Enquadramento

Redes envelhecidas, cargas novas, pressão crescente

As infraestruturas de água europeias, tanto as de abastecimento como as de recolha e tratamento de águas residuais, atravessam um ciclo de subinvestimento crónico. O seu estado evolui de forma desigual entre Estados-Membros consoante a capacidade de investimento das autoridades locais e dos operadores, agravado por pressões climáticas e de poluição cada vez mais imprevisíveis. Estas redes não foram pensadas para ambientes em mudança rápida e raramente dispõem de monitorização suficientemente granular para entender o seu funcionamento em condições operacionais variáveis.

Do lado do tratamento, os processos tecnológicos legados nem sempre lidam bem com cargas variáveis ou com novos contaminantes (PFAS, microplásticos, fármacos, hormonas, multirresistências antibióticas) que ameaçam a saúde humana e os ecossistemas a jusante. Acresce a dimensão de segurança: as redes de água são infraestruturas críticas cada vez mais expostas a riscos químicos, biológicos, físicos e ciber. O tópico HORIZON-CL6-2026-02-CLIMATE-02 responde a esta complexidade com 10 milhões de euros distribuídos por dois projetos de Research and Innovation Action.

Dados-chave

A oportunidade em números

€10M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€5M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abriu a 14 de janeiro de 2026. Como Research and Innovation Action operada em regime de lump sum, financia investigação aplicada com 100% de custos diretos. Pela natureza integrada do tópico (poluição, digital, segurança, infraestrutura), a Comissão pretende consórcios largos com cobertura de utilidades, fornecedores tecnológicos, universidades e PME especializadas.

Âmbito técnico

As cinco frentes de trabalho

Os projetos devem articular cinco frentes técnicas, podendo concentrar-se em algumas delas mas não ignorando o conjunto:

  • Processos modulares e adaptáveis: desenvolver e integrar processos modulares para tornar as infraestruturas de água potável e residual mais adaptáveis a novos poluentes e aos efeitos das alterações climáticas.
  • Soluções baseadas na natureza (NbS): integrar Nature-based Solutions para reduzir a pegada de carbono das infraestruturas de água, gerir melhor caudais e cargas poluentes que entram nas redes de saneamento e suportar a biodiversidade.
  • Digitalização e gémeos digitais: reforçar o uso de soluções digitais, técnicas de monitorização, dados de Earth observation, gémeos digitais (digital twins) e inteligência artificial, incluindo análise preditiva, para otimizar operação, antecipar desafios e poluição, melhorar eficiência e resiliência. Endereçar fugas, infiltrações, consumo energético, recuperação de materiais e pegada de carbono.
  • Partilha segura de dados: desenvolver frameworks robustos de partilha de dados para promover colaboração segura entre stakeholders e identificar interdependências com outras infraestruturas críticas numa abordagem de resiliência.
  • Proteção contra ataques: desenvolver ferramentas, abordagens e procedimentos para proteger infraestruturas de água físicas e digitais contra ataques maliciosos.
Sinal editorial
A Comissão encoraja explicitamente exploração de blockchain ou outras tecnologias de distributed ledger para integridade de dados, automação via smart-contracts e novos esquemas de financiamento ou certificação. Os projetos devem articular-se com os serviços Copernicus, com o futuro EU Digital Twin de Freshwater e com a iniciativa Water4All. Sem alinhamento explícito com estas plataformas a proposta perde em "Excellence".
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Flexibilidade operacional: infraestruturas suficientemente flexíveis para enfrentar mudanças de caudal hidráulico e cargas de poluentes emergentes ou ainda não conhecidos, garantindo acesso protegido a água e saneamento, recuperação segura de recursos secundários e redução de emissões de gases com efeito de estufa.
  • Integração digital: soluções digitais (sensores inteligentes, IoT, gémeos digitais, IA) e ciência cidadã para operar em condições variáveis, suportar pricing de água adequado, favorecer recuperação de material e limitar emissões.
  • Resiliência ciber-física: ferramentas e proteção para evitar ataques cibernéticos e terroristas, garantindo robustez contra comportamentos maliciosos.
  • Boas práticas de design: infraestruturas novas ou renovadas desenhadas para maximizar resiliência, redundância e sustentabilidade ecológica e social.
  • Predições mais robustas: melhor design de infraestruturas graças a previsões aprimoradas, avaliação rigorosa de impactos e medidas de mitigação adequadas, com avanços na compreensão de como, quando e onde inundações e secas ocorrem.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela amplitude do tópico (5M por projeto, cinco frentes técnicas), o consórcio-tipo competitivo combina:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead científicoUniversidade ou instituto de investigação em engenharia hidráulica e ambiental (TU Delft, IHE Delft, Cranfield, IST-ULisboa, KWR Holanda).
Operadores de águaUtilities municipais e regionais (águas do Norte, AdP, Veolia, SUEZ, Acciona, Aquafin, EWE Wasser). Asseguram dados reais e demonstração em escala.
Tech-providersPME e empresas em sensores, IoT, gémeos digitais, plataformas SaaS de gestão de água. Espaço claro para startups portuguesas.
Especialistas em cibersegurançaCentros de competência em segurança de infraestruturas críticas (INESC TEC, Fraunhofer SIT, ENEA, ENISA partners).
Atores NbSEmpresas e ONG ativas em soluções baseadas na natureza para gestão de água (wetlands construídas, recarga de aquíferos, infiltração urbana).
Plataformas de dadosOperadores e provedores de Copernicus, EMS, Destination Earth. Garantem articulação com infraestrutura europeia de dados.
Reguladores e autoridadesEntidades reguladoras nacionais (ERSAR em Portugal e congéneres), agências ambientais, advisory boards técnicos.

Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Consórcios competitivos têm tipicamente 14-22 parceiros e cobertura de 8-12 países, com distribuição geográfica que assegure presença em zonas com diferentes graus de stress hídrico.

Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

A água é uma das maiores tensões estruturais que Portugal enfrenta na próxima década. A combinação de stress hídrico crescente no sul, infraestrutura de abastecimento e saneamento com graus de modernização desiguais entre regiões e investimento substancial previsto no PRR e no PT2030 cria contexto natural para integração em projetos europeus de I&D em infraestrutura de água.

Equipas portuguesas com produção sustentada nesta área incluem o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil, com experiência consolidada em modelação hidráulica e gestão de redes), o IST e o CERIS-IST (sistemas de drenagem urbana, modelação de qualidade da água), a FCT-NOVA, a Universidade do Minho (recursos hídricos, reutilização), o INESC TEC (digitalização e cibersegurança industrial) e o Instituto Superior de Agronomia (eficiência hídrica em agricultura). No setor empresarial, AdP (Águas de Portugal) e EPAL/AdVT detêm dados longitudinais e capacidade de demonstração em escala metropolitana e há ecossistema de PME tech a crescer (HighWaters, Streambit, EAU, ARGOS, vários spinouts universitários) com produtos para sensores, plataformas SaaS e analítica de água.

A ERSAR como entidade reguladora nacional é também parceiro útil, em particular para WPs de governance e pricing. A articulação com a Estratégia Nacional para a Água e com o Plano Nacional da Água 2030, atualmente em fase de implementação, dá enquadramento político às propostas portuguesas.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Cobertura genuína das cinco frentes: propostas que cobrem só digital ou só NbS perdem face a propostas integradas. A Comissão valoriza articulação real entre processos modulares, NbS, digital, partilha segura de dados e proteção ciber-física.
  • Demonstração em escala real: sem operadores de água com infraestrutura ativa para pilotos, a proposta cai em "Implementation". Uma utility de média/grande dimensão com vontade demonstrada e dados longitudinais é praticamente requisito.
  • Articulação com Copernicus, Water4All e Destination Earth: não é nice-to-have. As propostas devem indicar com método como articulam dados, ferramentas e contributos com estas iniciativas. Sem isso, perdem em "Excellence".
  • Cibersegurança séria: a parte de proteção contra ataques é frequentemente subestimada. Reviewers procuram parceiros com track record real em segurança de OT/SCADA, não consultoras de TI generalistas.
  • Dados FAIR: os dados in-situ recolhidos têm de seguir os princípios FAIR e estar disponíveis em repositórios open access (e.g., Copernicus). Propostas sem plano de gestão de dados detalhado perdem pontos.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Para entidades portuguesas, este tópico tem encaixe estratégico forte. A combinação de stress hídrico real, capacidade científica instalada e PME tech em crescimento posiciona Portugal como parceiro natural em consórcios atlânticos e mediterrânicos. A janela é apertada (3 meses até deadline) mas suficiente para integração em consórcio coordenado externamente, que é o cenário mais provável.

A recomendação prática é tripla. Primeiro, equipas universitárias e institutos de investigação portugueses (LNEC, IST, FCT-NOVA, UMinho, INESC TEC) devem contactar coordenadores prováveis em TU Delft, IHE Delft, Cranfield, KWR ou KIT Karlsruhe. A oferta concreta passa por cobertura de stress hídrico mediterrânico, capacidade analítica, sites para demonstração em utilities portuguesas e ligação a observação Copernicus. Budget realista para parceiro académico português entre 350 mil e 700 mil euros.

Segundo, AdP e EPAL/AdVT podem entrar como demonstradores industriais, em particular para WPs de digital twins e IoT em redes urbanas. O encaixe é direto: estas utilities estão a investir em transformação digital e podem usar projeto Horizon como suporte científico para essas iniciativas.

Terceiro, PME tech portuguesas com soluções de sensores, plataformas SaaS de gestão de água ou analítica preditiva têm espaço como parceiros industriais. O critério-chave é ter produto demonstrável em ambiente operacional (TRL 6-7), não conceito. As propostas mais competitivas em digital têm parceiros tech com clientes pagantes em utilities, não startups em fase de validação.

O que não funciona é entrar com proposta exclusivamente focada em digital twins ou exclusivamente em NbS. As propostas mais competitivas integram pelo menos três das cinco frentes, articulando processos modulares, gémeos digitais e proteção ciber-física, ou NbS, observação Copernicus e partilha de dados FAIR. A tese editorial da Comissão é resiliência integrada, não componentes isoladas.

Vale ainda nota estratégica: a água ganhou prioridade política central na UE com a recente Water Resilience Strategy. A participação aqui constrói capital científico para o próximo ciclo de instrumentos (LIFE, Cohesion Policy, EIB Project Promotion Initiative em água) e dá visibilidade europeia a operadores e PME portuguesas. Adicionalmente, os dados gerados em projeto Horizon servem como suporte técnico para investimentos PRR e PT2030 em modernização de redes que vão estar em curso até 2027.

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