstração em rota real.
- Investimento produtivo: o topico financia retrofit completo de pelo menos uma embarcação, replicações em embarcações similares ou diferentes e infraestrutura de Onshore Power Supply (OPS) e fast charging. Este investimento serve diretamente a competitividade da indústria europeia de construção naval e dos fornecedores Tier-1 de baterias e sistemas elétricos para mar.
- Sustentabilidade, energia e clima: os outputs estão direta e explicitamente alinhados com FuelEU Maritime, Naiades III, AFIR (Alternative Fuels Infrastructure Regulation) e RED (Renewable Energy Directive). Cumprir estas obrigações em operação comercial real é a forma de garantir que o setor europeu cumpre as metas Fitfor55 sem perder corredores curtos para concorrentes não regulados.
O que tem de constar nas propostas
O scope é particularmente prescritivo. As propostas vencedoras devem cumprir simultaneamente todos os pacotes seguintes:
- Demonstração à escala real de soluções inovadoras para autonomia estendida e ciclos de bateria estendidos, para além de simples scaling-up de baterias comerciais existentes. Mínimo 150 nm de alcance (277,8 km inland), aplicável a condições operacionais representativas da embarcação escolhida.
- Demonstração de viabilidade económica em operação normal, com baseline de referência state-of-the-art.
- Identificação de perfis operacionais e serviços que requerem maior potência para operação segura e eficaz, com soluções e modelação de cenários de gestão energética.
- Medidas de eficiência energética, incluindo rede AC-DC eficiente, gestão térmica, componentes elétricos de alta tensão, gestão e modelação energética para operação ótima.
- Soluções adaptativas de gestão energética vessel-wide que coordenem bateria, propulsão e cargas hoteleiras, maximizando ciclo de vida e minimizando emissões.
- Sistemas inteligentes de gestão de bateria para eficiência energética e extensão de vida útil das células.
- Aspetos de ciclo de vida by design, incluindo end-of-life das baterias, garantindo operação plenamente elétrica durante e além do tempo de vida planeado da embarcação.
- Conceitos para fast charging zero-emission em rota, fast charging, offshore charging ou battery replenishment, incluindo soluções para alimentação de embarcações ancoradas em offshore perto de portos.
- Design modular e retrofit de navios: idealmente um exercício de retrofit completo e várias replicações em embarcações similares ou diferentes, considerando também as necessidades da infraestrutura OPS.
- Recomendações e melhores práticas para avaliação de segurança baseadas em ensaios de campo. Devem partir de standards estabelecidos (EMSA Guidance on the Safety of Battery Energy Storage Systems onboard ships, CESNI requirements para inland) e contribuir para a sua extensão.
- Cooperação reforçada entre indústria, formação e ensino superior para desenvolver cursos especializados em gestão de baterias para transporte aquático.
Vinte milhões para dois projetos
O ticket é de 10 milhões por projeto, o mais elevado entre os topicos D5 deste batch. A taxa de cofinanciamento é de 100% para todos os participantes em ações IA integradas na ZEWT. Esta combinação ticket alto + cofinanciamento total + dois projetos esperados é a mais favorável do batch para consórcios industriais ambiciosos.
A exigência de TRL 8 (sistema completo qualificado para entrada em operação) implica investimento substancial em construção e adaptação. Dez milhões cobrem retrofit de uma embarcação operacional, infraestrutura OPS num porto e replicação parcial em embarcações similares. O orçamento alinha-se com o nível de ambição: nada inferior a um demonstrador comercial real seria credível.
Janela de submissão
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura prevista | 15 de dezembro de 2026 |
| Deadline submissão | 14 de abril de 2027 |
| Modelo | Single-stage |
| TRL fim | 8 (sistema completo qualificado) |
O período útil é de 17 semanas. Para um topico com TRL 8 alvo, retrofit completo de embarcação real, infraestrutura OPS demonstrada e replicação, a janela é apertada. Os consórcios competitivos têm processos abertos desde a publicação preliminar do Work Programme em 2025; a entrada em consórcio fechado em 2026 é difícil mas ainda possível para quem traga competência específica e crítica.
Quem se enquadra
O perfil tipico de consórcio combina estaleiros, fabricantes de baterias marítimas, operadores de ferry/short sea/inland, autoridades portuárias e fornecedores de OPS:
- Estaleiros com competência em construção e retrofit de embarcações elétricas. Em Portugal, Astilleros do Mondego, Navalrocha (Lisboa), West Sea Estaleiros (Viana do Castelo) podem participar com pacotes de adaptação naval.
- Fabricantes de baterias industriais e marítimas: poucos players globais lideram este segmento (Corvus Energy, Wartsila, Leclanché, EST-Floattech). Para entidades portuguesas, parceria como integrador local ou desenvolvedor de pacotes específicos (BMS, gestão térmica) é o caminho.
- Operadores de ferry e short sea shipping dispostos a oferecer embarcação para retrofit e rota comercial para demonstração. A Atlanticoline (Açores) tem rotas curtas inter-ilhas com perfil ideal. ETE Logística e operadores comerciais do Tejo (Soflusa) podem encaixar na componente fluvial estuarina.
- Operadores portuários com investimento OPS: APS (Sines), APL (Lisboa), APDL (Leixões), Administração dos Portos da Madeira e dos Açores podem participar como sites de instalação de fast charging.
- Fabricantes de eletrónica de potência (conversores DC-DC, inversores, sistemas AC-DC eficientes) e gestão térmica avançada. Tier-1 portugueses com produto demonstrado podem encaixar.
- Centros de I&D em sistemas elétricos para mar: INESC TEC, IST CENTEC, Universidade de Aveiro têm enquadramento técnico para pacotes de modelação energética e gestão.
- Autoridades marítimas e organismos de normalização: EMSA, DGRM, CESNI participam como advisory para os pacotes regulamentares de segurança de baterias a bordo.
- Centros de formação especializada com competência em sistemas elétricos para tripulação. ENIDH em Portugal pode contribuir para a componente formativa.
Os candidatos típicos a coordenação são consórcios europeus liderados por estaleiros nórdicos com track-record em ferries elétricos (Brodrene Aa, Ulstein), Wartsila ou Corvus Energy. Para entidades portuguesas, a participação como parceiro com competência específica (operador de ferry com rota curta ideal, porto-piloto, integrador OPS, fornecedor Tier-2 de eletrónica) é o cenário realista.
O que recomendamos
Este topico é o mais ambicioso do batch D5 em termos de TRL e ticket. Para entidades portuguesas, há oportunidade real e específica em duas frentes. Primeiro, as rotas curtas inter-ilhas dos Açores (Triângulo Faial-Pico-São Jorge, conexões da Graciosa) e da Madeira (Funchal-Porto Santo) têm perfil quase ideal para demonstração de ferry elétrico: curtas, repetitivas, com paragens previsíveis em portos de pequena dimensão. Os terminais permitem instalação de OPS sem reconfiguração estrutural pesada. A Atlanticoline e o Grupo SATA poderiam ancorar componente de operação. Segundo, as rotas de short sea Iberia-Norte da Europa têm fluxo regular que permite demonstração sob condições comerciais.
A nossa recomendação para entidades portuguesas é triplice. Primeiro, mobilizar agora a oferta atlântica e insular. Atlanticoline + APS Açores + estaleiro + INESC TEC + Tier-2 nacional (Nemus em integração de sistemas, Critical Software em controlo) é um pacote articulável que tem valor específico para um consórcio liderado por player nórdico. Sem coordenação portuguesa cedo, esta oportunidade evapora-se. Segundo, posicionar West Sea ou Astilleros do Mondego junto de consórcios de retrofit. Os estaleiros portugueses não vão coordenar, mas podem oferecer capacidade de execução competitiva. Terceiro, alavancar competência em modelação energética. INESC TEC e CENTEC têm publicação reconhecida em sistemas elétricos para embarcações; oferecer pacote de modelação de gestão energética vessel-wide é argumento técnico.
Para entidades fora do consórcio vencedor, há valor adjacente substancial. Os apoios PT2030 e PRR para descarbonização do transporte marítimo, as linhas do Banco de Fomento para transição energética portuária e os Avisos Mar 2030 vão dar continuidade à mesma agenda. Capacidade demonstrada em eletrificação naval e infraestrutura OPS é ativo que se valoriza nos próximos cinco anos.
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