Enquadramento

Quando o desperdício pós-colheita é uma oportunidade

A insegurança alimentar em África continua a coexistir com taxas de desperdício pós-colheita que ultrapassam, em muitas cadeias, 30 a 40% da produção. As instalações de processamento alimentar em países da União Africana operam frequentemente com tecnologia obsoleta, energia não renovável, baixa qualidade e conformidade limitada com padrões de segurança alimentar. Em paralelo, culturas com elevado valor nutricional e potencial comercial, leguminosas, soja, milhos, inhames, mandioca, peixe, cacau e frutas, permanecem subutilizadas ou são canalizadas para mercados de baixo valor por falta de capacidade de processamento moderno e seguro.

Esta combinação cria uma janela estratégica clara. O tópico HORIZON-CL6-2026-02-FARM2FORK-14 mobiliza 11 milhões de euros para dois projetos de Research and Innovation Action centrados em melhorar instalações de processamento alimentar em África, com investimento em armazenamento seguro (evitando micotoxinas e resíduos de pesticidas), garantia e controlo de qualidade, técnicas inovadoras de processamento e embalagens sustentáveis e reutilizáveis. A perspetiva é claramente bioeconómica: aproveitar subprodutos em abordagens circulares, alinhadas com a nova estratégia da UE para a bioeconomia e mobilizar resultados de life sciences, biotecnologias e fermentação em processos baseados em energia renovável.

A call enquadra-se no AU-EU Innovation Agenda, na Global Gateway Strategy e em parcerias UE-África como DeSIRA+. A obrigatoriedade de incluir pelo menos três entidades estabelecidas em Estados-Membros da União Africana (das quais pelo menos duas na mesma região) faz deste tópico uma das poucas calls Horizon onde participação africana é critério legal, não apenas dimensão de impacto.

Dados-chave

A oportunidade em números

€11M
Dotação total
2
Projetos a financiar
€5-6M
Por projeto
3+
Entidades UA obrigatórias

Submissão single-stage com deadline a 14 de abril de 2026, abertura a 14 de janeiro de 2026. Como Research and Innovation Action operada em regime de lump sum, financia 100% dos custos diretos. As regras de elegibilidade são particulares: além das condições habituais Horizon, o consórcio tem de incluir pelo menos três entidades legais independentes estabelecidas em Estados-Membros da União Africana, com pelo menos duas na mesma região da União Africana. Entidades de todos os Estados-Membros da União Africana, incluindo aqueles com membership temporariamente suspenso, são excecionalmente elegíveis para financiamento UE.

Âmbito técnico

O que o consórcio tem de produzir

A call combina duas linhas de trabalho que devem ser desenhadas como ecossistema integrado, não como WPs paralelos.

  • Aceleração de startups e PMEs: promover startups e outras PMEs inovadoras providenciando espaço de mentoria e aceleração de conceitos de negócio inovadores, incluindo inovação social e upscaling, na perspetiva de food business entrepreneurs africanos ou europeus, com consideração especial pela diversidade envolvendo mulheres, jovens empreendedores e diáspora, utilizando oportunidades de cascading funding (FSTP até 60 mil euros por beneficiário).
  • Alimentos saudáveis, seguros e nutritivos: conduzir a alimentos saudáveis, seguros e nutritivos. As novas oportunidades de processamento devem aumentar biodiversidade com mais oportunidades de mercado para culturas subutilizadas, articulando-se com outros projetos da AU-EU Food and Nutrition Security and Sustainable Agriculture Priority (FNSSA), em particular com a CSA CEA-First e o International Research Consortium, construindo sobre resultados de projetos anteriores incluindo ligações a projetos do AU-EU Climate Change and Sustainable Energy.
Sinal editorial
A call exige multi-actor approach formal: a proposta tem de combinar investigadores, processadores alimentares (incluindo o setor informal), agricultores, ONGs e outros actores dos sistemas alimentares. Sem desenho explícito de governance multi-actor, a proposta cai abaixo do threshold. O setor informal é elemento crítico: muitas das oportunidades de impacto em África estão em micro-processadores informais que não cabem em definições europeias de PME. As propostas devem reconhecer esta especificidade.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Instalações de processamento melhoradas: instalações de processamento alimentar em África focadas em culturas subutilizadas (leguminosas, soja, milhos, inhames, mandioca para algumas regiões, peixe e produtos pesqueiros, ou cadeias de valor para mercados locais ou exportação como cacau e frutas, orgânicas e convencionais) com operações melhoradas em armazenamento seguro (anti-micotoxinas e anti-resíduos), garantia e controlo de qualidade, técnicas de processamento inovadoras e cuidadas, embalagens sustentáveis e reutilizáveis, com base em life sciences e biotecnologias incluindo fermentação, em processos baseados em energia renovável.
  • Redução de perdas e desperdício: perdas e desperdício alimentar pós-colheita reduzidos, utilizando subprodutos em processos circulares em apoio à nova estratégia da bioeconomia UE, através de novas técnicas inovadoras e melhores práticas, com food safety preparada para escalonamento via instrumentos complementares como AU-EU Innovation Agenda e DeSIRA+.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela natureza RIA com regra de inclusão obrigatória de entidades africanas e abordagem multi-actor, a composição-tipo competitiva inclui:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead em food technology UEUniversidade ou centro com experiência em processamento, fermentação e segurança alimentar (Wageningen FRDC, Aarhus FOOD, Quadram Institute, IRTA Food Science, INRAE Saint-Genès).
Hub científico africanoPelo menos três entidades em Estados-Membros UA, com duas na mesma região (Norte, Oeste, Centro, Este ou Sul). Universidades como ICIPE Quénia, IITA Nigéria, CSIR-FRI Gana, Stellenbosch África do Sul, Eduardo Mondlane Moçambique.
Centros de aceleraçãoAceleradores e incubadoras com track record em food entrepreneurship em África (Westerwelle Foundation, GreenTec Capital, Africa Food Innovation Network).
Operadores DeSIRA+ e FNSSAEntidades com presença na rede DeSIRA+ e FNSSA Bilateral Cooperation (CIRAD, ZALF, IRD, FAO Sub-regional Offices).
Setor informal e ONGsFederações de processadores informais (FENATIA Senegal, ROPPA, AFROPAVE), ONGs com presença local (TechnoServe, Heifer International, AGRA).
Empresas alimentaresPMEs em fermentação, packaging sustentável, energia rural distribuída, com pelo menos uma empresa africana por consórcio com contrato comercial provado.
JRC Knowledge CentreArticulação com JRC Knowledge Centre on Global Food and Nutrition Security, exigida pela call. JRC pode ser parceiro com zero funding ou associated partner.
Beneficiários FSTPSelecionados via open calls, com prioridade a empreendedores africanos, mulheres, jovens e diáspora.

A composição-tipo realista para projeto RIA com cobertura UE-África situa-se em 14-20 parceiros principais, dos quais pelo menos cinco africanos. Cobertura mínima realista é de 8-10 países combinando 4-5 Estados-Membros UE e 4-6 Estados-Membros UA com diversidade regional africana.

Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem ângulo de entrada especialmente relevante neste tópico, por três razões cumulativas. Primeiro, a relação histórica e linguística com cinco países africanos lusófonos (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe), que oferecem entry points naturais para consórcios UE-África. Segundo, a presença sustentada de instituições portuguesas em programas de cooperação alimentar com África: o IICT, a Fundação Calouste Gulbenkian (programa Lusófono), o Camões IP, o Instituto Marquês de Valle Flor, todos com track record operacional. Terceiro, capacidade científica portuguesa em fermentação, segurança alimentar e bioeconomia que se aplica diretamente ao âmbito da call.

Em food technology e fermentação, o ITQB-NOVA é referência europeia em microbiologia de fermentações alimentares (queijo, vinho, fermentados portugueses), com transferibilidade direta para fermentações africanas (sorghum beer, ogi, gari, mahewu). O FFCT-NOVA, INIAV, ESB-UCP, IPB Bragança e ISA-ULisboa têm produção em food processing, packaging e safety. Em bioeconomia e circularidade, o LNEG, BIOREF Coimbra, NOVA SBE Sustainable Solutions Lab e Lipor (gestão de resíduos circular) são parceiros credíveis para WPs de subprodutos.

Em ligação com PALOP, o IICT (Instituto de Investigação Científica Tropical) tem coleções de germoplasma de culturas tropicais e história de cooperação científica com Moçambique e Angola. A UEM (Universidade Eduardo Mondlane), UAN (Universidade Agostinho Neto), ISCED Cabo Verde e UCB Bissau podem entrar como parceiros africanos via networks portuguesas. As ONGs portuguesas com presença em África lusófona (IMVF, ACEP, OIKOS, FEC) podem servir como ponte com setor informal e ONGs locais.

Em operadores empresariais portugueses com presença em África: NutreBem, Soja de Portugal, Frulact (com fábrica em Marrocos), IBEROL, Frize, Continente (Sonae) com operações em Moçambique e Angola. Empresas como Lusiaves, Pão de Açúcar e cooperativas alimentares podem servir de testbeds para tecnologias adaptáveis a contextos africanos.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Africa-led, não Africa-as-object: a call foi explicitamente construída para evitar projetos onde Europa é a parte ativa e África a parte beneficiária. As propostas com lead africano, ou pelo menos co-lead e com governance partilhada, ganham peso em "Excellence" e "Impact". A diáspora africana na Europa é elemento valorizado pela call.
  • Multi-actor approach demonstrável: a call exige formalmente combinação de researchers, processors (incluindo informais), farmers, NGOs e outros food systems actors. Sem mecanismos visíveis de governance multi-actor, a proposta cai em "Implementation".
  • Articulação com FNSSA: a call exige articulação com CEA-First CSA e International Research Consortium FNSSA. Sem mapping e mecanismos formais de cooperação com estes instrumentos UE-África, a proposta perde "Excellence".
  • Inovação social com diversidade: a consideração explícita de mulheres, jovens e diáspora na seleção de beneficiários FSTP é critério explícito. Propostas que não definam quotas ou mecanismos preferenciais perdem em "Impact".
  • Energia renovável e circularidade: a call exige processos baseados em energia renovável e circularidade de subprodutos. Sem WP de energia (solar, biogás, biomassa) e sem inventário de subprodutos por cadeia trabalhada, a proposta cai em "Excellence".
  • JRC Knowledge Centre: articulação obrigatória com JRC Knowledge Centre on Global Food and Nutrition Security. Sem isto, perde "Implementation".
  • Cobertura geográfica africana: mínimo legal são 3 entidades UA com 2 na mesma região. Mas para "Impact" europeu real, as propostas competitivas cobrem 4-6 Estados-Membros UA com diversidade regional (Oeste, Este, Sul, Central). Cobertura concentrada apenas em África Austral ou apenas em África Ocidental perde peso.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico é estratégico para Portugal num sentido específico: poucas entidades europeias combinam capacidade científica em food technology com network operacional em África lusófona. O encaixe é privilegiado para um cluster restrito de instituições portuguesas que tem ambas as dimensões. A oportunidade não é genérica: é direcionada a quem opera no eixo Portugal-PALOP em alimentação, fermentação ou bioeconomia.

A recomendação prática é tripla. Primeiro, o ITQB-NOVA, com produção em microbiologia de fermentação, é candidato natural a WP leader em fermentation processes para fermentos africanos tradicionais (sorghum beer, mahewu, ogi). O budget tipico para WP leadership académica situa-se entre 400 mil e 700 mil euros. O posicionamento via cooperação histórica com UEM Moçambique e UAN Angola dá entrada natural a parceiros africanos credíveis. Segundo, o IICT e ISA-ULisboa, com expertise em culturas tropicais e cooperação científica com PALOP, podem assumir WPs em culturas subutilizadas (mandioca, inhame, sorgo, arroz crioulo PALOP) com budget similar.

Terceiro, ONGs portuguesas com operação em África (IMVF, ACEP, FEC, OIKOS) e a ADC podem entrar como operadores de FSTP e mediadores com setor informal. O budget aqui situa-se tipicamente entre 200 mil e 400 mil euros, mais o pool de subgrants. Adicionalmente, a NOVA SBE Sustainable Solutions Lab pode entrar com WP em multi-actor governance e impact assessment, com budget mais reduzido (150 mil-250 mil euros) mas com função integrativa importante.

O que não funciona é entrar com proposta que trate África como mercado-alvo passivo de tecnologia europeia. As propostas vencedoras tratam África como co-produtora de conhecimento, com lead ou co-lead africano explícito e com transferência reciproca de competências. Adicionalmente, sem articulação real com setor informal (não apenas como objeto de estudo mas como actor com voz no consórcio), a proposta tem dificuldade em passar threshold de "Impact".

Vale ainda nota estratégica: este tópico é um dos pontos onde a Comissão Europeia testa a Global Gateway Strategy enquanto agenda científica concreta. As propostas vencedoras tornam-se vitrines da Global Gateway, com peso reputacional alto pós-projeto. Para Portugal, a participação aqui é também ferramenta de diplomacia científica e cooperação para o desenvolvimento, com leveraging direto sobre o Camões IP e o INE Cabo Verde, Moçambique e outros institutos nacionais de estatística africanos.

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